Soledad

Fer Zeca Koch
Jul 20, 2017 · 3 min read

Hoje fazem 7 anos que você partiu e portanto devem fazer 7 anos e 2 meses que nos conhecemos.

Assim como eu, você era uma estrangeira naquele país e nossos caminhos se cruzaram enquanto você lutava para viver na cama daquele hospital público. Diferentemente de mim que havia ido com um bom emprego você saiu de seu país atras do sonho de uma vida melhor e acabou tendo que vender chipas na porta de um estádio para sobreviver. Depois de quase um ano como ilegal e “autônoma” um dia você se sentiu mal e foi cair na emergência do mesmo lugar onde eu fazia trabalho voluntário. Seu diagnóstico: Câncer no útero com metástases e HIV+.

Eu visitava os pacientes internados com HIV e um dia abri a porta do quarto onde você estava. Desconfiada no início mas ao mesmo tempo carente por atenção começamos a conversar e depois de uns minutos já estávamos rindo e falando sobre as guaranias do teu Paraguai natal. Nos víamos 3 vezes por semana e soube pelas enfermeiras do andar o quando você ansiava por estes minutos de atenção. Infelizmente haviam outros pacientes e eu sempre tinha que te lembrar que outros precisavam minha atenção também.

Foram 2 meses de convivência em que tantas histórias você dividiu comigo. Haviam dias piores, haviam dias melhores mas por mais dor que você sentia sempre se esforçava pra sorrir quando eu entrava no quarto.

Um dia que não era minha escala de estar no hospital recebo uma ligação de uma enfermeira dizendo que você estava me chamando, que queria falar comigo, que tinha pressa. Apesar do dia cheio no trabalho fui direto do escritório pro hospital te ver. Você me recebeu dizendo: «Fernando, eu sinto que estou morrendo e não quero ficar sozinha. Fica comigo?» Que soco no estômago que eu levei naquele momento. Meu primeiro impulso foi de negar a realidade, sair correndo dali e me refugiar na minha vida. Mas sabia que você não tinha mais ninguém naquela cidade, que você era a encarnação perfeita de seu nome Soledad. Respirei fundo, tomei coragem, tirei o paletó, sentei ao seu lado e peguei sua mão. Você me passou todas as instruções do que queria que acontecesse e quem eu deveria avisar. Choramos juntos, falamos muito somente através de olhares até que depois de algumas horas você começou a se apagar.

Lembro que eu estava olhando para a janela e com um turbilhão de emoções dentro de mim quando de repente você apertou minha mão. Quando olhei para o teu rosto você não estava mais lá, partiu de olhos abertos do mundo em que muitas vezes foste invisível.

Hoje fazem 7 anos que isto aconteceu, véspera do dia do amigo, e eu sempre lembro de você e das coisas que me ensinou. De todos os pacientes com quem convivi você é a que mais me marcou e apesar de uma relação tão breve sei que fomos grandes amigos.

Dondequiera que estés, que estés en paz Soledad. Acá todavia se te recuerda y se te quiere muchísimo!

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    Fer Zeca Koch

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