O Terceiro Mundo vai explodir! Trinta anos 
 da lisergia de Psicoacústica, do Ira!

Lançado em 1988, incomodou a gravadora e vendeu porra nenhuma, mas virou peça cultuada do rock nacional

Crédito: Rui Mendes/Revista Bizz, 1988

“Trata-se de um faroeste sobre o Terceiro Mundo!”

A frase abre Psicoacústica, terceiro disco do Ira!, lançado ainda nos primeiros meses de 1988, há pouco mais de 30 anos. Retirada do filme O Bandido da Luz Vermelha (1968), do cineasta Rogério Sganzerla, o áudio retirado do longa — um sample, coisa quase impensável pra música brasileira da época — surge nos primeiros segundos da faixa de abertura, “Rubro Zorro”, enquanto a banda empurra pro ouvinte um redemoinho de guitarras, violões e clima soturno, pouco antes de Nasi disparar “o caminho do crime o atrai como a tentação de um doce”.

A vida era bronca no Brasil de 1987 (quando não foi?). O país havia acabado de deixar pra trás os anos de chumbo da ditadura militar, mas já sofria um golpe duro de absorver. Reprovada a emenda Dante de Oliveira, em 1984, que reestabelecia eleições diretas para presidente da República, a população viu Tancredo Neves, primeiro presidente da República civil após 21 anos de governo de exceção, eleito em 1986 e de forma indireta pelo Colégio Eleitoral, morrer 38 dias após ser escolhido como o novo chefe do Executivo.

Com o vice José Sarney no lugar de Tancredo, o país trocou a esperança pelo desalento. O Plano Cruzado fez água, e entre outras decisões, o então presidente suspendeu o pagamento da dívida externa, algo em torno de US$ 107 bilhões. A inflação acumulada de 1987 chegou a 415,83%; no ano seguinte, a 1.037,56%.

https://www.youtube.com/watch?v=_Y32ykjdXlY

Mas a indústria fonográfica não reclamava. Ricardo Alexandre lembra, no livro Dias de Luta, que o LP Rádio Pirata ao Vivo, do RPM, de 1986, vendeu três milhões de cópias e exigiu que a gravadora CBS acionasse a fábrica na Argentina pra suprir a demanda interna pelo disco.

Estilhaços de um país com as rodas pra cima e o motor fazendo fumaça foram parar no Nas Nuvens, do ex-mutante Liminha, no Rio de Janeiro, onde os quatro, todos com menos de 30 anos, gravavam o disco. Latas atiradas no mar do Rio de Janeiro em setembro daquele ano, recheadas de um fumo melado, transportadas por um navio chamado Solano Star, também pintaram no estúdio. Os efeitos causados pelo contexto histórico, pela maconha da lata, as sessões do filme de Sganzerla (Nasi se trancava em uma sala e passava horas assistindo ao filme atrás de trechos para samplear) e pelas leituras do vocalista dos livros de Caryl Chessman, o bandido da luz vermelha norte-americano, estão registrados nos sulcos do LP (que vinha com um óculos 3d pra ajudar o ouvinte a visualizar a capa dupla).

Não tem hit

O uso de áudios sampleados do filme, guitarras ao contrário (as guitarras fantasmagóricas de Edgard Scandurra), instrumentos que flutuam entre as caixas acústicas, o som de uma porta batendo e uma lista de experimentações incomodaram a gravadora WEA (um selo da Warner). A companhia esperava novos “Envelheço na Cidade” e “Flores em Você”, do álbum anterior, Vivendo e Não Aprendendo (1986) — a última, trilha da novela global O Outro. Psicoacústica não tinha um hit. A gravadora queria “Receita para se fazer um Herói” (acusada de plagiar um poema do português Reinaldo Ferreira) como música de trabalho. Nasi, Scandurra, André Jung e Ricardo Gaspa brigaram por “Pegue Essa Arma” e venceram. Segundo números da época, o disco vendeu cerca de 50 mil cópias, contra 300 mil do antecessor.

