medos do passado, relacionamentos do presente e anseios do futuro
“We accept the love we think we deserve.”

Ser mulher é resistência em um mundo tão cruelmente machista. Desde pequenas ouvimos que “se um menino implica com você, é porque ele gosta de você”. Aprendemos na mais tenra infância que algo que traz desconforto emocional — e porque não físico — nada mais é que uma demonstração de afeto. E levamos isso em frente, certas da ideia de que não seremos tratadas com carinho e cuidado, porque é assim que a sociedade é e não há nada que possamos fazer.
Isso nos leva a padrões de pensamento deturpados e nos tornamos mulheres que aceitam migalhas, que não sabem a hora de parar e toleram comportamentos extremamente abusivos; tomamos como natural que um possível companheiro nos trate com desdém, ignorância e (muito) desrespeito — “Você é louca”, “Tenho vergonha de você”, “Ninguém nunca vai te querer com esse temperamento”, “Você tem um rosto até bonito, mas precisa emagrecer”, “Que feio uma moça tão bonita fazendo _____ (insira aqui qualquer coisa que pessoas normais fazem)”. Temos nossos sentimentos castrados e nossas personalidades caracterizadas como não amáveis, não admiráveis, não respeitáveis. E aceitamos isso com a certeza de que realmente não o somos, a ponto de afirmarmos para nós mesmas, com convicção, “se eu fosse mais _____ ou menos _____ eu seria amada/respeitada/desejada/bem tratada”.
E por isso tudo não aprendemos a nos relacionar de maneira saudável. Estamos tão acostumadas com os que nos trataram mal que não sabemos reagir a quem assim não o faz. Não sabemos como reagir ao afeto, ao carinho e ao respeito que o são apenas porque assim deve ser, e não porque você está sendo inserida em uma de duas categorias: a que ele quer casar ou que ele está tratando bem porque quer comer. Fomos (e somos) tão maltratadas ao longo de nossas vidas que se alguém nos trata diferente disso certamente acreditamos que não é possível, não é real, não é justo — porque temos absoluta certeza que não merecemos ser amadas.
Pois se Vinicius de Moraes nos diz que “o amor só é bom se doer”, que possamos nos lembrar que só pensa isso que não sabe da sorte de ter um amor tranquilo. Um exercício constante para (re)aprendermos que somos inteiras, amáveis e pessoas que merecem, tanto quanto qualquer outra, serem respeitadas. Uma busca por relações fluidas e sinceras, que não se pautem em promessas de um futuro utópico fantasiado pelos contos de fadas, onde a realização vem através de um príncipe. O aprendizado de que não é necessário existirem promessas de um futuro utópico ensinado para que haja um presente confortável; pois afinal, o momento presente é tudo que há. E só aprendemos a ser felizes quando dele aprendemos a desfrutar, sem a nostalgia de angústias do passado ou sem a ansiedade de desejos do futuro.
