Deixo essa carta pra você ou até pra mim no futuro.

Eu queria ser confiante em mim mesmo, sabe? Queria ter discrição e ser irreverente, mas tudo que eu faço ou sinto sou logo denunciado por mim mesmo.

Eu pensei muito em como iria te falar essas coisas. Se seria direto e objetivo, ou ficaria escrevendo por entre as linhas, ou se usaria metáforas e construções magníficas, para dar profundidade. Eu pensei muito. Eu comprei um livro novo de poesias para ter alguma inspiração e fui aos lugares que visitamos para me inspirar mais. Até me vesti com outras roupas, me olhei diversas vezes. Mas, na verdade, e mesmo com tudo isso, eu nunca mudei a minha forma de pensar. E optei por usar a sinceridade como minha fonte para falar de você.

Ah, meu bem. Eu vou sentir a sua falta. Pronto. Direto e indolor.

Vou sentir de verdade a ausência de cada pedaço seu aqui. E quando eu me refiro a aqui, eu me refiro à maçaneta da minha porta, ao cobertor da minha cama, a nossa programação de MasterChef, aos meus cabelos bagunçados de manhã. Eu queria que você ficasse mais um pouco. É um pouco infantil, mas é como a Cinderela: não quero que chegue meia-noite nunca e que nosso encanto se desfaça. Eu sei que sempre fico meio bobo quando vou tentar escrever sobre você. Meu forte sempre foram as emoções. E dessas eu entendo bem. Quando eu vivo as suas histórias, quando me torna um dos seus personagens, eu vivo. Vivo a indecisão, a passionalidade, o amor exagerado. Vivo o papel de pai, de amigo, de amante e de eu – lírico. Eu vivo mil vidas por meio da sua.

Ah, os outros me dizem que eu sou um tanto quanto persistente. E romântico demais. Não sei se eles me criticam ou admiram. Parece que em toda crítica há um quê de admiração, já percebeu? Mas deixe isso pra lá. Eu espero que você reflita sobre isso algum dia. Que você me descreva mentalmente num pensamento qualquer enquanto estiver esperando um trem pra Madrid. Ou quando estiver sozinho num albergue espanhol e vir um belo rapaz. Não adianta você me dizer que acabou tudo. Eu acredito em você ainda. E eu não me lembro de ter feito apostas furadas sobre nada. Acredito que você se perdeu um pouco, está confuso. Que talvez a nossa proximidade não tenha te deixado ver outras coisas, outros daqueles mundos que você tanto fala. Você me vive também. Vai ver por isso que eu me acho tão parecido com você. Não fisicamente, é claro. Eu sou moreno, alto, frágil. Às vezes você me diz que eu sou feroz, um grande suspense que ninguém conseguiu resolver ainda. E é disso que eu mais vou sentir falta: de você me descobrindo aos montes e me dizendo quem eu sou de verdade.

Me promete uma coisa. Me promete que nunca vai se afastar de mim. Que vai ser sem sabor de promessa. Eu não sei viver mais se você desistisse da nossa amizade. Mas, olha, eu vou te esperar. Eu acredito que um dia você vai voltar, vai me ler em todas as páginas que você escreveu. Vai me redescobrir e vir com novas formas de me representar. E vai se encantar com a diversidade de formas e tamanhos que eu posso tomar. Vai, mas volta, por favor. E quando voltar, me transforma de novo. Mas antes me dá um beijo de boa noite para eu saber que você está aqui. Vou descansar nessa carta enquanto você estiver fora, meu bem.

(reescritura)

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