Os embalos de sexta-feira à noite

Se a quinta-feira, abertura de nossa programação, já tinha sido agitada para nós, imagine a noite dessa sexta-feira, um dos dias preferidos pelo público para lotar os teatros, na qual além do FESTLIP apresentar seis espetáculos, tivemos também uma oficina de percussão no Morro Chapéu Mangueira, levando o intercâmbio cultural de nosso festival para outros universos artísticos?




Pois é, ontem foi mesmo uma loucura, do jeito que a gente gosta! E os espetáculos que subiram ao palco foram “Adormecidos”, de Os Satyros; “4 Estações”, do Núcleo Vinícius Piedade e Cia; “A Lição”, do grupo do Cabo Verde Companhia Trupe Pará Moss; “Francisco Alves – O Rei da Voz”, e “A Arte de Ganguissar”, do grupo moçambicano Mutumbela Gogo. Havia também “Um Dia os Réus Serão Vocês – O Julgamento de Álvaro Cunhal”, da Companhia de Teatro Almada, e a já mencionada oficina de percussão, exatamente as atividades que esse blog foi acompanhar para poder vir contar para vocês por aqui.

A noite já começava quando o percussionista moçambicano Cheny Wa Gune se viu cercado de crianças em uma pracinha no alto do Chapéu Mangueira. “Vamos fazer uma roda?”, sugeriu ele. “O que é isso?”, as crianças perguntaram. Cheny descreveu o que queria e perguntou como o termo era falado em “brasileiro”. “Ah, roda!”, responderam: a diferença, sutil mas decisiva para os pequenos moradores da comunidade, estava no “r” inicial, pronunciado de forma distinta em Moçambique.

A roda que motivou o conflito linguístico Brasil x Moçambique

Foi assim que iniciou-se mais um intercâmbio cultural do FESTLIP, desta vez musical. Na oficina, o percussionista apresentou instrumentos típicos de seu país, como a m’bira, o chitende (que parece um berimbau), e a timbila, uma espécie de xilofone de madeira gigante, popularizada pelo povo Chopi, ao qual Cheny pertence e que é sua especialidade. Além de contar a origem de cada um deles, o músico mostrou como são tocados e para quê.

Cheny apresenta a m'bira aos moradores do Chapéu Mangueira

“Cada tribo, cada país tem sua maneira de ver a música, então se eu trago a minha maneira de ver, a minha maneira de tocar, de emocionar as pessoas, e encontro aqui a deles, vou melhorar a minha música. E na música não há fronteiras”, disse Cheny ao fazer o balanço de sua interação com os futuros colegas instrumentistas do Chapéu Mangueira.

Abastecidos de batucada, descemos o morro em direção ao Teatro Laura Alvim, onde seria encenada a peça “Um Dia os Réus Serão Vocês – O Julgamento de Álvaro Cunhal”. Quando chegamos, o primeiro sinal já havia sido tocado, e o público fazia fila para pegar seus lugares. Mas não ficamos preocupados pelo fato de não termos tempo de conversar com o diretor do espetáculo, Rodrigo Francisco, pois ele já tinha nos falado um pouco sobre a montagem alguns dias antes.

Público faz fila para entrar na sala, no Teatro Laura Alvim

“Álvaro Cunhal foi um herói da resistência portuguesa, viveu na clandestinidade grande parte da vida, teve um período de 11 anos de prisão e deu a sua vida em prol daquilo que acreditava. Para nós é muito gratificante poder falar sobre esse herói da história recente portuguesa e divulgarmos essa figura no Brasil”, contou.

O cenário inovador de "Um Dia os Réus Serão Vocês — O Julgamento de Álvaro Cunhal" surpreendeu o público

Após o espetáculo, que surpreendeu o público com um cenário inovador, com uma grande tela de fundo na qual eram feitas projeções e que podia variar entre cela de presídio e tribunal, encontramos o diretor e professor de teatro José Luiz Ribeiro, que veio de Juiz de Fora para acompanhar o FESTLIP. “Essa peça trabalha essencialmente com a palavra e a palavra nos une a Portugal e une todos esses países que falam a nossa língua. Apesar do sotaque, nós conseguimos ver que a ideia de liberdade está em todos os lugares”, disse ele.

O diretor e professor de teatro José Luiz Ribeiro veio de Juiz de Fora para acompanhar o FESTLIP

E assim as cortinas se fecharam em mais um dia do nosso festival. Que venha o sábado!

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