A arquitetura transformadora de Patricia O’Reilly, lagartos, curvas e utopias materializadas

Filipe Manoukian
8 min readOct 30, 2017

Lagartos de todos os tipos, cores e tamanhos se espalham pela ampla sala, que chama a atenção principalmente pela altura do pé-direito e pela varanda contígua, voltada a um cenário que pede contemplação: uma área de preservação ambiental com fauna e flora riquíssimas no Condomínio Parque Primavera, na Granja Viana, em São Paulo. Feitos de metal, madeira e pedra, entre outros materiais, os lagartos são muito mais do que meros itens de decoração para Patricia O’Reilly, a dona dos répteis inanimados. “É um símbolo de vida”, afirma ela. “Os druidas tinham uma consciência ambiental que os levavam a deixar uma terra quando percebiam que os recursos naturais ali estavam se esgotando. A busca por novas ocupações se encerrava quando cruzavam com os lagartos, animais que jamais ficam em lugares com bioma degradado.”

Arquiteta graduada pela Universidade Belas Artes, em São Paulo, pós-graduada em Ecologia da Paisagem pela FundaciòVS e mestre em Arquitetura e Meio Ambiente: Integração das Energias renováveis na Arquitetura pela Universitat Politècnica de Catalunya, ambas em Barcelona, Patricia viu na espécime rastejante um guia para nortear a missão — a busca incessante por uma sociedade mais integrada e sustentável, em todas as áreas e relações — que tomou para si e para o grupo de profissionais que dirige no Atelier O’Reilly Architecture & Partners.

“Trabalhamos exatamente com esse enfoque, que é minimizar o impacto negativo que a nossa vida gera no planeta e maximizar o impacto positivo, o que significa que a nossa intervenção não pode ser apenas negativa — a gente precisa impactar também de forma positiva, buscando soluções para tudo o que a gente for desenvolver dentro desse nosso trabalho de construir”, explica.

Além dos lagartos e do discurso, a inspiração também vem da própria Granja Viana, comunidade que ela escolheu para morar e para instalar o ateliê. Na manhã que nos recebeu em sua casa, em abril, Patricia estava em sintonia com o ambiente. Embora a agenda indicasse uma série de compromissos para o restante do dia, a arquiteta mantinha a fala calma, dedicava tempo para explicar projetos e se mostrava prestimosa com os pedidos do jornalista, que estendeu o tempo previsto para a entrevista em mais de uma hora.

“Olha, eu não sou nada calma”, tentou desmentir. “É engraçado porque as pessoas me veem assim, mas não é assim que eu me sinto. Eu me sinto, às vezes, muito estressada, bastante radical em algumas coisas, em alguns pensamentos eu sou pouco maleável. Mas, eu busco isso na verdade. Busco melhorar a cada dia”, completou Patricia, à ocasião.

(A versão do repórter, que identificou na arquiteta um temperamento brando, foi confirmada por pessoas que convivem diretamente com ela. Não tivemos, porém, a oportunidade de colocar o assunto em debate com os filhos — que são seis, com idade entre 16 e 22 anos.)

Tranquila ou não, Patricia usa e abusa de um substantivo feminino que é praticamente uma assinatura em todos os seus trabalhos, a harmonia. Acima de tudo, precisamos nos harmonizar com a natureza, ela gosta de defender. E é ao buscar uma real integração entre homens e meio ambiente que o Atelier O’Reilly vem se destacando no cenário mundial. Recentemente, o escritório ganhou o prêmio Saint-Gobain de Sustentabilidade, com a Casa 88; o prêmio Asbea, com o edifício Mirante do Galvão; e o prêmio Greenbest, com a Vila da Mata Residencial.

Atualmente, Patricia se dedica ao Projeto Viva (Visão Inteligente para Viver o Amanhã), que traz luz à inovação que vai definir a vida no futuro e a relação das pessoas com suas casas, tecnologia e meio ambiente. O Atelier O’Reilly assina uma das três residências que serão construídas no Jardim do Golfe, em São José dos Campos (SP) — as casas vão reunir o que há de mais novo em matéria de tecnologia, sustentabilidade, design e bem-estar.

