O momento certo de parar

Para os seres humanos “normais”, a aposentadoria pode ser um sonho. Se bem… Que é difícil nos dias de hoje viver só da aposentadoria no Brasil. Mas, depois de uma vida toda de dedicação, acordando cedo, tendo de “matar um leão” por dia, quem não sonha com aquele momento em que dificilmente precisará do despertador para acordar? Que poderá tomar o café da manhã tranquilamente, sem horários, sem trânsito, caminhar sem pressa e no seu tempo.

Mas, para um atleta, essa decisão nunca é fácil. Saber a hora certa de parar pode ser um momento de insegurança, angústia e até mesmo difícil de aceitar. A pessoa faz aquilo desde os 10 anos de idade — em alguns casos até menos -, ainda se sente bem, apesar de muitos atletas sofrerem lesões, acidentes, cirurgias ao longo da carreira, mas tem um momento que é preciso parar.

E isso acontece cedo, em muitos casos. Lembro do Gustavo Kuerten, que sofreu com lesões no quadril e precisou abandonar a carreira com apenas 31 anos. Principal nome da história do tênis masculino do Brasil, Guga conquistou 20 títulos individuais na carreira, é um dos atletas mais carismáticos do país, mas precisou “aposentar” a raquete ainda jovem.

Também recentemente assistimos o adeus das quadras de um dos maiores jogadores de basquete do mundo, o astro Kobe Bryant, do Los Angeles Lakers, que parou de jogar em 2016. Na noite de sua despedida, num jogo da NBA, ele teve uma exibição de gala, digna de toda a sua trajetória no basquete. Com 37 anos, Kobe anotou 60 pontos na sua última partida em 20 temporadas pela NBA na vitória do Lakers em cima do Utah Jazz. 60 pontos… Um novo recorde! No seu último jogo profissional! Imagino se ele não pensou depois do jogo: “Será que é hora mesmo de parar?”

Eu, particularmente, também não me esqueço de um dos anúncios de aposentadoria que presenciei de perto. Da lenda Ingo Hoffmann. Largando na pole, na abertura da temporada 2008 da Stock Car, aos 55 anos, 37 de automobilismo, 30 na Stock Car, o Ingo anunciou ao vivo na TV sua decisão de parar de correr naquele ano. Doze vezes campeão da categoria, Ingo ainda era muito competitivo, mesmo correndo no meio de jovens com metade de sua idade.

Bom, mas escrevi tudo isso pra homenagear nesta coluna um dos clientes mais antigos da FGCom e por quem tenho uma admiração que vai além das pistas: Christian Fittipaldi. No dia 4 de agosto, antes da etapa de Elkhart Lake do IMSA, o CF anunciou sua despedida das pistas em janeiro de 2019, na disputa das 24 Horas de Daytona.

Christian Fittipaldi na conquista deste ano em Daytona (Foto: José Mário Dias)

Coincidentemente, assim como o Ingo, o Christian chega aos 37 anos de carreira, onde ele passou por quase tudo e é até hoje o único brasileiro a ter corrido na F-1, F-Indy e NASCAR. Foram muitas conquistas, pódios, vitórias, títulos, alguns sustos, acidentes, mas sem dúvida uma carreira admirável.

Dos 10 aos 17 anos, ele correu de kart. Passou pela Fórmula Ford, Fórmula 3 Brasileira e Sul-americana, onde conquistou títulos. Foi para a Fórmula 3 Inglesa e tornou-se na época o piloto mais jovem a conseguir a Superlicença para correr de Fórmula 1.

Em 1991, estreou na Fórmula 3000 Internacional e conquistou o título, que lhe abriu as portas para a principal categoria do automobilismo mundial. Entre 1992 e 94, foram 40 GPs na Fórmula 1 pelas equipes Minardi e Arrows, com 12 pontos no Mundial de Pilotos. Numa época em que só os seis primeiros marcavam pontos! Num grid com nomes históricos da categoria, como Ayrton Senna, Alain Prost, Michael Schumacher, Nigel Mansel, entre outros.

Outra conquista marcante para o piloto foi a vitória nas 24 Horas de Spa, em 1993, a bordo de um Porsche de fábrica. Em 1995, com apenas 24 anos, Christian voltou a surpreender e transferiu-se para a Fórmula Indy nos Estados Unidos. Correndo pela Walker, foi vice-campeão da tradicional 500 Milhas de Indianápolis. De 1996 a 2002, o piloto defendeu a equipe Newman-Haas, em uma parceria de sucesso, que lhe trouxe vitórias e pódios. Em 2002, disputou sua primeira corrida na principal divisão da NASCAR, depois de correr na Busch Series.

Desde 2013, o piloto corre pela equipe Action Express Racing no IMSA. Foi campeão em 2014 e 2015 da categoria e é tetracampeão da Copa Norte-americana de Endurance (2014, 2015, 2016 e 2017), que inclui as quatro provas longas do IMSA: Daytona, Sebring, Watkins Glen e Petit Le Mans.

Já disputou 13 vezes as 24 Horas de Daytona, sendo oito com a Action Express Racing. Venceu a tradicional prova em 2004, 2014 e novamente em 2018 ao lado de João Barbosa e Filipe Albuquerque.

E com todo este currículo, ainda vejo várias pessoas fazendo críticas. Lamento. Por todo o nosso povo que não valoriza os esportistas que têm.

Felizmente, o Christian sempre foi muito maior que tudo isso. E desejo muito que ele pendure as sapatilhas em janeiro com seu quarto título em Daytona. Pra fechar com chave de ouro uma carreira vencedora!

Fernanda Gonçalves

Diretora Executiva da FGCom

Assessoria em Comunicação

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