Meu querido crime

Meu querido o que rapaz? Ele que começou, ele disse na frente de todo mundo, “acha safadeza roubar pai de família, que o certo era roubar um banco”. Porra! Você mesmo sabe, eu esperei 5 horas pro caminhão passar. 5 horas naquela porra daquele matagal, ai o cara passa, agente segue ele. Ele para num posto. Eu vou enquadrar. Aquela adrenalina toda. Puta pressão. Eu com o ferro na cinta, ai o cara entra numa multidão, eu fico vendo aquela porra toda, e vejo as câmeras mermão, eu vejo as câmeras, televisão porra, sabe? Televisão de verdade, era festa dos caminhoneiros Shell porra, eu sai no sapatinho, coração a milhão.

Agora é fácil você gritar “acha safadeza roubar pai de família, que o certo era roubar banco”. Sabe merda nenhuma não, aquele caminhão da Coca você lembra? Pegamos a porra, num tinha um filho de Deus pra ajudar a esconder a carga, ai fomos virar profissional, pagamos o chão pro mano, nada mais justo. O cara vive de alugar o chão. Todo mês 10% do chão. Agente saia todo dia pra correr atras e ninguém queria os bagulho. Uma porra de um dono de bar, só bastava isso. Adega. Padaria. Qualquer merda meu irmão, mas não, e cada dia tinha menos fardo, no último mês tinha menos da metade da mercadoria, porra! Eu robo pra ser robado? Agora prestenção então, antes de ficar de falação tem que entender. Aquele caminhão você mesmo sabe meu irmão, o corre que foi pra ficar de olho. O cara disse que tinha mais de 100 mil de nota, e tinha mesmo, mas 4 pneu de trator porra? Onde vou vender pneu de trator? Ai tivemo que abandoná a porra num lugar neutro, se agente abandona numa biqueira, ai suja mesmo mermão. Agente pode até ser chamado pras idéia, veja se é fácil porra? Agora o cabra vem vomitar que, “acha safadeza roubar pai de família, que o certo era roubar um banco”?

Trecho do livro “Os ricos também morrem”
Ferréz, editora Planeta.

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