Nos fundos de um restaurante chinês

Assim como diversos millennials, meus 20 e poucos anos estão sendo disfuncionais, na ausência de um termo melhor. A vida me reservou um emprego de faz tudo em um restaurante chinês e um bico de redator em um site para acompanhantes de luxo.
Pois é, disfuncional. Por “restaurante” talvez eu esteja sendo generoso, já que o estabelecimento está na linha entre a sua típica e estranha pastelaria chinesa e um restaurante propriamente dito.
Ele é mal iluminado e tem todo tipo de penduricalho chinês espalhado. Na minha distorcida avaliação estética, não é uma organização feia — é uma aparência peculiar, eu gosto.
O restaurante chama Ganso Dourado. Não, sério, o nome não poderia ser mais semelhante ao de um restaurante vindo diretamente de um filme da Sessão da Tarde. Mas é isso, Ganso Dourado.
O mais engraçado é que nós não temos um ganso dourado como adorno dentro do restaurante, mas um enorme dragão na parede atrás do caixa. Vai entender.
Meus turnos aqui começam às 16h e vão até 1h. Nesse horário, eu vejo os cenários típicos de uma pastelaria chinesa mesclados aos de um restaurante.
Trabalhadores autônomos comem seus salgados não tão mornos de presunto e queijo, o ocasional bêbado pede a dose da cachaça mais barata, pessoas estranhas se amontoam durante a tarde para comer mais salgados não tão mornos.
Durante a noite, um casal ou outro aparece para comer bun (aquele pão que eles comem no Kung Fu Panda), alguns amigos aparecem para comer um yakisoba, que não chega bem a ser um yakisoba — mas por um valor acessível, quem tá ligando? — e outras pessoas se aglomeram para beber e comer porções de batata frita.
Como eu disse, a típica mescla entre Brasil e China, mas com um ar um pouco mais sério do que o normal. O ar mais sério não impede que o restaurante tenha uma mesa de Mahjong com frequentadores fixos, ou o comparecimento pontual digno de um inglês de nossa seleta casta de bêbados.
O restaurante tem dois proprietários. Um deles é o velho Chang Wang, que não sabe uma palavra de português, e está sempre de mau humor e fumando dentro do restaurante. Seu traje de sempre é composto por um par de chinelos, camisas sociais listradas e dois botões abertos, e uma calça jeans.
A filha do chefe… Bem, imagine uma integrante da máfia chinesa. O que você imaginou? Bom, eu imagino uma mulher elegante, com vestidos abertos nas pernas e detalhes com dragões, em padrões de vermelho e dourado. Essa é An Wang. Ela é tão mau humorada quanto o pai, com a diferença de ser bonita e saber português.
Além deles, o primo mais novo da An trabalha no caixa, Chen Wang. Ele é o típico cara de 18 anos que ouve trap demais e acha que é um traficante. É bacana trabalhar com ele, quando ele não está falando em atirar em alguém ou virar um “gangsta de fato”. Ele tá sempre usando bandanas e colocou algo no dente que ele afirma ser prata. Eu duvido bastante.
O Ganso Dourado fica perto da minha casa, o que não impede que eu chegue atrasado com frequência. Com o meu uniforme preto escrito em dourado “Ganso Dourado” (e a mesma coisa escrita em chinês logo abaixo), eu entro no restaurante.
Chen está no caixa, feliz por eu ter chegado. Enquanto eu não chego, além de cobrir a função de caixa, ele faz o meu trabalho — que é basicamente tudo. De vez em quando a An fica no caixa para que ele aproveite uma noite ou outra.
“E aí, Romeu?”, ele me cumprimenta. “Atrasado de novo, my nigga”. Sério, “my nigga”?
Romeu sou eu. Eu gostaria de dizer aqui que eu sou o típico garçom de um restaurante disfuncional, o cara alternativão com um coque samurai e tatuagens no braço, com aquele charme misterioso que atrai as garotas igualmente alternativas.
Porém, infelizmente eu pareço uma caixa de papelão com uma carinha feliz feita com uma caneta piloto preta. Só o seu típico branquelo de classe média meio depressivo. É isso.
Eu cumprimento Chen e não perco tempo. O velho já está resmungando (eu não entendo, então eu não tenho como me ofender) e a An está provavelmente no escritório, de onde ela sai pouco.
A tarde escorre sem nada diferente. Servir as mesas, servir o balcão, repor os salgados e o estoque. Os clientes habituais começam a chegar e integram seus postos. Comecemos pela mesa de Mahjong, os companheiros de jogo do Velho.
