Ser professor e os grandes mistérios da realidade.

Então, eu tinha dezoito anos e de algum modo fui parar dentro da educação, carreira que eu sempre abominei, por um motivo simples. Eu odeio escola. E eu achava que professor e escola eram palavras que eram inseparáveis, porque somos ensinados assim. E eu estava um pouquinho desapontada de ir trabalhar com isso.

Mas não era uma sala de aula. Era um atelier no meio de um parque. Com grandes janelas e prateleiras onde todo o material ficava acessível. Onde crianças de sete anos faziam xilogravura, com goivas de verdade, do tipo que deixou uma cicatriz na minha mão pra vida toda. Onde olhávamos as árvores enquanto se falava de criação artística. Onde cada professor e professora eram não arte educadores, mas artistas educadores. Porque é preciso praticar arte para ensinar arte.

Um dia, um professor estava trabalhando com desenhos em pequenos formatos com uma turma. E eu estava no canto do atelier, distraída, costurando retalhos de papel para fazer um caderninho, uma miniatura de encadernação, com uns quatro dedos de altura. O professor viu, e disse que queria fazer com as crianças. E quando eu comecei a explicar como fazer, ele disse: “Não. Você vai ensinar como se faz.”

Eu nunca vou esquecer esse dia. Nunca vou esquecer a sensação de mostrar para alguém “olhe, é assim que eu faço, vamos fazer juntos”. Nunca vou esquecer que um dos meus alunos era o professor que olhava atento e solidário, e que um dos meninos tinha minha altura e apoiava o queixo no meu ombro para conseguir enxergar a forma exata como a agulha atravessava o papel. Lembro de como o sol atravessava a janela e do cheiro de grama pisada quando sai lá fora, meio aérea e totalmente ocitocinada pela experiência.

E foi assim que eu virei professora, ensinando algo que eu não estava aprendendo na faculdade, mas que era parte do ofício que meu avô vinha me transmitindo desde que eu era pequena demais para lembrar. Pela primeira vez ensinei uma turma: e não como a professora diante da lousa, mas juntos em volta de uma mesa de tábua corrida pintada de azul e manchada de tinta.

Nessa semana de Dia dos Professores, depois de quinze anos, eu olho para minhas salas de aula. Não é fácil. Me sinto desanimada. Mas meu problema não é ser professora, não é ensinar, meu problema é a escola. Uma instituição que fica no caminho da aprendizagem verdadeira e que se baseia no adestramento.

Por isso é importante lembrar: Professores são imprescindíveis para a sociedade. A escola não.

A imagem do Papa no Gaian Tarot é substituída pela imagem do Professor. O mesmo símbolo, mas uma expressão totalmente diferente de como vivemos esse símbolo.

Muitas mensagens sobre o dia dos professores (e nós mesmos, profissionais da educação) tratam de elementos da vida escolar como intrínsecos ao ser professor. Provas, salas de aula, lousa, giz, dar bronca, exigir silêncio, e toda uma gama de opressões institucionais. Não é a toa que muita gente olha torto para o arcano 5 do tarô, o Papa.

Quando olhamos o professor, não vemos o mediador entre o conhecimento e as pessoas, a pessoa que traduz para o mundo cotidiano os grandes mistérios. Nós vemos o cara arrogante sentado em posição de superioridade, totalmente aprisionado pela forma da Instituição.

Mas nós não somos a instituição. Eu não sou a escola. Eu continuo odiando a escola. Odeio ainda mais hoje, quando mergulhada no ensino formal e longe do atelier, vejo a instituição me impedindo de fazer um bom trabalho. E mesmo dentro da escola, eu sou algo que se debate e pula para fora da caixinha designada. A natureza do professor é a revolução.

Acho imprescindível que quem se dispõe a mediar conhecimento entenda que a escola não é mais do que uma ferramenta entre tantas outras disponíveis. E que não é nossa função transmitir conteúdo. Conteúdo qualquer um acha abrindo o Google. Nossa função é ensinar a pensar. É ensinar como encontrar qual a palavra chave que vai tornar a pesquisa eficaz, é ensinar como distinguir qual texto tem informação confiável e qual deve ser deixado de lado.

E vejo que acima de tudo, o maior desgaste de ser professor é não permitir que a escola, que a instituição e o sistema que ela representa, impeçam nosso trabalho.

Hoje me vejo preparando minha saída da sala de aula e meu retorno ao atelier. Tenho a maturidade de ver que teria sido mais feliz se nunca tivesse saído dele, mas também tenho a consciência política de que uma mulher na periferia da metrópole luta com as armas que tem. E em um universo de opções ruins, a escola tem sido meu ganha pão e minha ferramenta para a revolução. Existem dias em que eu consigo transformar minha sala de aula tradicional no atelier onde deveria estar. E se reclamo e sofro e compartilho meu cansaço é porque existe um desgaste absoluto e um devorador gasto de energia para combater nessa luta.

Nunca vou deixar de ser uma profissional da educação. Nunca vou deixar de ser artista educadora, ensinar os outros a buscar por algo é a única coisa que eu sei fazer. Mas é preciso se despir da escola. É preciso abandonar a ideia de que a instituição escola, que os conceitos de escola, são parte do que nos faz professores.

“Mas minha experiência na escola não foi ruim.” Pode ser. Isso significa uma de duas coisas, e lide com isso: ou você era bom com o mimetismo, se escondendo em plena vista e fazendo o jogo deles para não se machucar; ou teve o privilégio de estar dentro do padrão esperado. E se sua escola era diferente, outra vez: você teve um privilégio. Caso não se lembre de alguém que sofria na escola por conta do sistema escolar, o único motivo disso é que todo desajustado é invisibilizado.

Gostaria de ter uma conclusão bacana e positiva e cheia de respostas. Mas não posso. Sou educadora; faço pensar e não tenho eu mesma resposta nenhuma. Estamos vivendo a maior crise da educação desde a Idade Média, talvez, quando o Ratio Studiorum orientou um conceito de escolástica e a forma de atuação que aquela sociedade considerava que deveria ser a correta. Mas agora precisamos deixar o Ratio Studiorum para o estudo histórico, e não nos pautar por ele. Temos incríveis lanternas a orientar o caminho, mas é preciso questionar tudo. É preciso chegar sem respostas prontas.

É a hora de incendiar os castelos e começar a construir novas pontes.

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