O álbum foi lançado em 11 de maio de 1988 (a versão em fita cassete trazia “Não Pague Pra Ver”, registrada ao vivo no festival Hollywood Rock, em São Paulo, em janeiro daquele ano; na versão carioca do evento, com problemas para passar o som e estranhamento com as atrações gringas, a banda arrebentou o camarim). A crítica, em geral, gostou. “Em seu terceiro LP, o Ira! conseguiu superar a si mesmo e arquitetar equilíbrios sonoros, razoáveis canções e inesquecíveis solos de guitarra”, escreveu Luiz Antônio Giron na extinta revista Bizz. Na Folha de S.Paulo, Thales de Menezes classificou o LP como “o mais ousado do Ira!. O grupo rompeu com a estrutura ‘1ª estrofe, refrão, 2ª estrofe, refrão, solo, refrão’ que norteava a maioria das músicas de seus dois primeiros LPs”. No Jornal do Brasil, Arthur Dapieve comemorou: “o estúdio não entrou com a pasteurização asséptica de costume, mas para sujar o som com infinitos efeitos neopsicodélicos”.

Alexandre Matias, do Trabalho Sujo, reforçou décadas mais tarde o valor do disco: “Psicoacústica traduz o mod para o Brasil de forma definitiva e pessoal. Ao optar pelo marginal como símbolo da cultura nacional, o Ira! pinça O Bandido da Luz Vermelha, filme de Rogério Sganzerla, como centro de seu disco, como o jovem Jimmy (Phil Daniels) de Quadrophenia, do Who (…) Questionando todas as autoridades, o disco busca a redenção do brasileiro, cada vez mais marginal, sem tem pra quem recorrer”. Em uma lista dos 100 maiores discos da música brasileira elaborada pela revista Rolling Stone em2007, Psicoacústica ficou na 83ª posição.

Rap é compromisso

Já envolvidos com a cena hip hop desde 1987, Nasi e o então baterista André produziram, com Dudu Marote e Akira S, a coletânea Hip Hop Cultura de Rua, lançada pela Eldorado em novembro de 1988, e se permitiram inserir referências do gênero no álbum. Scandurra, também naquele ano, lançou Amigos Invisíveis, primeiro trabalho-solo.

A fusão do rap com as guitarras antecipou manifestações, que surgiram mais adiante, nos anos 90: junto com os álbuns dos também paulistas Fellini, Psicoacústica serviu para forjar o som de Chico Science e a Nação Zumbi, Mundo Livre S.A e outros nomes do manguebeat.

Ouvimos Nasi e Scandurra, André e Gaspa — os dois primeiros seguem à frente do Ira!, depois de um hiato causado por brigas públicas — sobre as histórias que forjaram o disco e as impressões sobre ele, 30 anos depois. O ex-baterista foi mais econômico nas informações, e em uma das respostas evitou dizer o nome do vocalista.

Entre as lembranças daqueles meses no Nas Nuvens estão uma guitarra gravada dentro do banheiro, a gravação de uma porta do estúdio batendo, os telefonemas a traficantes em busca de algumas latas de maconha, as tragadas do fumo “melado” em um narguilé misturado a doses de conhaque, e um baseado compartilhado com o então presidente da gravadora, André Midani.

Nasi lembra ainda da amizade com Sganzerla e um estranhamento que quase botou tudo a perder: o cineasta, que inicialmente autorizou o uso dos áudios do filme em “Rubro Zorro” e em “Pegue Essa Arma”, ameaçou embargar o álbum ao saber pelo vocalista que a gravadora negou a produção de um videoclipe assinado por ele, Sganzerla, com imagens inéditas do longa.

Segundo Nasi, o videoclipe de “Rubro Zorro” (abaixo) publicado no YouTube em 2008, com imagens descartadas da versão que foi aos cinemas em 1968, é o produzido pelo cineasta. A informação veio da atriz e diretora Helena Inês, viúva do diretor, em entrevista ao vocalista no programa Nasi Noite Adentro, no Canal Brasil, ainda não levada ao ar. Informação que ele revela ser inédita.

