Sobre prolongar sua “linhagem”

Ou, “deixar sua semente” etc

Um dia, meu pai e eu discutimos. Ele perguntou o que eu faria tal dia, e respondi que veria minha mãe. Então, ele soltou que era "melhor do que aqueles lugares que você vai". Eu o olhei e veio mais uma "sabe que eu não acho isso normal" e por ai foi a conversa. O lugar que ele se referia é uma boate gay. Bom, eu sou gay, ele não sabe.

A conversa foi para um lado de deixar descendência, filhos. Eu disse que não pretendia ter, que se um dia me ocorresse a vontade poderia muito bem adotar. A conversa foi esfriando e por fim chegou no próprio.

São tantas as problematizações que tirei dessa conversa que daria um enorme texto. Mas agora, só quero falar do que pensei tempos depois do ocorrido.

Ele falava sobre deixar sua linha pelo mundo, genética. Pois eu, pretendo deixar minha marca nesse mundo de todos os modos que me convém. Cada letra escrita, cada palavra dita, cada pensamento compartilhado, cada música indicada, cada ajuda dada e recebida, cada poesia declamada e entregue, feita para alguém, cada olhar, cada voz, cada micro momento sinestésico, cada muito desse pouquinho, já é minha marca no mundo, minha linha, minha lembrança.

Em 2216 posso ser conhecida como uma poeta ou como uma física ou uma matemática ou uma louca ou nem ser conhecida. Mas um dia, eu sei que alguém leu algo que escrevi, e essa pessoa existiu, a partir desse momento, eu residi em mim e nela, que residia já em alguém e que residirá em outros e eu também.

Ter um filho biológico não é o único modo de prolongar sua "linhagem".

Meu "filho" são versos de conversas loucas, que prolongam minha marca no mundo, sem triagem.

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