Adaptação.

Não existe nada mais pseudo-intelectual que a metalinguagem. É charmosinho, interessante, parece dar mais profundidade pra um assunto que é muitas vezes banal, ou então te salva quando você não tem a menor ideia do que escrever. A metalinguagem é o último refúgio do razoavelmente inteligente.
Na época da faculdade eu participava de um jornalzinho chamado O Canhoto. Sim, era de esquerda. Não, eu não escrevia sobre política. Na verdade, minha primeira coluna lá foi justamente subvertendo o signficado do nome, falando da origem no sinistro e coisa e tal. O seguinte já foi sobre “escrever”, o que só mostra como eu sou criativo e original. O próximo, claro, foi sobre como eu me sentia em relação a algo. O primeiro refúgio do “ei, sou sagaz” é a ironia e o segundo é o ego.
Cara, tudo que eu queria era falar de Adaptação. O filme do Jonze e do Kaufman com o Nicolas fazendo o melhor trabalho da vida dele. Eu tinha algum gancho aqui pra chegar nesse assunto antes de começar a falar besteira e me perder. Self-deprecation é o décimo-oitavo refúgio do… Opa, lembrei. Vamos ver se agora vai.
Metalinguagem é o último refúgio do razoavelmente inteligente. Não é a toa que quando a está começando a se interessar por (pop) arte, a gente tende a se deslumbrar por esse tipo de coisa. A gente se sente esperto, “ah, olha essa sacada que só eu percebi!”. No entanto, o tempo passa e a gente percebe que boa parte dessas obras usa a metalinguagem como gimmick, como muleta pra dar uma disfarçada no quão rasa aquela narrativa é. Só um monte de fumaça e espelhos pra esconder quão banal é aquela história. Isso que torna Adaptação tão especial.

A metalinguagem não é acessório no filme do Kaufman e Jonze. A essência do filme é a metalinguagem. Ela é a estrutura e a alma do filme. Basicamente sem ela o filme não existe. Eu deveria falar sobre o que o filme é, né?
Adaptação é um filme escrito por Charlie Kaufman e dirigido por Spike Jonze que conta a história de um roteirista chamado Charlie Kaufman que é contratado para adaptar para o cinema um livro chamado O Ladrão de Orquídeas (de Susan Orlean). Ele adora o livro e quer fazer uma adaptação que faça justiça ao livro, sem aquelas convenções típicas do cinema Hollywoodiano. Obviamente, ele não consegue. Fica com um bloqueio criativo gigantesco, um quase colapso nervoso e resolve então escrever um filme sobre a dificuldade que ele está tendo pra adaptar o livro. Tudo isso enquanto atura o seu irmão gêmeo que também que ser roteirista. Ah, boa parte do que escrevi aí atrás é baseado em fatos reais.

Adaptação é sobre obsessão, é sobre estar perdido, é sobre alienação, é sobre a vontade e a inabilidade de criar, é sobre olhar pra uma página em branco e ter certeza que ela reflete o vazio que está dentro de você, é sobre achar que pode ter narração sim, é sobre “You are what you love, not what loves you. That’s what I decided a long time ago”, é sobre achar que cantar Wouldn’t it be nice com o seu “irmão gêmeo” daria uma cena emocionante. É, em essência, um tremendo filme.
Falar bem de filme do Charlie Kaufman é o nono refúgio dos que acham que entendem algo sobre alguma coisa.