Geoci da Silva
Aug 28, 2017 · 2 min read

O livro Águas (Flor do Sal, 2011), da escritora potiguar Ada Lima, é um elogio à simplicidade (matéria da qual deriva toda a sua beleza), o que faz com que seja quase impossível não lembrar Manoel de Barros. A modesta capa azul faz lembrar as águas que prenunciam tempestades e soma-se a um tipo suave (em tom um pouco mais claro, assim como as linhas horizontais em fluxo, remetendo a uma corrente marítima) para anunciar-nos o título da obra. Com isso, enseja um convite ao primeiro mergulho do leitor (passei alguns minutos olhando e tateando capa e contracapa antes de me aventurar).

As proporções do livro são bastante propícias ao manuseio com apenas uma mão, deixando a outra livre para conduzir a xícara de café, preto e forte, até a boca, mesmo no clima de Parnamirim (donde escrevo), ou debaixo do sol da cidade de Natal, onde mora a autora. Confesso que tentei acompanhar a leitura com outras bebidas, mas não harmonizou tão bem. Ainda no que diz respeito ao formato, a diagramação também merece destaque: ficam dispostos em letras bem legíveis os poemas no centro da página, preservando as bordas. Isso permite a leitura do livro sem a necessidade de se forçar sua abertura, o que ajuda a conservá-lo e ainda deixa espaço para quem gosta de fazer anotações nas páginas durante as leituras – o que, pessoalmente, gosto de fazer ao passo que vou me afeiçoando às minhas leituras.

A linguagem é acessível e, ao mesmo tempo rica e, apesar do aspecto intimista, abre-se ao diálogo. Cada poema é uma cena completa e, talvez por isso, encontram-se inteiramente dispostos um por página (não apenas porque isso é o convencional em livros de poesia) e precisem de um tempo para serem devorados (no sentido antropofágico do modernismo).

É um livro bastante recomendável também para estudantes do ensino básico, tendo em vista a brevidade dos poemas, a linguagem simples e despojada (mas profunda) e a abertura para que seus sentidos se mesclem à biografia do leitor, sobretudo se este está afeito ao mar. Para degustar um pouco da poesia da autora, vale a pena acessar o blog escritosdeada.blogspot.com.br.

Por fim, deixo um dos poemas de que mais gosto.

O pânico que me escorre das mãos
não é outro
senão

o de ter que ancorar navios

no vazio

(Foto: praia dos Pinheiros, Natal/RN, Brasil).

Descrição da imagem: em primeiro plano, um pequeno bloco de corais cercado pela areia molhada da praia; ao fundo, o mar com pequenas ondas, o morro do careca e alguns prédios.

)
Geoci da Silva

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Professor, pesquisador e revisor de textos em língua portuguesa Aluno de doutorado do Programa de Pós-graduação em Estudos da Linguagem (UFRN)