Reflexos íntimos

Eu sou um homem de sucesso, dono de uma grande empresa brasileira, você nunca esperaria de mim o que está prestes a ler. Ou talvez o que eu esteja prestes a relatar é apenas uma confirmação para as fofocas das intermináveis pausas para café de meus funcionários.

Não sei muito bem o que deu em mim, talvez uma epifania, ou a crise da meia idade, um desejo libidinoso e sujo para dar um pouco de excitação à mesmice do dia a dia. Foi de supetão, ao mirar meu reflexo no espelho enquanto escovava os dentes no banheiro branco de aparência esterilizada.

O movimento da escova em minha boca me hipnotizou, a ereção veio quase que instantaneamente como um animal no cio eu senti o prazer pulsar em mim de um jeito que nunca senti antes. Não sei dizer o que tanto me encantava, talvez a feminilidade estampada nas minhas feições masculinas com o cair de uma mecha ondulada; ou talvez a protuberância da escova em minhas bochechas.

O encanto foi quebrado pela porta que se abriu com um estalo. O calafrio em minha espinha me deixou estático enquanto minha esposa entrou no banheiro reclamando das outras mães da escola de nossas gêmeas.

Meus olhos estarrecidos observavam-na enquanto ela abaixava a calcinha para sentar no vaso. Ela continuava a falar sobre as outras mães sem mesmo perceber os sinais de erotismo em meu corpo, foi uma sensação surreal.

— Vem para cama, amor! — Ela disse enquanto lavava as mãos, encostada em minha pele que suava frio. Depois saiu e me deixou sozinho com um sentimento de alívio.

Sacudi a cabeça na tentativa de afastar os pensamentos, não queria entender o que havia acontecido, queria enterrar aquilo nos buracos mais escuros da minha mente. Entretanto aquele dia foi só um prelúdio e tudo aconteceu rápido demais.

O espelho se tornara meu companheiro de descobertas. No meio da brancura dos azulejos eu me sentia o foco das luzes em um show de horrores particular. Escondia meu membro entre as pernas e me cobria com o robe rose gold de seda, enamorado com o reflexo delicado que encontrava refletido.

Aos poucos o cabelo foi crescendo, aos poucos eu fui me viciando na gilete, gostava de sentir minha pele toda lisa. Cada dia mais ousado, lembro-me bem de entrar em uma loja de sapatos e escolher a sandália prateada com salto agulha.

— Você tem no número 42? — Perguntei a vendedora com naturalidade, mas a vergonha veio na sequência. — Minha esposa é muito alta! — Me justifiquei com um sorriso amarelo.

O sapato ficou guardado na gaveta do meu escritório, meu segredinho sórdido. Certo dia sentado em minha sala pesquisando sobre o assunto me deparei com um curso de Drag Queen. Olhei para minha secretária desconfiado de que todos sabiam o que eu estava fazendo, mas ela trocava mensagens no messenger da empresa inabalada.

Eu brinquei com a ideia de fazer o curso por alguns meses e ela me trazia uma felicidade intensa. Porém parecia uma ponte que eu tinha medo de atravessar. Eu não tinha com quem compartilhar meus desejos, todos os meus amigos eram intolerantes e eu já havia me afastado deles. Admitir o que estava acontecendo comigo para minha esposa seria como admitir uma traição.

Certa noite em família sentados todos no sofá assistindo um filme da Disney eu observava meu filho de 16 anos digitando incessantemente no celular. Eu queria saber quem era a namoradinha da vez. Ele parecia tão absurdamente normal que eu não conseguia evitar de me sentir uma aberração. — Ele não cansa desse aparelho? — Cochichei a minha esposa.

— É o fear of missing out. — Ela explicou em um tom de soberba, adorava estar a par do que se passava na vida das crianças. — Ele acha que se ele se desconectar vai acabar perdendo algo muito importante.

Pode ter parecido uma frase boba de efeito para você, mas aquilo me tocou de alguma forma. Depois daquele dia não conseguia mais afastar o medo de estar perdendo algo muito importante em minha vida. O primeiro dia do curso foi conturbado, percebi que não estava nem preparado para ficar em pé na sandália prateada sem parecer um pato desengonçado.

Mas foi só olhar meu reflexo maquiado no espelho que a certeza de que a minha vida nunca seria a mesma me atingiu de uma maneira ensurdecedora.