Nuvens encobriram as estrelas - meu relato pessoal da perda do Camaleão.

Eu achei que era velha demais para me abalar com a morte de um ícone. Me vi devastada como raras vezes na vida uma morte me abalou.

Quero frisar o uso do termo “ícone”. Não é herói, não é ídolo. Herói é um termo sacro: alguém que faz a intermediação entre humano e divino, nos levando a aspirar essa conexão. Algo entre “santo” e “profeta”. Ídolo é também um termo que tem um significado religioso bem claro, que é o de um simulacro, objeto que usamos para imbuir com um componente espiritual para que seja adorado. O ídolo é sempre o simulacro, a memória de outra coisa que não está lá, um ramo de trigo onde se resume o ápice de todo um processo iniciático, a estátua que reverbera a energia divina mesmo sem ser divina. Um símbolo, talvez.

Ícone é também uma imagem religiosa. Mas a função do ícone não é a adoração. A função do ícone é a transmissão de uma mensagem. No ícone, o divino fala através das mãos do pintor. O ícone conta uma história e trás um ensinamento, mas não é ele mesmo o alvo de adoração.

Saber disso dá a chave de compreensão do luto que estou experimentando. Quando o Camaleão voltou para casa, junto com a morte de David Robert Jones, o ícone de algo passou do mundo tangível para o intangível.

Bowie transmitiu a mensagem. No fio entre o louro e a hera, como se aqueles olhos desiguais fossem o espelho por onde enxergavam Dionísio e Apolo de forma simultânea, entre o caos criativo e a elaboração artística, ele transmitiu a mensagem. Sua preocupação era essa: ser ícone e não ídolo. Mensagem e não simulacro. Queria dar sua contribuição para a cultura em que estava inserido.

§§§

Quando eu entendi que eu seria sempre a estranha no espelho, foi a música que me acolheu, me fez ver que não havia nada errado em ser estranha.

Comecei a ouvir Bowie muito cedo. A primeira vez em que prestei atenção a suas músicas foi em 1994. Kurt Cobain, que era esse sim, um ídolo para meu eu de onze anos, tinha acabado de morrer. A morte dele não veio acompanhada de luto, mas de vazio e estranhamento, sim. Eu sentia que algo havia se rompido no mundo, ainda que não me atingisse pessoalmente, e precisava fazer algo a respeito.

Não sei se eu tinha consciência do que estava fazendo, mas a minha resposta foi olhar para trás na história da música. Meu pai foi meu psicopompo nessa busca. Eu comecei com Debussy, Prokofiev, Gershwin, daí para o jazz e o blues, e então o rock progressivo. Tive minha miniatura dos anos setenta bebendo escondida deitada no chão da sala dos meus pais, colocando os vinis para rodar no último volume e indo para a laje de casa fumar. Eu tinha treze anos e toda aquela angústia adolescente que fazia muito sentido.

Foi quando escutei Space Oddity. E ouvi o que fui encontrando de Bowie, aproveitando as horas que tinha sozinha em casa para ouvir tudo no volume adequado (o mais alto possível, com aquelas abençoadas caixas acústicas que aprendi a equalizar para o som continuar decente mesmo quando você escutava da esquina). Me lembro de pedir maiores explicações para o meu pai sobre o visual dele. Meu pai deu aquele sorriso que eu sabia que acompanhava alguma história muito maluca e depois, enquanto eu fuçava nas fitas, tentava imaginar o impacto de Ziggy Stardust em 72.

Isso é uma coisa curiosa da minha relação com a música. Antes da internet chegar na minha vida, a imagem dele aparecia de forma incomum, sazonal, saltava na minha frente e desaparecia. Eu tinha Janis Joplin e Led Zepellin na parede do quarto, mas nunca consegui um poster do Bowie. Era sempre um choque, uma invasão da realidade cotidiana. Quando eu estava quase esquecendo, ele surgia. A música estava nas mix tapes que se empilhavam em todo lugar e que tinham como única identidade visual a grafia mal feita do nome das músicas.

A imagem mais antiga dele para mim não era do Bowie em um palco, mas em um Labirinto. O Bowie que prendeu meus olhos foi Jareth, o rei dos duendes. E de algum modo com o passar dos anos e a acumulação de vezes em que assisti, eu sentia que a Sarah com quem ele falava não era a personagem do filme em 86, mas a Sarah que estava enroscada nas almofadas do sofá verde em 96.

Foi só em 97 que recortei a imagem dele do jornal e colei no meu espelho. Depois de ter me apaixonado pelo Lúcifer de Sandman que tinha seu rosto. Depois de ter percebido que quando o mundo gritava me dizendo que eu era estranha e que ser estranha era errado, a música, ainda mais a música dele, me acolheria dizendo que tudo bem ser estranha e que ali estava meu lugar.

Para Bowie, não havia espaço na parede. Ele estava no espelho, me olhando quando eu tentava me encontrar.

Esse sempre havia sido seu lugar. Mesmo quando a foto ainda não estava lá.

§§§

(Eu escrevi, ainda mergulhada na fase mais aguda da dor:

“A vida é um lugar estranho. Estou em luto por mim, pela arte, e é como velar meu próprio corpo. É como sentir uma dor que pertence a amplitudes. É como se planetas estivessem morrendo ao alcance dos meus dedos.” )

Um ícone. A mensagem era clara. E quanto mais o tempo passava, mais a mensagem parecia ser para mim. A angústia adolescente deu lugar para outra coisa e dentro dos fones de ouvido nos transportes coletivos, eu escutava suas músicas.

