Eu louca? E essa sociedade que é normal?

Fernanda Mazza
Sep 30, 2018 · 9 min read

Resumão se você tem preguiça de ler:
Nos afastando do nosso estado natural passamos a nos odiar, achar errados e consumimos mais, extravasamos na raiva e em vícios para buscarmos a ‘perfeição’ jamais possível de ser atingida, levando a frustração e doenças psíquicas ou ao que chamo de loucura negativa.

A(s) droga(s) da nossa geração

Arte por Daniella Salamão

Quem tem depressão/ ansiedade? Uma galera né? Engraçado, essa ‘geração prozac’, ou desvenlafaxina, fluoxetina, rivotril, droga para dormir, pra acordar, pra levantar, pra viver, pra concentrar, pra extravasar, pra relaxar, pra dançar, pra tudo. Não se vive mais naturalmente, é produtividade até o esgotamento. São Paulo que o diga (acredito que seja um dos lugares onde mais se sente no dia a dia que tempo é dinheiro. E os preços de imóveis, objetos de consumo, etc só subindo mais e mais e o povo se fodendo mais e mais. Ou estou errada?

Ideal de sucesso e ritmo de trabalho

Arte por Daniella Salamão

O que é sucesso pra você? Ganhar bem? Ter mestrado, doutorado e o máximo de títulos possíveis? Produzir muito? Ser o funcionário do mês na sua empresa? Morar sozinho? Ter uma família? Ter independência financeira? Trabalhar com o que ama? Ter seu próprio negócio? Se basear em resultados de quantos diagnósticos e tratamentos são eficazes? Aumento de ticket médio? Fidelização de cliente? Satisfação do cliente? Relação saudável, de confiança e cumplicidade dentro do ambiente de trabalho? Fazer muitas horas extras? Ou poder sair do trabalho cedo, ter tempo para lazer / sozinho ou com amigues no mesmo dia? Ter uma casa sempre bem arrumada? Viajar sempre que quiser? Ter previdência privada? Ser mãe? Ser pai? Ter bons relacionamentos? Se sentir bem consigo? Sobreviver a noite que vai encher a cara sem vomitar? Não usar drogas? Usar todas as drogas possíveis de uma vez? Ser dono do nariz? Fazer uma tatuagem impulsiva? Controlar pessoas? Controlar seus sentimentos? Não perder a sensibilidade? Ter muitos seguidores no instagram e seguir poucos de volta? É popularidade? É fingir que ta tudo bem nas mídias sociais?

A cultura do diploma, trabalho ou estudo constantes, super produtividade, ignorância emocional, cobrança através de numeros, notas, presença física, horários fixos, jornadas longas (e contra-produtivas na realidade). Recompensas e punições baseados apenas nestes números. Você não tem sua individualidade, vocé é numero de seguidores e seguidos, de ‘amigos’ virtuais, você é uma cifra, que produz, gera lucro e/ou despesas e na empresa é visto como mais uma engrenagem, cultura do consumismo, da falta de segurança (seja ela ligada a assaltos, crise econômica do país ou sua, da dua família), da pirâmide de pessoas que vão crescendo e consumindo, mais e mais e mais. E se trabalha mais e mais e mais. Um dia você chega lá, continue para conseguir (ou colocar o lá de cima muito mais pra cima e você se matar para comer as migalhas).

Desigualdade social, super população e falta de empregos ‘padrão’ para todas

Arte por Daniella Salamão

Todos temos uma energia divina dentro de nós. Você acredita nisso? Infelizmente o mundo cresceu muito, vivemos numa sociedade capitalista hiperprodutiva, consumista, cheia de padrões. Agora, quando vem um ‘favelado’ te pedir esmola ou comida e você pensa: vai trabalhar vagabundo. Você acha mesmo que com aquelas roupas, aquele cheiro, aquela desumanização, morando dentro de papelão, bebendo pra se aquecer, nesse mundo hiper populoso e super competitivo, vão dar um emprego pra ele? Só se alguém for muito bacana e resolver pegar na mão e pagar estudos.

Profeta Gentileza era o que? Jesus Cristo andava bem vestido pra agradar os outros? E tantos outros mestres espirituais…?