O legado psicoacústico

Edgard Scandurra: Foi um disco muito conceitual, que eu acho que foge um pouco, apesar de ter muitas musicas pop no disco, foge do conceito do disco com vários hits. A ideia era ter muito mais essas faixas difíceis até, mas que tivesse longevidade. Você ouve e percebe que é um disco moderno, como você ouve King Crimson, você acha isso. Acho que o Psicoacústica tem esse poder. Apesar de jovens, a gente saiba muito bem o que a gente estava fazendo. Numa época que a gente podia ficar no melhor estúdio do Brasil por um mês, no Rio de Janeiro, hospedado num hotel razoável, bom (risos). Foram bons tempos.

Nasi: Eu coloco o Psicoacústica como um dos melhores álbuns do Ira! e como um dos melhores da década de 80. É um disco de uma atmosfera sombria, de muitas experimentações em termos de camadas de guitarras, uso de tecnologia nova na época, como sample, scracth. Um disco que foi uma autoprodução na época, isso é muito bom que se diga: o Ira!, da sua geração, foi o primeiro, não lembro qual outro artista fez isso, mas com certeza foi o primeiro que se autoproduziu. A gente teve o engenheiro de som Paulo Junqueiro ao nosso lado, mas diferentemente de todas as outras bandas que produziam seus discos com os produtores vinculados às gravadoras, digamos assim os big shots da época, nós metemos a mão na massa, dirigimos, fizemos o conceito, os arranjos e mixamos algumas musicas, inclusive mixamos a oito mãos, Paulo Junqueiro, Edgard, eu e o André [Jung, bateria].

Ricardo Gaspa: Sempre me dediquei aos discos da mesma maneira, com empenho, cada disco [tem] uma história. Gosto muito do resultado desse disco, com certeza um dos melhores da carreira do grupo. Um disco em que o Ira! colocou a individualidade de cada um para um resultado conjunto nas músicas. Isso deu uma personalidade única para o Psicoacústica. Um trabalho assim merece o reconhecimento que teve, um disco memorável.

André Jung: Certas obras conseguem, ainda que incompreendidas quando de seu lançamento, permanência. Psicoacústica é uma delas. Um disco que a meu ver está no panteão do Ira!.

O Brasil de Psicoacústica

Nasi: Vivíamos um período muito conturbado do Brasil, prestes a ter sua primeira eleição a presidente [a eleição aconteceu em 1989], saindo de uma ditadura, crise econômica séria, vindo do final de um governo corrupto e inadequado como foi o Sarney, muito parecido com os dias de hoje, um vice [presidente] incompetente e cheio de oligarquias ao seu lado. Acho que tudo isso, com certeza, assim como os dois primeiros discos do Ira! refletem uma fase mais solar, digamos, mais esperançosa do pais, 85, 86, esse momento do país refletiu muito nesse ar sombrio do disco, nessa atmosfera carregada dele, em letras por vezes pessimistas ou então questionadoras, como “Pegue essa arma”. Por isso que o Psicoacústica é muito diferente em atmosfera e em letra dos dois primeiros.

André Jung: O Ira! era uma banda contestadora, politicamente e esteticamente. Psicoacústica reafirmava essa vocação subvertendo diversas características da própria estrutura das canções. Com alguns anos de avanço, o álbum antecipou a fusão entre o texto politizado e os ritmos brasileiros que iria permear o rock brasileiro dos 90.

Scandurra: É uma época em que os artistas dos anos 80 do rock, os lançamentos são todos discos de ouro, de platina, vendas altas, porque o [preço do] disco era congelado. Durou mais ou menos… São os anos de ouro do rock dos anos 80, 85, 86, o Plano Cruzado. E foi um momento duro pro país, de muita inflação, medidas paliativas, mas que ajudou muito a vender disco, com certeza.

Ricardo Gaspa: Não sei dizer, sinceramente não lembro direito, minha cabeça já não é a mesma. Sei que, da minha parte, o que me interessava era continuar com a banda, com os shows e produzindo mais. Lembrei que nesse disco a gente meteu a mão nas mixagens também.

