A loucura

Mandala, Fernando Diniz, 1981, Museu de Imagens do Inconsciente

A loucura espia pelas frestas. E quando dizem que a origem da loucura é um mistério, penso que se dá na perspectiva mais verdadeira da palavra. A loucura é iniciática. É a iniciação xamânica que não deu certo.

A loucura é o mergulho na alma do mundo sem escafandro. Quando o mortal olha a divindade em toda sua glória, isso o fragmenta. A loucura é esse momento infinitesimal entre enxergar a glória e virar cinzas.

Existe uma beleza trágica nisso. A loucura se esconde atrás dos espelhos.

Loucura e fragmento. O louco, como o xamã, mergulha no inconsciente coletivo. Mas sem as ferramentas psíquicas para sobreviver ao mergulho, ele se perde de si. O xamã costura os pedaços fragmentados de sua alma com fios roubados da Alma do Mundo; ele conhece os códigos e as chaves.

O terapeuta é xamã. Veste o escafandro e tenta resgatar os pedaços perdidos das almas, tenta emprestar agulha e linha para que a iniciação se complete, e a alma seja resgatada.

Me pergunto se todo terapeuta carrega a ferida de Quíron.

Acho que não. Mas de Quíron também vem a sensibilidade de ser habilidoso com os mãos. Ser o mais gentil e mais sábio, mesmo entre centauros.

Este fim de semana, não desenhei mandalas. Minhas mãos se viram tomadas por figuras de pássaros. Pavões de muitos olhos, galos solares, pombas de peito acolhedor, corvos memoriais. O pássaro é um animal de fronteiras, vivendo entre mundos.

Minha mente é um mar agitado e uma gaivota que plana na ventania sobre as ondas quebrando nas rochas.

Escafandros e lanternas, penso eu. Escafandros e lanternas.