“Quando eu recebi a proposta para fazer a Casa Viva foi supercurioso, porque São José é uma cidade tecnológica, e a gente já vinha nesse nosso processo de desenvolver tecnologia para cidades inteligentes. Então, a proposta da Casa Viva veio totalmente ao encontro da nossa filosofia de trabalho. Poder desenvolver um projeto como esse, que é modelo, que vai realmente interferir no meio e se transformar como um multiplicador desse conceito, é bastante interessante.”

Um dos grandes diferenciais do projeto é a tecnologia que transforma a Casa Viva em um organismo vivo, literalmente. “É uma casa que respira. Ela deixa o ar quente sair, deixa o ar frio entrar, vai equilibrando essa temperatura interna, exatamente como funciona o nosso corpo.”

Um novo mundo

Patricia é carioca, mas cresceu em São Paulo. Foi na adolescência que descobriu a vocação para “mudar o mundo”. Primeiro se expressou por meio da poesia — contabiliza mais de 400 textos, todos guardados esperando publicação — e depois na escultura. Trilhou o caminho da música e do cinema para, por fim, encontrar-se em definitivo na arquitetura — arte com a qual já flertava desde o começo da vida adulta.

Quando, anos depois, foi à Espanha para continuar os estudos e trabalhar, já sabia exatamente o rumo que daria à vida e à carreira. Durante os seis anos que viveu no país ibérico, compreendeu que o “progresso é a apenas a materialização de utopias” (parafraseando Oscar Wilde) e que “a gente tem que sonhar, senão as coisas não acontecem” (frase de Oscar Niemeyer).

“Quando eu era menina, sempre fui considerada a sonhadora, aquela que queria um mundo melhor. Houve uma época em que eu tentei me desligar dessa sensação interior. Eu falei: ‘acho que realmente eu estou fora, tô sonhando demais, preciso botar o pé no chão’. De repente, percebi que estava infeliz, porque eu estava fazendo uma coisa que eu não acreditava. Isso começou a me tocar profundamente e falei: ‘não, quando era adolescente eu era mais sábia do que sou hoje. Preciso resgatar essa sapiência interior e voltar a fazer alguma coisa pela qual eu acredito’. Hoje, as pessoas que me chamavam de sonhadora já me enxergam de outra maneira e começam a ver que realmente aquilo que eu pensava e acreditava era importante também na vida delas.”

Patricia defende uma arquitetura grandiosa e transformadora. “A ideia internacional de desenvolvimento urbano — e não é só no Brasil, não sou só eu que estou falando isso e sim muitos urbanistas preocupados com o desenvolvimento das cidades –, é que a gente precisa realmente ter uma cidade que seja policêntrica, compacta, que possa realmente oferecer para o cidadão tudo aquilo que ele precisa num menor espaço de deslocamento possível. Esse é nosso objetivo.”

Para tanto, ela vislumbra regiões mais adensadas, como os centros urbanos, onde “pessoas podem viver dentro daquele espaço, aplicando naquele lugar toda a sua vida, que é o trabalho, o ócio, o aprendizado, o crescimento”. Ela diz: “a partir do momento que eu consigo criar diversos núcleos na cidade, cêntricos, onde tudo ali acontece para as pessoas que vivem ali, eu consigo reduzir muito essa questão do impacto que a gente gera inclusive com combustível fóssil”.

Nessa cidade, “o home office veio para ficar, até porque esses grandes deslocamentos são inviáveis”. “Precisamos criar uma solução para que as pessoas parem de sair com seus carros na rua, é por isso que eu volto a dizer que a questão da célula, da cidade policêntrica e compacta, possibilita essa interface da pessoa na sua casa, com a possibilidade de trabalhar através da tecnologia.”

