Menos mais do mesmo

Por Taynah Meira de Moraes (jornalista e dramaturga)

Precisamos ser mais tolerantes com nós mesmos!

É preciso falar de respeito, de tolerância e de (in)tolerância. É necessário falar das escolhas que a gente não faz e que até hoje são vistas como opção. De livre arbítrio e bom senso. É preciso falar de vidas que precisam ser vividas. Não deveria ser preciso na sociedade contemporânea, ficar reforçando tais assuntos. Mas em um lugar onde direitos humanos vira mimimi, onde gays são mortos, mulheres têm medo de sair na rua, e mais um bilhão de atrocidades que lidamos cotidianamente. É o nosso dever expor sim, o sofrimento, a luta, a história e a conquista de cada um.

Há dez anos, quantas artistas brasileiras trans a gente conhecia? Não lembro de nenhuma. E quantas trans já existiam por aí sendo marginalizadas? Sim, isso é intolerância. Não, não evoluímos, velamos nossos preconceitos (nem tão velados assim). Os assuntos continuam sendo abordados da mesma maneira e as pautas sempre surgem da mesma forma, com o mesmo mote. Não é a artista, é o gênero, o padrão (ou não) e o estereótipo. Quando é que a grande imprensa vai ver isso como uma consequência? Não como um produto.

Precisamos discutir isso, precisamos levantar questões, mas precisamos primeiro ver as coisas de uma outra forma. Não precisamos de matérias e reportagens reforçando padrões. Precisamos reconhecê-los para desconstruí-los. Precisamos, de todas as formas, desconstruir esse ambiente imposto pela padronização, para pararmos de querer nos comparar ou adequar. Aqui, eu falaria sobre empatia. Sobre se reconhecer no outro, se colocar no lugar do outro. Mas talvez, se for pedir muito, um pouco de bom senso já caí muito bem.

Falta bom senso, falta empatia e falta tolerância. O tema do festival traz a proposta de pensarmos nesse substantivo: intolerância. Onde está a nossa? Estamos sendo intolerante com quem é intolerante com a gente? Estamos sendo intolerantes com quem pensa diferente?

Ao entrevistar a Liniker isso veio à tona. Ao perguntar: Se ela era uma pessoa intolerante e com o que, a resposta me arrebatou. Não veio pelo óbvio. Veio com ela. Veio dela. “Comigo”, ela disse. Acho que intolerância é o melhor substantivo para descrever o (desesperador) cenário e é o cerne da questão de todo esse discurso de ódio que acompanhamos diariamente. Levá-la primeiro a si poderia ser uma pequena solução cotidiana. A palavra que define o problema eminente que vivemos.

Ser menos intolerante com você, isso me pegou de uma forma que passei a refletir na minha vida, e na vida das pessoas próximas a mim. Queremos um mundo menos intolerante e esquecemos de seguir aquela velha máxima: temos que olhar pra gente primeiro, pra nossa intolerância com a gente, antes de querer consertar a nossa com o mundo. O contato com a Liniker foi incrível, em um dia azul em meio a vários outros cinzas. Foi reflexivo, para pensar em que lugar estamos. E que lugar queremos estar, com toda essa liberdade que julgamos ter. E muitas outras que precisamos conquistar.

Foi decisivo pra eu lembrar que a imprensa cria estereótipos e personagens de pessoas fodas que não querem ser nada daquilo. Foi necessário pra eu lembrar que a gente tem que (se) desconstruir todo dia e olhar ao nosso redor ao invés de ficar seguindo sem olhar pro lado. Pra lembrar que a gente tem que ser honesto com a gente mesmo, pra poder ser com o mundo. E ser, principalmente, menos intolerante com a gente.

Obrigada Liniker, por me mostrar que no mundo ainda há bom senso, por ser uma pessoa que representa o que ainda está muito obscuro e o que canta o que todo mundo quer (e precisa) gritar. Seguimos olhando pra nossa intolerância.