Michael Keaton é um dos nossos

No dia 22 de fevereiro deste ano ocorreu o 87ª cerimônia do Oscar. Red carpet, black tie, cliques, movie stars e toda aquela coisa.

Quando saiu a lista dos indicados, eu tentei assistir os concorrentes nas principais categorias como melhor filme, filme estrangeiro e poucos filmes por atuações. Alguns filmes eu já havia assistido antes da lista ser anunciada, no Brasil demora mais para lançarem e quando lançam são em cinemas menos comerciais, ou seja, só em SP. Mas eu consegui ver todos na categoria melhor filme, lembro que no dia da premiação terminei assistindo Selma e American Sniper.

Como é uma premiação, nós acabamos comparando e formando uma disputa particular entre os filmes, atores e afins, não deveria ser assim mas acaba acontecendo, é inerente. E eu acabei dividindo em dois patamares os filmes que eu mais curti e foram no primeiro: Birdman, Whiplash, The Grand Budapest Hotel e Boyhood. No segundo: Selma, Imitation Game, Theory of Everything e American Sniper. Menção honrosa pra Relatos Selvagens, filme argentino simplesmente incrível, que foi indicado na categoria de estrangeiros mas acabou perdendo para Ida (Polônia).

Birdman levou quatro estatuetas: melhor filme, diretor, fotografia e roteiro original. Foi o melhor? Depende do gosto, mas com certeza é o mais relevante entre os concorrentes, é um filme com críticas relevantes a classe artística e à arrogância do ser humano. Tudo isso zombando da própria condição do cinema, como a falta de criatividade hollywoodiana.

Riggan Thomson em ação

O bom humor do filme é o que dá o tom mesmo sendo um drama, ele busca tirar o espectador da zona de conforto que os filme comerciais colocam, pelo menos eu saí da sala de exibição exausto, pelo ritmo imposto pela direção, edição e mixagem de som, porém eu saí completamente satisfeito por ter presenciado um filme que propôs uma experiência diferente. A crítica foi favorável, mas também houve muitas pessoas que constestaram. Normal, a questão de gosto é como já dizia o outro: cada um com o seu. Mas o argumento de que o filme era oco e vazio não funciona, para rebater eu deixo o tuíte do Ronald Rios, que exemplificava meu pensamento sobre tal.

Mas e as atuações? Tem Emma Stone, Edward Norton e Naomi Watts, todos ótimos e com seus momentos solo pra brilharem. Mas esse texto é pra você Michael Keaton, chega de ser parcial por aqui, nada contra o Eddie Redmayne, que acabou vencendo o oscar de melhor ator. Ele interpretou o Stephen Hawking e quem sou eu pra contestar. Não vou falar sobre métodos de atuação, até porque o Eddie me convenceu que ali parecia a realidade. Mas sendo um filme biográfico, você acaba sabendo o que esperar, a expectativa não é tão alta. E fora que Eddie deverá disputar outra vez o prêmio e logo no ano seguinte já que viverá a pele de Lili Elbe, primeira transexual a se submeter a uma cirurgia de redesignação sexual, em The Danish Girl. O próprio diretor do filme, Tom Hooper, disse que se ele não ganhasse o prêmio vivendo Hawking, Eddie ganharia no ano seguinte.

Eddie Redmayne em The Danish Girl

Só acho que faltou sensibilidade á academia para ver que Keaton merecia. Nitidamente ele interpreta uma personagem com situação similar à sua: um ator em decadência após fazer escolhas erradas na carreira, tenta recuperar seu prestígio atuando em projetos menores e ainda lidando com seus problemas pessoais ao mesmo tempo.

Amigos, pra topar um papel desse tem que ter culhão. No momento atual da nossa sociedade que todos apontam o dedo e ninguém quer ser apontado, Keaton foi contra o movimento e deu a cara a tapa com grandes chances de levar uma bela bofetada e desmoronar. Mas sobreviveu com louvor, soube rir de si, e isso eu admiro. “Rir de si mesmo, nos aproxima mais daquilo que somos”. Ter conhecimentos das cagadas que você faz é importante e faz bem, ao invés de fazer aquela pose de que suas antigas colaborações à filmes eram boas, ele escancarou que errou na escolha dos projetos que topou no anos 90/00. Bastou participar de um filme melhor, que outras propostas chegaram, ainda esse ano deve chegar Spotlight, seu novo filme que vem sendo bem comentado.

Por isso acredito que você, Michael Keaton, fez outra piada consigo na premiação ao ser flagrado escondendo o papelzinho do discurso após ser anunciado que Eddie era o vencedor. Você não foi ingênuo, foi gênio. Sim, você fez de propósito, tirando uma onda com as inimigas. Mesmo na derrota, que é tão presente quanto as vitórias.

Não foi flagrante

Nessa mesma noite teve a brincadeira do green card entre o Sean Penn e o Alexandre González Iñárritu, ao anunciar um prêmio, indagou: “Who gave this son of a bitch his green card?”, a internet chiou como sempre, mas mal sabia que os dois são parceiros de longa data. Eu gostei principalmente da resposta do Sean Penn no dia seguinte:

I have absolutely no apologies. In fact, I have a big fuck you for … anybody who is so stupid not to have gotten the irony when you’ve got a country that is so xenophobic. If they had their way, you wouldn’t have great filmmakers like Alejandro working in this country. Thank God we do.

Mas agora 7 meses depois, eu vejo que Michael Keaton é um dos nossos, já esteve por cima, cai feio e ressurgiu quando ninguém mais acreditava. No fim das contas a vitória já estava garantida, de outras formas.

Like what you read? Give Felipe Simplicio a round of applause.

From a quick cheer to a standing ovation, clap to show how much you enjoyed this story.