Recreativo Central. Sede dos principais shows da sexta e do sábado.

Francisco com Febre na Feira

Esse ano convidamos Luitz Terra para escrever sobre o Febre e o deixamos livre pra falar o que quisesse. A partir de hoje outros textos como este virão por aí.

A primeira noite do Febre no Recreativo Central, promete um baile muito dançante e festivo com a Banda da Feira e Francisco El Hombre, mostrando logo de cara a proposta diversificada da curadoria que, ao mesmo tempo, visa as tendências mais sofisticadas da produção contemporânea Brasileira, como também busca aproximar o público das tradições de nossa música popular preservando nossa cultura e identidade multifacetada, mostrando assim, o quanto o cancioneiro regional ainda pode conectar as pessoas e apresentar possibilidades infindáveis no ambiente da música.

Prova disso é a presença da Banda da Feira, que abrirá a noite do Recreativo, promovendo um delicioso encontro de corpos pelo salão, ao som do mais aconchegante forró pé-de-serra que é o principal objeto de pesquisa do grupo.

Apesar deles defenderem as tradições da música brasileira, o conjunto não se apega ao “popular” apenas como um frio material de estudo, entendendo assim, que a cultura não é um cárcere, mas que ela se mantém sempre em estado permanente de movimento e transformação; e é com essa premissa, que o grupo nos apresenta o álbum “Pés no Chão”, onde vemos a pesquisa do grupo se alinhando com outros importantes ritmos brasileiros como os Ijexás da Bahia, os Maracatus de Pernambuco e o Bumba-meu-boi do Maranhão, aproximando todos esses elementos da cultura nordestina aos instrumentos — nem não tão tradicionais assim ao estilo — como é o caso das guitarras e do contrabaixo, que apesar de quebrar a tradição, se harmonizam de forma muito elegante com a proposta do grupo, acentuando o groove afetuoso das belíssimas composições do conjunto.

Ouvindo aqui, eu fiquei não apenas bastante surpreso com a escolha da banda para o festival, como também fiquei bastante apaixonado pela qualidade das composições autorais do grupo, logo de cara fiquei impressionado com timbre da voz principal, que se aproxima muito com a voz poderosa do saudoso Luiz Gonzaga; me agrada também o ritmo irresistível das canções do grupo que, apesar de distantes da minha realidade, são inegavelmente sedutoras.

Por isso mesmo, acho muito importante que festivais de relevo e expressões, como é o Febre, apostem não só na diversidade da programação, como também sou completamente favorável que eles sejam um ambiente de aproximação das pessoas com as raízes das nossas culturas; Eu não conhecia, mas ouvindo aqui, tenho certeza que a Banda da Feira foi uma escolha bastante acertada, na medida que Festivais deveriam assumir mais esse compromisso de “educar” e desafiar o público a saírem do lugar comum, e darem uma chance para vivenciarmos outros estilos, que vão muito além dos logaritmos e playlists de spotify. O grupo tem ótimas músicas, belas letras e tem muito potencial para embalar vários romances na pista do Recreativo, por isso a minha dica é que você esteja perto de seu xodó (ou “crush”, como vocês normalmente preferem falar) durante o show, porque essas músicas vão naturalmente aproximar vocês dois.

Já com Francisco El Hombre, eu tenho uma história muito longa, nunca foi das minhas bandas favoritas, mas eu aprendi a amá-los por conta da seriedade e compromisso com que eles buscam honrar suas canções, principalmente no formato ao vivo.

Foto: Caodenado

Nesse ponto, eles foram muito persistentes e conseguiram me convencer de que eles acreditam muito no que estão fazendo, servindo de muita inspiração para as bandas independentes brasileiras. Confesso que nem sempre foi assim. Já desconfiei muitas vezes da veracidade da banda, talvez fosse algum resquício de uma educação rockeira (idiota, diga-se de passagem), num underground, onde as pessoas eram sempre divididas entre “true” ou “poser”, mas sei lá…

Nas primeiras tantas vezes que eu vi o conjunto, eu sempre sentia que faltava alguma coisa pra apimentar o som do grupo, apesar de toda latinidade, sempre presente, no som dos caras, parecia algo sem tempero nenhum, uma animação que não me tirava do lugar.

Eu já tinha Mataram Meu Mestre e The Sams, que eram bandas de alguns dos ex-integrantes da Francisco, então meu ranço já era antigo, eu via tudo como uma coisa meio boba, um lado playboy e bonitinho, que era totalmente oposto ao rock visceral e marginal de Sorocaba, e quando se é um jovem (e babaca), a gente se apega a alguns termos ou percepções estéticas mais restritas, e tende a achar que tudo que se opõe ao que gostamos é necessariamente ruim ou sem valor.