A tecnologia, aliás, é “a grande aliada” da arquitetura moderna, segundo Patricia. “E da sustentabilidade”, completa ela. “A tecnologia ajuda a implantar uma série de estratégias que antes a gente não conseguia, porque a gente não conseguia acessar a pessoa, a gente só acessava o espaço físico.” A importância? “A gente quer mudar do local para o global, do interior da pessoa, do local físico até o âmbito global. A gente vai de dentro para fora. O urbanismo por si só ele trabalha de fora para dentro. Queremos unir as duas pontas, de fora para dentro e de dentro para fora, e chegar a esse ponto comum que é o impacto direto na pessoa, no ser, para a consciência acompanhar esse desenvolvimento.”

Dentro dessas células urbanas, Patricia defende a ocupação do espaço público e o resgate das relações pessoais entre vizinhos. “Esse espaço está me proporcionando ócio, lazer, cultura, trabalho. O que eu vou fazer? Eu vou convivendo mais. Então, apesar da tecnologia me tirar um pouco da convivência, do corpo a corpo, a cidade está me proporcionando uma vivência e me inter-relacionando com todos aqueles atores que estão concentrados nessa célula.”

Curvas, lagartos e leveza

A harmonia entre pessoas e cidade vai além. Patricia afirma que “quem muda a cidade não é o desenho urbano”. “A necessidade humana vai acabar criando um impacto na cidade e o urbanista vai entender essa necessidade e passar isso para um desenho, adequando e equilibrando essas necessidade todas.”

“Na época da arquitetura moderna, a gente tinha um contraponto. Para não imitar a natureza, foram criadas formas mais rígidas, linhas retas, fantásticas, que criavam o contraponto. Hoje, eu acredito que a gente precisa se harmonizar com a natureza. Então, se você for analisar tudo o que é natural e do universo, é curvo. É curvo porque a curva te abraça, ela te acolhe.”

“Das curvas é feito o universo”, já dizia Niemeyer.

O desenho arquitetônico, dentro dessa arquitetura, também nasce a partir de uma análise do “clima local e como é que a gente vai interagir com esse clima para conseguir economizar os recursos naturais”. “Então, por exemplo, se eu sei que o sol vem daqui, meu edifício é voltado para o norte. Eu preciso proteger aqui, abrir ali, porque esse vento é frio. A casa começa a se transformar em função da minha necessidade de proteção e aberturas, para deixar entrar o clima local. Por aí, o desenho começa a nascer de forma orgânica, porque está interagindo com esse espaço externo. Aí, eu começo a analisar formas geométricas do entorno que vão me ajudar a conceber a arquitetura integrada com o meio. Porque eu quero não é criar uma arquitetura icônica, eu quero que seja uma arquitetura integrada, que ela fique totalmente absorvida pelo entorno e pelo espaço onde eu estou trabalhando, que ela desapareça na paisagem.”

Como resultado, nascem os traços marcantes dos projetos do Atelier O’Reilly, que também carregam muito do repertório de vida de Patricia. De Barcelona, a maior delas: Gaudí. “Ele me influenciou demais porque, claro, é um exemplo para todo mundo. Um arquiteto que conseguiu fazer a Sagrada Família ser uma obra eterna, imagine isso?”

Da Espanha, ainda, outra paixão: Pedro Almodóvar. “Ele consegue trazer para a tela a delicadeza e a elegância do comum, do que é normal. Isso é fantástico, porque arquitetura é isso também. É você conseguir trazer para o dia a dia essa delicadeza, essa simplicidade integrada com a sua vontade e o seu desejo.”

A força dos personagens de Almodóvar, especialmente das mulheres, é o que parece mais inspirar Patricia. Ela pensa um mundo real e imperfeito, como deve ser. “O que é ser perfeito? É aquilo que não erra, que está totalmente alinhado? Não, o desalinhamento faz parte da perfeição.”

Patricia quer as curvas e os lagartos, de todos os tipos e tamanhos. Patricia, embora não se classifique como uma pessoa calma, quer, especialmente, “que o mundo seja menos duro, mais leve e mais transparente”.

Texto escrito em abril de 2017

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Filipe Manoukian

Jornalista, especialista em Mídia, Informação e Cultura (USP). É editor, caiçara e pai do Joaquim.