O disco e o óculos 3d, que acompanhava o LP para ajudar na visualização da capa e contracapa

Um galpão em São Paulo e a pré-produção do disco

Nasi: O processo de produção ou de pré-produção mais precisamente foi feito em São Paulo. A gravadora nos disponibilizou um barracão no bairro da Barra Funda, em São Paulo, onde nós deixamos lock out, como se diz, com até um mini palco, com bateria, amplificadores, tudo ligado. Na época eu possuía um gravador tascam 246, que era um gravador que você podia fazer, um minigravador que você, com fita cassete, transformava num gravador de quatro canais, que podiam ser multiplicados por oito. Era um gravador caseiro, portátil, que você podia gravar com fita cassete os nossos ensaios, que eram na verdade jam sessions que a gente gravava. “Rubro Zorro” nasceu dessa forma. Foi um tema que foi sendo desenvolvido através da sonzeira que a gente desenvolvia, uma melodia que eu fui ensaiando em cima da música e depois coloquei uma letra. Algumas outras músicas não nasceram exatamente assim no Psicoacústica. Por exemplo, “Receita pra se fazer um herói” foi uma das primeiras composições do Edgard com o surgimento do Ira! mas que não tinha sido gravada nos dois primeiros. “Poder, Sorriso, Fama” era uma música também que já existia no Ira! antes da fase Andre Jung-Ricardo Gaspa; era da fase do Charles Gavin. Então teve algumas músicas que já vieram, já estavam prontas, e outras que a gente foi desenvolvendo nessas jams durante as tardes que a gente ficava lá.

Scandurra: Muitas músicas eram recentes, [de] quando a gente estava dentro do estúdio, principalmente as do Nasi; “Rubro Zorro” tinha recém surgido, foi uma música que a gente fez no ensaio pra esse disco. No bairro do Bom Retiro, num estúdio grande, parecia meio um mini teatro… “Advogado do Diabo” a gente construiu dentro do estúdio, “Mesmo distante” é uma musica que eu fiz num estúdio separado aqui em São Paulo e levei o que eu chamava de ‘guitarras fantasmagóricas’, sons que repetiam de trás pra frente, uma coisa meio maluca. A gente sentia ele bem contemporâneo ao nosso momento, a gente percebia que ele não era saudosista, não tinha elementos de alguns anos atrás.

André Jung: Havia um galpão na Barra Funda, em São Paulo, com uma estrutura de palco montada para ensaios que era do povo do Radar Tantã, casa noturna do tempo das danceterias. Ali nasceu “Rubro Zorro”, por exemplo. Outras coisas vieram de experimentos que eu fazia em meu estúdio, como “Advogado do Diabo”.

Ricardo Gaspa: A gravadora nos deu liberdade para fazermos o disco. Deixaram em nossas mãos. Pensamos em fazer um disco em que as músicas pudessem estar interligadas, músicas que tivessem intervenções de samplers com frases de filmes, ruídos de porta se abrindo e assim passando para outra música, o uso do scratches, coisa que o Nasi vinha fazendo. Foi um disco em que cada um trouxe a influência do que vinha fazendo e tudo se somou. O disco nasceu de jams e canções que trouxemos. Muitas ideias foram criadas em estúdio também.

O disco conceitual, as experimentações e o ‘clima de filme’

Scandurra: O som do Psicoacústica, assim como o de todos os trabalhos do Ira!, sempre foram conceituais. Não digo discutidos anteriormente, pensados, mas às vezes intuitivamente acabam criando um caminho a se trilhar, de sonoridade, de conceito, de paisagem musical. E assim foi com o Psicoacústica, por isso que a gente mudou um pouco os timbres, os efeitos, usando mais tecnologia. Acho que no princípio do Ira!, de criação, era muito inspirado nos nossos ídolos, e os ídolos como os Beatles, vamos dizer que não seja a maior influência da gente, mas tem um Sgt Pepper’s na sua carreira, assim como muitos ouros artistas, o Clash tem o Sandinista, o Who tem o Quadrophenia. E outros artistas têm um disco especialmente conceitual. Acho que o Ira! tem esse objetivo de fazer discos diferentes que deixem marcas mesmo, e o Psicoacústica foi feito pra não ser uma continuidade, teve um rompimento ao mesmo tempo que expunha o melhor de todos nós.