Padrões de beleza e comportamento

Arte por Daniella Salamão

O que se espera nos padrões de beleza atuais? Todo mundo ta careca de saber. Talvez não como eu, que estou literalmente, rs. Mas tentamos nos ajustar ao máximo e sofremos muito no processo odiando nossos corpos que estão mais próximos ao ‘natural’.

Dietas, cintas, roupas, maquiagens, botox, cirurgias, academias, hormônios, anabolizantes, conquista de clientes de yoga e outras práticas corporais pela aparência, flexibilidade e outros fatores físicos considerados atrativos e não pela parte espiritual. Sorrisos e sempre fingir que ta tudo bem mesmo com a dor do salto alto e das tantas opressões que rolam por aí. Será que se as pessoas fossem bem tratadas independente de aparência haveria tanto consumo e distanciamento do nosso natural?

Comportamental

Gênero: ligado socialmente a expressão de gênero, assim que ‘homens’ e ‘mulheres’ são reconhecidos; além de haver uma pressão social de que os genitais devem ser iguais as de pessoas cis (que não são transexuais). Ou seja, aparência física feminina ou masculina e genitais que ‘combinem’ com esta aparência.

*Peço perdão por ter falado apenas em termos binaristas e de sexo, é só pra não confundir muito a cabeça das pessoas que lerem inicialmente.

Padrão heterocisnormativo, cultura do estupro e papéis de gênero

Arte por Daniella Salamão

Baseada em gênero, o fato da socialização de meninos e meninas ser diferente é um dos grandes problemas sociais atuais. Meninos que reprimem seus sentimentos e não lidam com eles, que não relatam abusos, que extravasam os sentimentos através da raiva, pois ‘meninos não choram’. Meninas que são ensinadas que não podem dizer não, que isso é questão de educação, que devem ser delicadas e aceitar os carinhos que as pessoas querem lhes dar, que adulto é superior e você sempre deverá obedece-los mesmo que se incomode muito com algo com relação a invasão de seu próprio corpo. Resultado? Homens agressivos ou com sexualidade exacerbada, que acham que tem direitos sobre os corpos das mulheres; e mulheres que estão suscetíveis a sofrerem abusos desde a infância, que não conseguem reagir no momento do abuso e que se sentem extremamente indefesas e frustradas. Acham que precisam de outro homem para defende-las.

Estupro conjugal EXISTE, pedofilia EXISTE E MTA, abuso por parte de FAMÍLIA é extremamente comum.

Sexualidade

Aprendizado sobre

Sexualidade infelizmente é um dos maiores tabus atuais. Raras vezes se dialoga sobre ele em casa ou na escola, e quando se fala é sempre como algo perigoso, expositivo, cheio de riscos e culpabilizador. Então ninguém toca no assunto. E como se aprende a respeito dele? É muito comum que meninos aprendam sobre sexo no pornô e meninas em novelas, comédias românticas ou filmes adolescentes fofos. Como é o sexo para cada um? Bem diferente né? O pornô muitas vezes mostra uma cultura do estupro, bem triste que ele pode entender como o que é certo a se fazer, e que o não é um charme. Além do falocentrismo e no foco no prazer masculino. Pesado né? As meninas aprendem como algo carinhoso, devagar, fofo, romântico e INDOLOR. Deve ser uma decepção pra todas a primeira vez.

Desejos sexuais

Arte por Daniella Salamão

Além de mulheres não serem vistas como pessoas que tem desejos e vontades no sentido sexual (ah ta, tipo Virgem Maria, sua mãe inclusive nunca transou). E homens serem tidos como pessoas que tem desejos ‘carnais’. Ahhhh, pelamor(!), vam pará com esse trem!? Isso não faz o menor sentido. Inclusive cria-se a cultura de que a mulher só transa para satisfazer o homem, SEM ter vontade, ela se ‘sacrifica’ porque o ama. (Vish, feio ein, leiam meu texto sobre Amor Infinito se possível, mas tem relação também com cultura do estupro.)

LGBT

Arte por Daniella Salamão

E o mais engraçado é que não pode ser LGBT! Mas o homem transa um monte e a mulher pouco… como faz então? Não pode transar homem com homem nem mulher com mulher? Mulher com mulher não pode porque ‘elas só estão brincando’, ‘nem sentem nada’, porque ‘falta algo ali no meio’. Falta nada não, falta vocês não se meterem onde não são chamados e deixarem as pessoas serem feliz com quem se apaixonam e com quem elas querem estar. E se é bi então?

