Pelo direito de não querer ser outra pessoa
Maurício Piccini
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Não vou comentar a segunda parte do texto, porque acho que ela foi construída sobre uma perspectiva complicada. O Guilherme Damasceno na outra conversa aqui já falou nesse sentido, mas não acho que o problema aqui seja egocentrismo, mas sim a questão do olhar. Está além e aquém da discussão a vontade dos alunos e seus sonhos sobre o futuro. Porque? Acho que problema do autor é considerar tudo de um ponto de vista meramente individual, quando a questão aqui não é individual. Essas pessoas, como em geral os vestibulando, os formados e os estudantes, não são pessoas aleatórias; eles têm um perfil de classe bem distinto, para ser específico a questão do caso. Agora, o problema com o texto parece ser assumir igualdade entre as pessoas que não são iguais: um vestibulando se vestindo de frentista e o filho do frentista tem chances muito diferentes de se tornarem frentistas no futuro. Isso sim é uma questão.

Entretanto, deixando isso de lado essa importante questão, para discutir a questão da fantasia ao invés da interpretação do evento, acho que a fantasia em si talvez nem seja o problema (não poderia afirmar isso, entretanto). O que sim é um problema é a desvalorização dessas profissões; não porque elas não sejam desvalorizadas, não porque elas não devam ser (pode querer ser médico, sem problema), nem porque não se pode discutir a sua desvalorização; mas porque não é nem educado, justo, e nem de bom tom somar a essa desvalorização da profição humilhação. Discutir a questão sem humilhar, pode, mas humilhar é extremamente injusto, considerando que as pessoas que tem essas profissões já tem mil outros problemas provenientes delas. E se justiça não for um argumento suficientemente forte para o leitor, então que sirva a educação, mesmo que aristocrática: não é de bom tom ressaltar a desigualdade social de forma aberta, diriam os Condes e Duques. Ela é uma coisa tão explosiva, tão feia, que tem que ficar no canto da mente. não pode ser trazida a luz do dia, é como uma ofensa sexual. Agora, eu não defendo acobertar a desigualdade; apenas que discutí-la tem local e forma certa. A palavra focal aqui é FORMA, signifando maneira. Fazê-lo na escola é bom, ótimo, na verdade; fazê-la de forma cômica, não é um problema, enquanto nã humilhar as pessoas nas posições subordinadas, me parece. E essas festas ofendem não apenas pelas fantasias e sonhos alheios, mas por esses alheios estão aí fazendo graça da profissão da mãe e do pai dos outros.

Importante: você pode querer ser o que quiser, e pode considerar o que quiser uma derrota; o que não vale é ir jogar na cara dos outros que você acha a vida deles uma derrota. Especialmente se você tem uma vida melhor, mais fácil, e mais oportunidades. Especialmente se você está em uma posição de humilhar alguém (uma coisa é seu colega te chamar de idiota, outra é um professor).