André Jung: Havíamos gravado dois discos mod, depois do Vivendo e Não Aprendendo, disco que nos projetou nacionalmente — Edgard aprofundou essa viagem no seu primeiro trabalho autoral, Amigos Invisíveis (1988), ao mesmo tempo, eu e o vocalista fomos arrebatados pela força transformadora do hip hop. Do choque dessas linguagens e da aceitação que era necessário conciliar os impulsos criativos nasceu o Psicoacústica. O eixo criativo passava por criar novos encadeamentos, evitar arranjos em bloco, trazer imagens para dentro da música, aproveitar o acaso.

Gaspa: Acho que não era nossa intenção fazer um disco conceito, e sim um disco com a nossa cara, com o que estávamos vivendo musicalmente, com liberdade e prestígio por parte da gravadora pois havíamos conseguido um disco de ouro no anterior. Foi fantástico porque, a partir dele, faríamos outros, sempre com mais autonomia.

Nasi: Sim, foi algo intencional. A gente veio de dois sucessos, o Mudança… foi, mas não foi um sucesso tão grande como o Vivendo e Não Aprendendo, e a gente sentiu, com esse sucesso teve, digamos, moral dentro da gravadora pra nos fecharmos, nos autoproduzirmos e entregarmos um disco sem que tivesse um direcionamento mais constante da gravadora. E a nossa intenção foi mesmo nos recriarmos. Teria sido muito cômodo pra gente seguir [a mesma fórmula], cômodo, confortável e com certeza teria tocado mais no radio se a gente tivesse um disco no estilo dos dois primeiros, mais próximos do que se tocava em radio na época, com refrão, melodias assobiáveis, como falavam na época. Mas a nossa intenção foi realmente dar uma quebra no nosso trabalho nos reinventarmos. Foi um projeto mais ambicioso e que nós também nem abrimos isso pra gravadora.

André Jung: Todo o arranjo de “Farto do Rock’n Roll” é um bom exemplo.

Scandurra: O disco todo… começa quando tem uma fala do filme do Bandido da Luz Vermelha… tem esses momentos bem claros.. tem um final de um discurso de TV ou de rádio de um líder religioso, um discurso conformista, falando que tem que ter rico e pobre, branco e preto, patrão e operário. A gente vai usando esses elementos que vão dando essa estranheza, esse experimentalismo, que é uma característica do disco todo. Usamos também um solo excelente de “Receita pra se Fazer um Herói”, uma música muita especial do Ira!, essa talvez venha de um passado mais distante, desde o Subúrbio, banda anterior ao Ira!, e ele é trilhado por esses experimentalismos. Mesmo “Farto do Rock’n’roll” tem um solo de scratch…tem uma torcida, aplausos no meio da música, muitas interferências… tem uma coerência até mod, porque o mod trabalha muito com linguagens surrealistas, psicodélicas, surpreendentes e isso tem bastante no disco.

Nasi: Na época, esse disco, como ele tinha muitos detalhes, o Edgard em várias músicas gravou, sei lá, dez guitarras, entende? E tinha efeitos de sample, locuções d’O Bandido da Luz Vermelha, percussão, e a gente tina muita vontade de fazer um disco como eu acho não existia ainda, o 5.1., a gente queria muito fazer um disco onde as coisas flutuassem, onde alguém ouvisse no fone de ouvido tivesse essa noção lisérgica de as coisas passando da direita pra esquerda, pequenos detalhes que subissem e sumissem…

Gaspa: Me lembro do Edgard gravando uma guitarra no banheiro e do Nasi passando horas em um quarto enquanto gravávamos, escolhendo falas de filmes para samplear (…)Se não me engano, [em] “Mesmo Distante”. Havia uns passos, uma porta se fechando.

Nasi: Teve muitas músicas, “Pegue Essa Arma”, “Advogado do Diabo”, mas principalmente essas, um pouco mais piscodélicas, lisérgicas, que nós acabamos mixando a oito mãos, Paulo Junqueiro, engenheiro de som, Edgard pilotando as guitarras, os vários canais de guitarra, eu pilotando as vozes, a minha voz solo e os backings [vocals], o André também fazendo alguma coisa de percussão, então tudo isso foram coisas particulares… teve efeitos também no final do “Advogado do Diabo”, onde eu coloquei um áudio que eu gravei da [rádio] AM de um programa, de um discurso reacionário de um pastor. Teve um barulho de uma porta fechando pra começar um outro clima completamente diferente, lírico, que é “Mesmo Distante”; aquilo foi uma porta do estúdio gravada. A gente procurou em arquivos de discos de sound effects, né, não achamos, falamos “meu, vamos gravar a gente mesmo essa porta”, a porta do estúdio (risos), fechando, ‘ploc’, com aquele impacto todo. Então esses são exemplos das viagens que a gente tinha e dos caminhos não convencionais que a gente foi procurando pra realizar aquele disco, que tinha meio um clima de filme.