Tem esse cara que chamam de Hu, um chinês de meia idade muito gente boa e com uma aparência onde nada se destaca. Ele sempre dá boas gorjetas, me ajudando a fazer um extra no fim de cada expediente. Além disso, ele sempre alimenta os gatos de rua que aparecem por aqui.
Ao lado dele na mesa tem o Huang, um chinês acima do peso e bem debochado. Ele já debochou de mim algumas vezes, mas como ele também não fala português, diferente do Hu, eu não me importo. O que me incomoda são só as risadas, sempre cheias de energia.
Completando a mesa de Mahjong onde ficam o Velho, Hu e Huang, tem o Hei. Ele é o típico chinês dentuço de olho muito puxado que vira e mexe é retirado daqui à força pelo seu irmão gêmeo, Bai. Hu já me contou que eles têm um trabalho importante e próspero, mas Hei prefere ficar jogando aqui no Ganso.
Além deles, a lista dos nossos habituais frequentadores noturnos conta com uma chinesa que consegue ser mais atraente que a An. Ela sempre se senta na mesa mais próxima aos banheiros e se chama Niao.
Ela tem pernas longas, seios fartos e um rosto capaz de fazer um judeu apertar a mão do Hitler. Não é incomum eu ficar de trás do balcão admirando suas pernas deixadas à mostra por suas saias curtas e fitando seu decote.
Eu nunca entendi bem, mas a An me fez prometer sempre atender a mesa da Niao rapidamente. Ela diz que eu não faço parte do “público alvo”, mas nada impede que a mulher mude de ideia.
Eu não sei o que ela quis dizer com isso. Talvez a Niao decida dar uma chance para um cara estranho como eu? Bom, essa possibilidade me agrada, mas o descumprimento da ordem da An resulta na minha demissão — e eu preciso da grana. Então eu atendo rapidamente quando ela pede uma bebida, já que ela nunca come aqui, e retomo meus afazeres.
Por último, tem o velho Xian. Ele é tão agradável quanto o Hu, a quem Xian sempre reverencia e eu nunca entendi o motivo. Sempre me conta umas fábulas chinesas de onde ele vem, e me dá uns conselhos que estranhamente se aplicam muito bem aos momentos pelos quais eu passo, ainda que eu nunca fale deles com Xian. Seu lugar de costume é uma mesa ao canto, o mais longe possível do barulho.
Contudo, hoje o dia está diferente. Hei não está na mesa de Mahjong, e sim um cara que eu não conheço. É um chinês alto e esguio, de ar soberbo e que usa óculos escuros mesmo à noite. Eu fui obrigado a servir o copo dele diversas vezes, e ele sempre me olhou com ar de desprezo quando eu ia à mesa.
Eu me distraio atendendo os outros clientes — habituais e novos — e a noite passou sem qualquer problema. Até o momento em que um problema ocorreu.
O chinês esguio começou a discutir em mandarim com o Huang, e não parecia nada bacana. Hu e o Velho ficaram quietos, deixando que os dois discutissem. Eu nunca vi Huang tão irritado, ele sempre tem um ar tão cínico e despreocupado. Talvez o cinismo ainda maior do cara esguio tenha irritado ele? Eu não faço ideia, uma legenda nessas horas faria uma grande diferença.
Huang decide então se levantar e deixa o restaurante furioso. O chinês esguio começa a rir ainda mais e eu vejo ele pegando dinheiro na mesa. Bom, parece que era uma noite de apostas.
Eu vou até Chen, que serve de tradutor nesses casos, para perguntar o que aconteceu. Noto que ele está pálido, olhando fixamente para a mesa que agora conta com um jogador a menos, enquanto o homem esguio continua com um sorriso cínico no canto dos lábios.
“Ele… Ele trapaceou”, disse Chen. “Caramba, ele trapaceou. Esse cara não faz ideia da merda que acabou de fazer, ele trapaceou na pior mesa de Mahjong para fazer isso”.
“Como você sabe disso?”, eu perguntei.
“Romeu, você já viu o Huang ficar puto alguma outra vez? A única coisa que ele despreza é trapaça, e era sobre isso que eles estavam discutindo”, explicou Chen.
“Bom, sobrou pra mim”. Era An, que saiu do escritório e estava se dirigindo à mesa. Pelo que eu entendi, ela substituiria Huang para que o jogo continuasse.