§§§

Toda vez que sinto que não vou conseguir me levantar da cama, toda vez que o esforço para dar mais um passo parece além da minha capacidade, eu escuto mentalmente Let’s dance e visto tênis vermelhos para me lembrar porque estou viva. Eu sempre tenho pelo menos um par de sapatos vermelhos e esse é um dos motivos.

Dia 8 eu vesti a camiseta de Space Oddity para celebrar o aniversário dele. Passei a noite do dia 8 para o dia 9 ouvindo baixinho Black Star porque não queria acordar ninguém. Dia 9 eu estava mostrando para um amigo o meu gif preferido na internet inteira, o rosto dele se transformando de uma persona em outra.

Dia 11, quatro da manhã. Ouvindo Black Star. Olho o desenho da capa. Perfeito. A imagem que eu buscava para tatuar em homenagem a ele. Para não me deixar esquecer de que não tem nada errado ser estranha. Que não tem nada errado mudar. Que é ok se deixar levar por cada onda e reverberação que sua criatividade propor. Já fazia algum tempo que eu acalentava a ideia de fazer algo assim.

Salvo a imagem. Decido que no dia 8 de janeiro de 2017 vou fazer. Acho que não deve ser difícil explicar a importância da data para quem for me tatuar, penso. Vão ser 70 anos dele, afinal. Sinto satisfação por aquilo que decidi.

Seis da manhã. Vou checar o Twitter uma última vez antes de dormir. Leio a notícia. Alguma coisa dentro de mim se contorce. “Raga, tão dizendo que o Bowie morreu.”. Tento me convencer que é um hoax, e em completa negação, fecho o computador e vou pra cama, tentando acreditar na minha mentira.

Levanto. Sento na poltrona e abro o twitter pelo celular por puro hábito.

Já não posso mentir para mim mesma achando que era um hoax. Meia hora depois da minha decisão de tatuar a capa de Black Star, a morte dele havia sido anunciada na página oficial.

E acontece algo que é novo para mim. O choro de saber da morte de alguém que admiro não é um choro de alguns minutos. Não é ter os olhos úmidos quando leio seu nome. Não é uma breve tristeza por aquilo que não será. É dor pura e simples. Corta minha respiração. Alguma coisa dentro de mim está quebrada e tenho vontade de gritar.

O luto não é novo para mim. Passei mais tempo da minha vida vivenciando o luto e suas marcas do que tendo uma vida dita normal. A morte sempre me rondou. Reconheço o que estou sentindo. Não é uma tristeza passageira, não é uma nostalgia, não.

É um luto que se instalou e me cobriu com sua nuvem.

§§§

O luto é o processo pelo qual nossa mente tenta processar um rompimento de algo.

Morte, separação, perda, qualquer rompimento no geral pode causar algum grau de luto. Minha mente tenta processar a perda de David Bowie e não consegue. Uma parte de mim diz que eu deveria ter vergonha de uma reação tão adolescente. Mas não dá pra fingir que não sente quando sentir explode em tudo que toca. Me afasto do Facebook, do Twitter, e depois de tentar abrir o Instagram e ter outra crise de choro, decido me afastar de lá também.

Adio minha coluna pronta no Minas Nerds e faço caber uma coluna que ligue David Bowie e RPG, porque não saberia falar de qualquer assunto que não fosse o Camaleão naquele dia.

Deleto os ícones das redes sociais da tela do celular. Ligo o Spotify e continuo ouvindo Black Star de onde eu parei no dia anterior. Vou voltando no tempo, ouvindo um álbum daqui outro dali até estar de volta em Space Oddity.

Entro na internet e vou controlando o que vou ler, ouvir. Olho o twitter de alguns autores que sigo e sei que vão estar falando no assunto, Neil Gaiman, William Gibson (e uma parte de mim se contorce de medo de perder o Gibson uma hora dessas), Amanda Palmer, Chuck Wendig. Um amigo me manda uma imagem sensível e gentil pelo whats. Outro me diz que se precisar conversar, está ali. Entro em alguns sites onde sei que vão escrever tributos. Vou tentando absorver devagar o que aconteceu. Hoje comecei a olhar o Twitter. Agora a pouco abri o Facebook. Mas não tenho a menor vontade de ter tanto contato com as pessoas.

§§§

O luto é por um ícone, pelo mensageiro que veio, e agora partiu. É a dor de saber que o mundo fica mais vazio quando se perde uma biblioteca viva. Uma porta foi fechada, uma porta que levava para o universo. A visão de um artista é única. Ninguém pode contar as histórias de outro alguém. Ninguém pode cantar a mensagem que ele podia decodificar nas estrelas.

Diziam que os ícones eram a bíblia dos analfabetos. Que aqueles que não podiam ler estudavam a mensagem divina através dos ícones. O Camaleão ensinou os conceitos mais complexos sobre a estrutura criativa e os processos artísticos para qualquer um que parasse para ver e ouvir.

Um ícone de trangressão, mas também de auto aceitação, de libertação dos estigmas. Turn and face the strange. Não se leve a sério demais e simplesmente, faça.

Ou outra coisa. A mensagem é polissêmica. E por isso tanta gente compartilha esse luto. O mensageiro sussurrou no ouvido de cada um, e cada um ouviu o que precisava ouvir.

É dessa magia que sentiremos tanta falta.

One clap, two clap, three clap, forty?

By clapping more or less, you can signal to us which stories really stand out.