Gaspa: Mixamos em quatro, até oito mãos na mesa pilotando guitarras, subindo o som da caixa da bateria do bumbo, conforme a música ia rolando. Isso possibilitou que a gente imprimisse ainda mais o que queríamos sonoramente no disco […]Me lembro do Edgard gravando uma guitarra no banheiro e do Nasi passando horas em um quarto enquanto gravávamos, escolhendo falas de filmes para samplear.

Scandurra: Eu experimentei muito nesse estúdio. Trabalhava com uma guitarra só, uma execução só de guitarra passando pelo som de três amplificadores de características diferentes. Então tinha três sons da mesma guitarra diferentes passando por efeitos diferentes também, que eu distribuía meus pedais, pra cada amplificador, uma linha diferente. Usava muitos efeitos que existiam dentro desse estúdio, o estúdio do Liminha, que é meio que um colecionador de guitarras e pedais e coisas. Então eu ia buscando naturalmente poder expor minha guitarra da maneira mais forte, com poder de fogo e personalidade.

Paulo Junqueiro (engenheiro de som e produtor do disco, em entrevista a A Ira de Nasi, biografia do vocalista, por Mauro Betting e Alexandre Petillo): Psicoacústica era uma palavra que eu falava muito. Foi tudo superlativo nas gravações. A guitarra que era gravada com 16 microfones e quatro amplificadores. Tinha coisa que ficava uma merda, mas muita coisa genial. A Warner deu três meses pra gente trabalhar, na maior liberdade.

O clima no estúdio

Nasi: Sinceramente o clima da gente nesse período que a gente fez o disco… o Psicoacústica foi gravado no final de 87 até o começo de 88, foi um disco q demorou seis meses, entre o inicio das gravações no [estúdio] Nas Nuvens e o final das mixagens, eu lembro que durou se não sei, muitos meses. E o nosso clima era bom na época, não foi um momento de tensão não, tanto que todos embarcaram muito nessa viagem consciente de nos reinventarmos, de ousarmos fazer uma coisa diferente do que se tocava na rádio. Não vou dizer que foi tensão, mas na época tinha muita especulação com relação à minha relação com o hip hop, algo parecido com o que aconteceu com o Edgard anos depois com a música eletrônica. sempre tinha essa coisa, quando um artista começa a flertar com um estilo de música muito diferente do rock, existe um clima de “nossa agora ele virou rap, agora ele virou musica eletrônica”… acho que isso teve um pouquinho, mas não necessariamente entre a gente. O nosso clima era legal.

Agora, foi um sucesso em parte de criativa, viu? Assim como a gravadora não entendeu o disco, as rádios não sabiam como … não sabiam como escolher um single de trabalho pra tocar em radio, uma parte da crítica não entendeu o disco. Lembro que uma parte da crítica achou disco pretensioso…. Veja como é engraçado, a nossa mistura de maracatu com rap e rock em “Advogado do Diabo”, que depois viria assumidamente a influenciar o trabalho do Chico science e Nação Zumbi, por alguns críticos foi visto como pretencioso, entendeu? Algo frágil, sei lá. E depois, hoje as novas gerações de críticos e de público têm outra impressão. Algumas coisas do Psicoacústica depois já anunciaram uma nova fase do rock nacional, que viria depois com Nação Zumbi, Mundo Livre S.A, O Rappa, enfim.

André Jung: O clima do Ira!, raras exceções, sempre foi tenso.

