Os “prêmios” que o jornalismo me deu
Esta semana, envolvida no planejamento de mais uma etapa da Stock Car, desenvolvemos uma ação, em parceria com a equipe Hot Car e a Usual Plastic Brinquedos, que faz as miniaturas oficiais da categoria, para levarmos carrinhos para crianças de um orfanato (Lar Moisés), que fica bem próximo do autódromo de Curitiba, palco da nona etapa da temporada, que acontece na semana do Dia das Crianças.
É sempre muito gratificante poder atrelar o nosso trabalho a ações sociais, ambientais, e temos feito isso com frequência, por dois motivos: é recompensador ajudar de alguma forma e também usamos a força da categoria diante do seu público para divulgar causas e quem sabe despertar em outras pessoas o desejo de ajudar e conhecer melhor os projetos.
Fazendo isso me lembrei de duas histórias que marcaram demais a minha vida como repórter, antes mesmo de eu sonhar em atuar em assessoria de imprensa. São histórias simples, mas que me deram algumas das maiores felicidades da minha vida.
A primeira delas aconteceu na Maratona de São Paulo de 1998, quando eu ainda iniciava minha carreira no jornal esportivo A Gazeta Esportiva. Era a minha primeira cobertura da prova e eu tinha uma pauta livre: escolher um personagem e fazer uma matéria. Fiquei horas vendo as pessoas largarem e chegarem, abordei algumas, conheci algumas histórias, mas um velhinho de mais de 70 anos me chamou a atenção. Pena não me lembrar mais o nome dele, mas qualquer dia vou até o Banco de Dados da Gazeta para recuperar.
Conversamos, me comovi com sua história de superação e pronto. Ele seria o meu personagem. Naquela época, ainda não existia toda a tecnologia de hoje e fui pra redação sem saber o resultado final dele. Só soube horas depois e bingo! Ele tinha vencido na categoria dele. Perfeito!
Fiz a matéria, contei a história e o seu sonho: correr a maratona de Chicago. Matéria publicada, passaram alguns dias e recebi uma ligação do marketing da extinta companhia aérea Varig. Eles queriam o contato do senhor para leva-lo, com tudo pago, a Chicago!
Foi a primeira grande recompensa que o jornalismo me proporcionou! Jamais vou esquecer a alegria daquele senhor com a realização deste sonho. Pena termos perdido contato, isso já tem 20 anos, mas eu nunca vou me esquecer. Com certeza!
Outra história, pouco tempo depois, foi com uma moça que conheci numa pauta no HC. A matéria era sobre um novo aparelho, para medir o desempenho de atletas, e lá estava aquela moça, Ana Luiza. Ela me contou que havia sido moradora de rua, usou drogas e um dia vendo o filme Carruagem de Fogo decidiu que iria mudar de vida e começou a correr.
Ana, naquela época morava de favor nos fundos de uma farmácia, e treinava no Ibirapuera. Me encantei com a história dela. Perguntei como poderia entrevista-la e ela me disse que era só ir ao Ibirapuera, se não me engano às terças-feiras, 19 horas. Ela não tinha telefone e acho que ficou receosa em me dar o endereço da farmácia.
Cheguei empolgada na redação (eu nem sou pouco empolgada rsrsrs) e convenci meu editor de que a história era boa. Na semana seguinte, lá estava eu no Ibirapuera, mas ela não apareceu. Mas perguntei e me disseram que ela treinava sim. Voltei na semana seguinte e desta vez: bingo! Deu certo!
Conversamos muito, uma entrevista extensa. Marcamos de ir à farmácia. Fizemos uma foto da Ana deitada na mesa onde ela dormia, com algumas medalhas que ela já tinha, de competições que disputou.
Matéria publicada e no dia seguinte me ligaram do Globo Esporte. Queriam fazer uma matéria com a Ana. E de lá em diante eu a vi em várias reportagens, soube que foi “adotada” pelo ex-secretário de esportes Fausto Camunha, finalmente ganhou um lugar para morar, e a Ana, conhecida como “Animal”, vira e mexe ainda aparece na mídia com alguma conquista.

Pra mim, a maior conquista foi uma correntinha que ela me deu (na foto com o meu bloquinho e caneta), quando foi ao prédio da Gazeta, se inscrever para uma das edições da São Silvestre. Talvez a Ana nem se lembre mais de mim hoje, mas pra mim essa correntinha é uma das medalhas de ouro que o jornalismo me deu nessa vida.
Sim, o jornalismo mal feito pode acabar com reputações, empresas, instituições, como já vimos no passado com o caso da Escola Base, por exemplo, mas tem muita história boa, muita coisa legal que a nossa profissão permite nessa vida. Sei que muitos amigos jornalistas têm histórias assim e falem a verdade, não tem prêmio maior que este, não é mesmo? São recompensas que fazem tudo valer a pena nessa vida!
Fernanda Gonçalves
Diretora Executiva da FGCom
Assessoria em Comunicação
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