Um jeito estúpido de ser

Entre o fim de ano e o mês de abril eu dedico uma boa parte do meu tempo livre aos filmes indicados nas grandes premiações do cinema mundial e acaba sendo sempre muito corrido porque aqui em terras tupiniquins fazem de tudo para lançarem o mais tarde possível, esse ano conseguiram a proeza de deixar Fences para depois do Oscar, numa tentativa de esticar a capacidade de arrecadação de bilheteria de filmes que não são blockbusters. Não há muito o que fazer, dinheiro é dinheiro, quando o Sílvio Santos faz a imponente pergunta “Ma oe, quem quer dinheiro?” ninguém recusa.

Em 2016, os meus favoritos foram Moonlight, Manchester by the sea, Elle, La La Land, Aquarius e Nocturnal Animals. Ainda há alguns estrangeiros que não assisti que podem integrar essa lista como o iraniano Forushande, porém eu queria mesmo é destacar a qualidade do brasileiro da lista, Aquarius. Sim, o Brasil não vive apenas de Minha mãe é uma peça e meu passado me condena, com todo o respeito, mas há filmes com um pouco mais de profundidade numa temática mais relevante.

O filme relata a história de uma mulher, Clara, 65 anos, viúva, que morou toda sua vida em um apartamento e se recusa a sair, jogando água nos planos de uma construtura que deseja demolir todo o prédio. Dirigido brilhantemente por Kleber Mendonça Filho e estrelado por Sônia Braga (pqp, que mulher!), o filme abusa de cenas de memória afetiva e trabalha o espaço/ lugar como um personagem. Acertou em cheio!

Para lamentar somente o fato do filme sofrer uma tentativa de boicote, por conta de um protesto dos integrante em Cannes, contra o atual governo brasileiro. Parece irreal mas o fanatismo político chegou ao ponto de fazer pessoas atacarem um filme sem assistir pelo posicionamento politico de alguns integrantes do mesmo. Provavelmente se não houvesse esse imbróglio o filme passaria batido já que não há mensagens pró ou contra nenhuma coligação política.

Enfim, no último mês, tenho notado certa semelhança entre o momento atual meu e do personagem Tomás, que estava na tentativa de conquistar Júlia e em um diálogo memorável com sua tia, ela o aconselha: “Toca Maria Bethânia pra ela, mostra que tu é intenso”. Não é um conselho, é uma intimação de quem sabe. Eu não sou profundo conhecedor da obra de Bethânia mas tenho grande apreço por algumas músicas e em especial “ Um Jeito Estúpido De Amar”, que aliás, faz parte da soundtrack do filme. Difícil explicar mas há tanta coisa para se identificar ali e tem ficado mais evidente agora, que estou conhecendo Beatriz, como ela me faz enxergar coisas que eu não percebia em mim. Meu modo de comunicar com pessoas que não estão acostumadas à minha linguagem carregada de interjeições, minhas caras e bocas fora de hora, meu distanciamento das pessoas e a minha preocupação com a embalagem sempre à frente do conteúdo. Eu tenho consciência da pessoa difícil de lidar que sou e tomo a liberdade indevida de citar um trecho da musica.

Mas cada um tem seu jeito
Todo próprio de amar e de se defender
Sônia Braga dando aquele força pros brothers

Juntando-se a tudo isso, não é fácil, já que essa garota é desconfiada, receosa e arrisca! Chega ao ponto de desconfiar da previsão do próprio signo e olhar com rabo de olho para o seu próprio nome e decidir que só gosta do segundo nome, eu acho vistoso ter nome composto mas fico na minha, já que estou tendo que capinar sentado, como diria Apolinho, então não vou colocar mais lenha nessa fogueira.

Vou tentar mesmo é colocar panos quentes te elogiando do meu jeito: eu gosto de você porque você também não gosta da Taylor Swift e da Claudia Leitte, eu gosto de você porque aceita sair comigo sem aviso prévio (embora me xingue um monte porque não deu tempo de arrumar a cara de morta) e está aí mais uma coisa que eu gosto, sua cara, que eu nem acho de morta. Também gosto de você porque assumimos nosso lado ruim e começamos a falar mal dos outros e julgar um pouquinho também. Sigo gostando de você porque é uma boxeadora com a canhota pesada, mesmo insistindo em lutar com a base trocada. Eu gosto de você porque ao contrário de mim, não tem a menor dificuldade no volante e manda implicitamente pr’aquele lugar quem faz piadas de mulher e direção. E eu gosto do seu sorriso e da sua revirada de olhos quando eu solto a cantada mais pueril que eu tenho naquele momento.

Você sabe que eu sou um competidor nato, afinal nos conhecemos nesse ambiente feroz e também sabe que estou pronto para competir, não com outros possíveis caras e não que você seja um troféu e esteja estabelecendo uma disputa pela chegada no seu coraçãozinho, mas competir contra seu instinto protetor, eu aceito o desafio de enfrentar todas as suas desconfianças.

Eu sei que nós precisamos ter relações saudáveis e entendo perfeitamente sua ressalvas com relação a mim e o mundo em geral, afinal não é um período fácil para sair dando confiança pra fulano, ciclano e beltrano. Mas quero buscar meu lugar de confiança com você, respeitando seu tempo, sem nos atropelar. Como já te falei, tenho confiança e medo, o que me garante pés no chão, como rotula meu signo. Não vou dizer que vou mudar, mas posso fazer adaptações. Peço paciência comigo e desculpas nos dias de “faz você!” e “taí uma utilidade pra você”, até porque Bethânia diz que :

Palavras são palavras
E a gente não percebe o que disse sem querer.

Ela deve ter razão, penso eu, afinal de contas, experiência não a falta, mas do jeito que é Beatriz, desconfiada…resta-me insistir em explicar-me e buscar aceitação do meu jeitinho (nebuloso).

Eu tento achar um jeito de explicar
Você bem que podia me aceitar
Eu sei que eu tenho um jeito meio estúpido de ser

Eu estou investindo em escrever novos capítulos inesperados, engenhosos, químicos, com a protagonista um pouco europeia e um pouco ruiva na minha vida. Só preciso que você tope.