Scandurra: Na época, a gente conviva muito bem. A gente já tava há um certo tempo juntos. Isso é em 87. Essa formação é do comecinho de 85 e eu já estava com o Nasi desde 81. E foi muito intenso isso, porque já foi meio profissional de 85 pra frente, já tinha a gravadora, divulgadores, imprensa, televisão, estúdio, enfim, a gente trabalhava bastante, uma empresária que tinha um circuito muito interessante de shows que proporcionava pro Ira! shows em ginásios, na USP, na Praça do Relógio, ao ar livre. A gente se dava muito bem, a gente estava recém-separados, digamos assim, cada um morando na sua casa, porque moramos juntos durante uma época. Eu morei com o Gaspa, o André morou com o Nasi. A gente se dava bem, compunha muito juntos, era gostoso ensaiar. Ainda tinha um frescor e o desafio do terceiro disco, porque existe uma mística em cima do terceiro disco, muitos acham que pode ser o disco mais importante de uma banda, ou que já demonstra decadência… é um disco vital. A gente se dava bem.

Gaspa: O clima era o melhor possível, uma fase boa do Ira!. Estávamos unidos em fazer um grande disco, mas sem o peso de qualquer obrigação. Dávamos muitas risadas e trocávamos muitas ideias, um clima favorável para a composição do disco.

A maconha da lata

Nasi: Olha, não, foi… (gargalhadas), foi só o produto do Solano Star mesmo, que não era pouco viu? Na época acho que a gente não estava usando outros, pelo menos dentro do estúdio não tinha muito isso não. Agora, vou falar um negócio, a marijuana do Solano Star, quem fumou, fumou! Acho que nunca mais ao longo da minha vida eu fumei algo forte e tão bom em termos de canabis sativa como aquele negócio que infestou não só o litoral do Rio de Janeiro como o litoral norte de São Paulo. Então a gente tinha sim, os caras lá no estúdio tinham um telefone, ligavam lá pra um cara e falavam assim, “e aí, tem?” E os caras traziam, porque foi tanto… E eram melados, nossa! E mais que isso, teve dia que a gente fumou o fumo da lata num narguilé com conhaque, hahaha, que já é… Meu, não precisa nem de mais nada. Mas foi só isso mesmo, não precisa mais muita coisa não viu? O bicho era bravo.

Paulo Junqueiro (em A Ira de Nasi): A gente fumava pra caralho. Era o que mais rolava. De resto, a gente dava um teco ou outro, mas o grosso era a maconha da lata no narguilé do Edgard. Foi uma sintonia fina, afinal, na época, pouca gente conseguia trabalhar com o Ira! e eles também confiavam em poucas pessoas. Principalmente numa ousadia como essa.

Scandurra: Essa época era a época que a gente tava disposto a fazer experimentalismos todos, inclusive psicotrópicos, alucinógenos. As experiências todas estavam valendo pra um bem maior, que era a nossa arte, o nosso disco. Eu acho que de certam maneira ajudou a abrir alguns canais pra criar uma atmosfera, uns climas que eu acho que mostram uma abertura um pouco sensorial, extra-sensorial, do que poderíamos estar se estivéssemos totalmente racionais. Acho que isso é uma coisa que permeia o nosso disco, a nossa abertura aos experimentalismos e às possibilidades que a gente tinha de ter um estúdio mt bom, com um engenheiro de som excelente, que é o Paulo Junqueiro, com o Peninha [Schmidt], que era nosso produtor já há dois discos, e o Liminha olhando à distancia, os dois, e a gente ficou muito à vontade com o Paulo Junqueiro. Então é uma produção nossa, do Ira!, e mostrou o quanto a gente estava afiado e o quanto a gente não estava tão longe na prática das nossas ideias.

Ah, a época do fumo da lata, então, foi importante porque a gente já estava querendo alguma coisa que transpusesse a coisa do experimentalismo técnico, de ficar experimentando ritmos musicais como se fosse um trabalho acadêmico. A gente buscava uma essência que talvez a lata tenha nos ajudado a atingir. Principalmente quando você fica mais de um mês dentro do estúdio gravando, é um disco de oito músicas, não é um disco de muitas faixas. É m disco de oito músicas densas, grandes, longas, e eu acho que a lata foi importante pra coisa recreativa, da diversão, que a canabis produz, provoca na pessoa, e na inspiração mesmo, relaxamento. Nos quatro morávamos e moramos em São Paulo, um disco inteiro gravado no Rio de Janeiro, que é uma atmosfera muito quente e gostosa, uma cidade linda, também dar uma volta no quarteirão, ver a praia, tudo muito agradável. Então a lata ajudou a gente relaxar mais e poder não ter tanto medo das ideias, ir mais fundo nas ideias, nos experimentalismos. Não que sem a lata isso não fosse possível, mas você com menos de 30 anos, com a lata, que era o melhor fumo que havia surgido no Brasil nos últimos tempos, desde sempre, foi uma coisa muito boa que surgiu, e isso foi muito interessante pra você ter dentro do estúdio, principalmente porque todos estavam meio juntos… Nem todos fumavam, inclusive, eu acho, mas era muito gostoso e inspirador.

