Metacidade

Final de agosto. Os carros continuam correndo. As pessoas continuam andando. Vida que segue.

Minto. Todo dia é um dia. Tudo muda e nada muda na grande cidade. Pequenas vilas amalgamadas dentro de um grande megazord de prédios e pessoas e carros e motos e árvores e demais membros do reino vegetal.

E estamos aqui. Presos. Libertos. A ilusão de livre arbítrio que ao mesmo tempo que é prisão, é libertação.

Já dizia Bandeira na década de 1920 que não acreditava em lirismo que não é libertação. Meu lirismo é um prato de arroz com carne e três latões de cerveja. A lírica do universitário expatriado. Mas, ao contrário de Bandeira, não tive uma promessa de uma vida inteira cortada pelo temor de morrer de tuberculose a qualquer hora.

E os carros vão parando de passar. E as pessoas vão chegando em casa. Se não em casa, pelo menos no último terminal urbano antes de sua jornada acabar no dia que já virou outro.

Já virou meia-noite na capital. Já virou meia-noite na zona rural, e no meio do mato, e nas roças em que ainda se faz fogueira para assar batata-doce porque é época de batata-doce e foda-se se você não esperava por batata-doce, vai ter batata-doce sim.

Enquanto isso tem gente nas varandas e gente nas escadas e nos mercados e nos postos de gasolina. E a vida vai fluindo tal qual glóbulos brancos e vermelhos em artérias e veias dentro do nosso corpo. Organismo urbano. A cidade como corpo em (de)composição.

Noite. Vento frio. Em doze horas, calor. Em vinte e quatro horas, seremos totalmente diferentes. E tudo terá sido. Planejado ou não, será.

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