O suposto trapaceiro parecia estar cantando a An em chinês, mas ela parecia estar pouco se importando. Sendo sincero, An parecia pouco se importar com o mundo. Isso não impediu que eu ficasse injustificadamente enciumado e tomasse desgosto pelo homem esguio.
A noite prosseguiu sem Huang e o relógio já se aproximava do horário de fechamento. O mais estranho é que Xian e Niao ainda não tinham ido, observando cautelosamente a mesa de Mahjong.
O novato da mesa de Mahjong então pareceu ter vencido a última partida da mesa — ele pareceu ter vencido muitas partidas — e se levantou para ir embora. Em ar de deboche disse “Xie Xie”, agradecendo pelo dinheiro, e se direcionou à porta dos fundos.
Eu não faço ideia de quem indicou ele para substituir Hei nos jogos de hoje, tampouco sei o nome dele. A única coisa da qual eu tenho certeza é que ele ganhou uma quantidade considerável de dinheiro e partiu pelos fundos do restaurante.
An se levantou da mesa, suspirou, bateu as mãos no vestido e disse algo em chinês. Do meu lado, atrás do balcão, Chen deu de ombros e Niao abriu um sorriso. An caminhou de volta ao escritório e fechou a porta, enquanto Xian e Hu pareciam tristes. O Velho estava apenas fumando e fitando o nada, como sempre.
“Ei, Chen. O que tá rolando?”, eu decidi perguntar.
“Nada, cara. Por que essa pergunta do nada? Eu, hein! Escuta…”, Chen pareceu hesitar no que ia falar, mas retomou a frase, “… Por que você não vai levar o lixo lá atrás, hein?”.
Achei estranho ele ignorar o que acabou de acontecer e o clima pesado do restaurante, mas assenti com a cabeça e fui levar o lixo.
A lixeira fica nos fundos e, após preenche-la com algumas sacolas grandes e pretas, encostei nela e acendi um cigarro. Eu não fumo tanto, mas decidi ficar ali no beco aproveitando o vento fresco para encerrar a estranha noite.
Eu deveria ter entrado. Enquanto fumava meu cigarro, ouvi algo colidir com a parede do beco com um baque seco. Para minha surpresa, era o chinês esguio, que parecia ter sido arremessado e agora estava deslizando pela parede até o chão.
Pouco depois, Huang apareceu no beco andando rapidamente, e as coisas escalaram rápido demais. Seus olhos ficaram vermelhos, completamente vermelhos, e saltaram das órbitas. Eu fiz a única coisa que um ser humano normal poderia fazer: entrei em pânico e me escondi atrás da lixeira.
O corpo de Huang tomou um tom lilás, enquanto sua boca ficou disforme, tomando proporções muito maiores. Com um sorriso, ele exibiu dois arcos repletos de dentes afiados. Além de mim, agora o chinês esguio também estava em pânico.
Tudo ocorreu rápido. Huang arrancou a cabeça do homem com uma mordida, nem ao menos dando tempo para que ele gritasse. Em poucos segundos, o restante do corpo foi engolido pelo agora monstro lilás de olhos vermelhos e esbugalhados.
Terminado o serviço, Huang deu dois tapas em sua barriga mais saliente do que o habitual e sua aparência começou a voltar ao normal. Ele ficou olhando para o céu por um tempo, antes de virar as costas e se direcionar para sair do beco.
Eu já estava prestes a sair de trás da lixeira quando ele parou pouco antes de deixar completamente meu campo de visão. Huang se virou para onde eu estava e falou pela primeira vez em português.
“Idiota, se não for pedir demais, vamos fazer desse o nosso segredinho”. Huang então deixou completamente o beco. Quando voltei apavorado para o restaurante, Xian e Niao já tinham ido. Chen também já havia deixado o caixa, ficando apenas o Velho.
“Ei, deixa que eu fecho. Vai pra casa”, disse An sem cerimônia atrás de mim, fazendo com que eu saltasse de susto. An sendo gentil era algo muito incomum, ela geralmente é reticente e não se importa com o que os outros pensam ou sentem.
“Ah… Certo então. Até amanhã, An”. Eu me despedi e, como de costume, ela não respondeu.
Fui pra casa e foi difícil me concentrar na atividade que desenvolvo de madrugada, preenchendo perfis de acompanhantes de luxo.
Adjetivos como “mimosinha” e traços como “peitinhos apontando para o céu” nunca foram tão difíceis de incluir em um perfil, uma vez que a única coisa presente na minha cabeça era um monstro lilás e de olhos vermelhos.
Um monstro com quem agora eu compartilho um “segredinho”.