A primeira vez que eu vi a banda, eu nem sei se era uma banda, mas tinha esses meninos que vieram do México cantando com violão, numa dessas festas que rolavam, na república do Adriano Bertanha, era um festival de folk, o Andrei tinha tocado também, assim como o Gringo e o Fofisnki, enfim, na ocasião eram dois irmãos mexicanos, Sebastian e Mateo, eu lembro que eles queriam ensinar as pessoas na sala, a cantarem juntos a música que eles fizeram, um deles disse ainda “Se vocês quiserem, podem cantar com a gente”, aí ouvi uma outra voz dizendo “se você tá ensinando a gente a cantar é lógico que vocês querem que a gente cante”, na ocasião dei risada, ninguém estava muito animado pra cantar com eles também, e achei bem sem graça a música desses gringos que todo mundo estava babando ovo, porém eu me lembro até hoje da música que eles queriam que todos cantassem, ela se chama “Nudez”. Essa cena sempre me vem à cabeça, quando me cai a ficha da quantidade de pessoas que hoje consomem e frequentam o shows dos caras.

No final das contas, a vida é um amontoado de experiências absurdas, e mesmo não sendo o Ronaldinho Gaúcho, a gente também dá nossos rolês aleatórios e acaba vivendo situações inusitadas, e numa dessas eu acabei virando DJ e gostando disso, e como um cara comprometido com trabalho, eu passei por um longo processo de criar empatia com a música no sentido mais puro da palavra, uma coisa de maior distanciamento com preferências estéticas e um apego muito maior com a qualidade de união que a música é capaz de promover, isso tudo para dizer “quem sou eu pra dizer o que é fake ou que não é?”

Foto: Felipe Giubilei

Outro dia mesmo eu estava discotecando um Bro’z, numa festa trash, e, as vezes, isso também faz eu me sentir uma espécie de impostor e de repente, alguém se aproxima da cabine de DJ e me pergunta, não sei se por ingenuidade ou por maldade: “Isso daí é Francisco El Hombre?”, um conceituado “rockeiro das antigas local” já cunhou o termo “Rock de micareta” pra se referir ao som dos caras, foi aí que eu saquei que a banda transgredia um pouco o horizonte expectativa limitado sobre o que era ser uma banda independente, talvez porque eles queriam de fato se comunicar com um público muito maior do que a turma que a gente tá careca de conhecer, era por isso que a banda sempre se descolava das outras, nos eventos e showzinhos que rolavam por aqui, eu demorei pra sacar isso.

Foto: Caodenado

Foi numa dessas festas temáticas de fim de ano do Asteroid, que eu consegui ter real noção da potência energética do conjunto, e me desnudei dos meus preconceitos e parei para dizer a mim mesmo “pera aí! Esses caras tão falando alguma coisa bem séria nessas músicas”,

foi o primeiro show que eu vi, em que o Sebastián estava como baterista, talvez ele sempre tivesse sido o baterista e nunca tinha reparado, mas de fato me lembro do Gringo como baterista durante um período, mas nem isso pra eu me simpatizar com a banda. No dia atribuí ao baterista, mas talvez fosse um conjunto de outros tantos fatores como, por exemplo “tocar pra caralho pelo Brasil todo”, mas nessa noite eu senti que a banda tinha finalmente entendido o próprio som, na medida que era visível como eles se apropriavam das próprias músicas, era um show dividido em atos e com momentos bem ricos em ambiências e experimentações, na ocasião acredito que a banda ainda nem tinha lançado o “soltasbruxas”, mas algumas músicas do disco já se manifestaram nesse show, a Juliana Strassacapa passou a mostrar mais a voz dela, e protagonizar mais as música, isso foi outro ponto muito positivo, ela é uma baita cantora mesmo, me chamou muita atenção como muitos desses sons dialogavam com algumas camadas mais criativas e desafiadores da música brasileira que estava rolando na época, outros artistas que já estavam me chamando atenção, como o caso d’ “A Mulher do Fim do Mundo”, disco da Elza Soares que era recém-lançado naquela época, vi conexões com Metá Metá, e outros artistas um pouco mais maduros da MPB, foi aí que eu vi que, apesar da pegada popular, eles tinham coisas evidentemente novas para oferecer, além de muita energia. Foi ali que percebi que a banda estava com a imagem bem distante daquela coisa universitária, bonitinha e sem sal dde outros tempos. Fiz questão de dizer o quanto mudei a minha concepção sobre eles nesse dia.

Desde então, a banda só fez jus as minhas percepções daquela noite, alcançando, de fato, um público inimaginável, além de serem presença obrigatórias em muitos dos grandes festivais pelo país, é sempre emocionante ver o quanto “a banda que eu adorava odiar” está provando o contrário de tudo que eu pensava sobre eles, consolidando o seu trabalho e trazendo continuidade para as suas criações, prova disso é a sempre movimentada agenda da banda, que desde então não parou, e que agora estão na árdua missão de gravar o sucessor de “Soltasbruxas”.

Se você está completamente alheio de tudo que eu estou falando e não conhece Francisco El Hombre — o que acho um pouco difícil — apenas vá para o Recreativo sabendo que você viverá um dos shows mais energéticos e eufóricos do país.