Mas vamos lembrar que não podemos nos assumir nesta sociedade pois sofreremos bullying na escola, toda forma de opressão desde crianças (como o tio que grita para a criança ‘afeminada’ FALA COMO HOMEM!) Complicado né? Crescer assim sendo reprimido a vida inteira é muito difícil.

Uma pornochanchada

Interessante que acredito que retrata perfeitamente nossa sociedade ‘normal’, de forma caricata e bem pesada. Há cenas de homo/bifobia, cultura do estupro, homofobia internalizada, traição, não monogamia só para o homem, pressão social para início da vida sexual ‘hetero’ para o homem, etc. Esteja preparade para o que vai assistir!

Trabalhos marginalizados

Arte por Daniella Salamão

Trabalhos de valor sentimental / psicológico, ou que envolvem o corpo e contato físico, não são valorizados, ou levados a sério. Os mesmos podem levar muito mais tempo de estudo e dedicação que os trabalhos tidos como comuns e ideais ao sucesso atualmente. Coisas novas exigem mentores ou aprendizado através de teoria e prática por conta, testando-se primeiro em si para depois fazer no outro, tentativa e erro; pensa que é fácil e coisa de ‘vagabundo’ ser auto-didata ou se dedicar a aaaanos a algo que comumente não se valoriza e não se vê como um ‘trabalho sério’? Qualquer área artística / terapêutica num geral não tem um preço único estabelecido: música, dança, yoga, escrita, desenho, pintura, animações, design, psicologia, shibari, reiki, meditação. Qual o preço da sua transmutação e conexão consigo e com o mundo? E o resultado sempre será dado em reflexões, momentos de felicidade, confiança, auto conhecimento, auto aceitação, melhora de auto estima, consciência corporal, desafios, transformações internas, controle sobre emoções, corpo e alma, até talvez livramento de relações abusivas. “Eu prefiro ser essa metamorfose ambulante, do que ter aquela velha opinião formada sobre tudo.”

Tudo que envolve contato físico

Trabalhos que envolvem práticas corporais principalmente com contato físico com o outro são extremamente marginalizados: massoterapia, shibari, lutas (em especial quando mulheres ‘se metem’ no meio). Engraçado que acham que TUDO que tem a ver com contato físico, em especial envolvendo mulheres, tem a ver com SEXO. Porque isso? Nossos corpos são extremamente sexualizados pelos outros o tempo inteiro. Quantas vezes você, que tem o corpo feminino, não andou na rua e ouviu comentários escrotos e olhares agressores e invasores? Massoterapia, luta, shibari, não tem NADA a ver com sexo, ele podem ter envolvimento sexual se ambas as partes quiserem, mas o foco deles é totalmente outro. Porque não estamos mais acostumados a tocarmos uns aos outros com consentimento e por longos períodos SEM que isso seja sexual/izado?

E se envolve sensualidade/sexualidade?

Aí fodeu né? Literalmente. rs. O estigma é gigantesco, a mulher é excluída socialmente, apesar de envolver algo que é sucesso pra alguns: ganha-se mais dinheiro mais rápido num geral do que com as profissões que necessitam de estudo (e por muito tempo) para se exercer, consegue-se ‘independência financeira’ apesar de se depender de clientes homens, aí dá pra divagar sobre daddy issues que a galera acho que rola com essas pessoas, mas outra hora faço isso. Garotas de programa, camgirls, atrizes pornô, etc. Também há trabalhos como pole dance, shibari, tantra, em que pode haver uma energia sexual. Mas porque todo esse estigma? Porque não se fala de sexo/ sexualidade como algo NATURAL do ser humano.

Como reagimos?

Temas dos próximos textos: loucura negativa e loucura positiva. Sucumbimos e nos entregamos a essa sociedade ‘normal’ ou decidimos lutar loucamente pelo nosso bem estar e dos nossos amores.

Fernanda Mazza

Written by

Enlouqueci para sobreviver. Me expus para militar pela empatia. Resolvendo as namastretas e em contato com os namastês empáticos e recíprocos.

Welcome to a place where words matter. On Medium, smart voices and original ideas take center stage - with no ads in sight. Watch
Follow all the topics you care about, and we’ll deliver the best stories for you to your homepage and inbox. Explore
Get unlimited access to the best stories on Medium — and support writers while you’re at it. Just $5/month. Upgrade