Orejuela, Scarpa, Wendel e a valorização da raça
Clássico contra o Vasco expôs um problema recorrente no time e na torcida

Até a partida contra o Vasco, a equipe do Fluminense vivia seu melhor momento desde o fim do Campeonato Carioca, completando um mês sem derrota. Nesse período foram 3 vitórias, 3 empates e uma considerável evolução na organização do time, se mostrando melhor defensivamente, mas ainda com sérias dificuldades de propor o jogo (exceto durante o 1T contra o Atlético Mineiro). Encostando no G6 e apresentando um futebol “decente”, a torcida se animou com a possibilidade de entrar de vez na disputa da Libertadores na vitória contra o Atlético Mineiro, mesmo essa não sendo a única vez que o Fluminense teve essa oportunidade no Brasileirão.

Uma vitória no clássico contra o Vasco podia ser o ponto de partida para o Fluminense brigar por algo, mas com 10 minutos de jogo, já vimos que seria uma tarde de sábado bem complicada. Marcação perdida, meio pouco produtivo e ataque nulo. Era assim que a equipe comandada por Abel estava em campo e em nenhuma circunstância apresentou o futebol dos últimos, sequer ameaçando Martín Silva, diferente de Júlio César, que observava sua área sendo bombardeada a cada minuto, até que curiosamente, Ramon acertou um lindo chute e marcou para os cruzmaltinos. Após isso, vimos um Fluminense mais perdido, desorganizado e procurando uma forma de superar a boa marcação da equipe vascaína, enquanto eles aproveitavam os erros bobos da defesa e causavam desespero na torcida tricolor. Com o fim de jogo e o resultado se confirmando para o rival, a enxurrada veio e foi para todo mundo.
A caça de culpados e o motivo por trás disso
Não é novidade que sempre após uma derrota do Fluminense, alguns jogadores saem como crucificados e há 3 deles, que desde o início do Campeonato Brasileiro, tem saído de campo como o principal alvo de críticas e xingamentos da torcida: Orejuela, Scarpa e Wendel. Mas há duas coisas que chamam atenção, o motivo para que eles tenham caído de produção e os argumentos que a torcida usa para julgá-los, sendo um deles, quase unânime: a raça.
Ficou claro que após o Carioca, o equatoriano Orejuela teve uma queda de rendimento, mas ao que se deve isso? O volante, eleito o melhor jogador do Campeonato Equatoriano e se adaptou de forma rápida ao futebol brasileiro, elogiado por vários jornalistas daqui e estrangeiros, mas já os tricolores não enxergam o mesmo, tanto que já foi chamado de enganador, sem raça, preguiçoso e superestimado por boa parte.
Outro que caiu de produção foi seu companheiro no meio campo, Wendel, que é considerado uma das maiores promessas do futebol brasileiro. Com 8 meses de profissional, o jovem encantou Abel e a torcida, mas como todo garoto, uma hora ele ia oscilar e não houve preparo da torcida tricolor para isso. Em sua primeira “péssima” partida, já foi nomeado como mascarado (Douglas sofreu com o mesmo em 2016) e que o motivo do seu futebol ter decaído, foi o sucesso ter subido á cabeça, como se Abel não o tirasse da equipe, logo quando percebesse isso.
Agora o jogador que mais tem divido opiniões na torcida é sem dúvidas Gustavo Scarpa. Após um brilhante 2016, Scarpa começou bem o ano ao lado de seu companheiro Sornoza, mas na semi-final da Taça Guanabara, sofreu uma grave lesão e ficou por um tempo afastado dos gramados. Voltou durante o Brasileiro, ainda sem ritmo, o que é normal para um jogador que ficou bastante tempo parado. Só que o tempo foi passando, Scarpa não mostrou o mesmo futebol do início do ano, mesmo continuando a dar assistências e se tornando o mais criativo do campeonato. A torcida novamente não perdoou e as razões para seu rendimento abaixo chegam a ser cômicas: Camisa pesou, humildade (idem Wendel), redes sociais, falta de álcool no sangue e RAÇA.
O torcedor médio, seja ele tricolor ou de qualquer outro clube brasileiro, tem a mania de ignorar o campo e bola, mas sempre culpar o extra-campo pela fase ruim do jogador ou do clube e também criar o imaginário, como a raça e torná-la algo essencial para que o jogador seja bom. Orejuela não é um “cincão porrador” e sim um volante de marcação que controla o adversário sem a bola, impedindo que crie ou que a jogada evolua. Ele também cria, começando as jogadas de trás, mas precisa de aproximação e movimentação dos companheiros, algo que não temos. Desde a entrada de Marlon Freitas na equipe, o equatoriano tem batido cabeça com Wendel, já que ambos tem divido o mesmo espaço e detém funções diferentes.
Scarpa também tem sofrido muito com a desorganização absurda, jogando fora de posição e se vendo obrigado á voltar várias vezes para começar as jogadas (o famoso quarterback). Quando jogou na direita — sua posição — deu assistências e criou boa parte das jogadas de ataque do time no campeonato. Se observamos os gols criados pelo meia, praticamente todos saem do lado direito, onde deveria jogar desde que voltou, mas esse problema só será corrigido (esperamos) com a volta de Sornoza.

Abel é um grande técnico, mas que não tem realizado um bom trabalho de um tempo pra cá e está tendo seus defeitos expostos, como substituições sem sentido e insistência no erro. Vemos um Fluminense apático em campo e um treinador que se desespera em suas escolhas, mostrando que não tem capacidade para evoluir. Demissão é algo impensável no momento, mas tem que ser cobrado o bom futebol, o coletivo forte e um padrão de jogo decente. Temos um time bom e que possui potencial, mas estamos nos tornando dependentes de individualidades de um ou outro jogador e com um coletivo totalmente destruído. Está na hora da torcida focar no Fluminense dentro de campo e não apenas enxergar causas fúteis, que pouco agregam no futebol brasileiro.
E o mais importante: Nenhum jogador é incriticável, mas há maneiras melhores de analisar, sem usar argumentos rasos.