Gaspa: Eu não fumava mais na época, mais com certeza ajudou na atmosfera climática, incluindo nosso produtor Paulo Junqueira, que se embrenhou e embarcou nela. Junqueiro que se atirava em nossas viagens, contribuiu até no nome do disco.

Nasi e Sganzerla: amizade e rompimento

Nasi: Às vezes falar que é um álbum conceitual, às vezes você tem um pouco de ranço meio pretensioso. A gente queria fazer um disco bem diferente, um disco que fosse o contrario dos discos q a gente vinha fazendo, com musicas mais compridas, com climas, e tudo isso tinha a ver com a visão, digamos, de trilha sonora das musicas. Por isso que nós chegamos até O Bandido da Luz Vermelha, que era um filme que eu tava fascinado na época. Os caras sabem, no estúdio eu ficava vendo o filme, vi esse filme centenas de vezes; lá no Nas Nuvens eu vi uma dezena, e como tinha muito essa coisa que eu gostava, que eu já tinha visto com que… com o Big Audio Dynamite, que era a banda do Mick Jones, guitarrista do Clash, que usava muito isso, com o Don Letts, com muitos trechos de áudios, ou de filmes etc. e tal. E eu acho que tinha “Rubro Zorro”, a musica que falava do Bandido da Luz Vermelha, que na verdade era uma mistura de todos os bandidos…

Na verdade, “Rubro Zorro” é uma ode contra a pena de morte, usando como ícone o Bandido da Luz Vermelha americano, o Caryl Chessman, de quem li os livros, e o pobre coitado, genérico, brasileiro, que foi o João Acácio, né? Eu tive contato com o Rogerio Sganzerla durante a gravação, porque quando nós decidimos usar os áudios no “Rubro Zorro” e no “Pegue Essa Arma”, apesar de não ter lei específica na época, eu achei que moralmente eu tinha que conversar com ele, mostrar a música e explicar em que contexto eu estava querendo colocar o áudio dele. E ele morava no Rio de Janeiro pra nossa sorte. E eu tive contato com ele, tivemos tardes bebendo chopp em Copacabana, e [ele] é super roqueiro! Pô, o Sganzerla viu o Hendrix nos anos 70 em Londres. O cara que sempre esteve na música e no rock, né, uma base muito grande. O cara compôs com o Caetano Veloso, estava exilado na Inglaterra,viu o Hendrix, enfim. Tanto que nos tornamos amigos, apesar de ter tido um desenlace complicado, que acabou tendo um final feliz recentemente, que acho que ninguém comentou isso, talvez o Terra comente isso em primeira mão.

A ameaça de embargo e o videoclipe engavetado

Nasi: O que aconteceu foi que quando eu fui pedir autorização pro Sganzerla pra usar [os áudios] e mostrei a música, o Rogério veio com uma proposta. Falou assim, “cara, libero esses áudios, vamos propor pra sua gravadora pra fazer um clipe com cenas inéditas de O Bandido da Luz Vermelha, cenas que foram cortadas e editadas, não entraram no filme, eu tenho isso”. E aquilo foi estupendo. Infelizmente não tinha MTV na época, a gente fazia clipes basicamente pra tentar passar no Fantástico, né, ou então no Clip Trip, da TV Gazeta, e a princípio, a gravadora deu esse ok. Então, olha só, eu lembro até hoje, cara, o orçamento desse clipe era 10 mil dólares, ridículo. Cheguei a ir com ele em São Paulo, numa produtora de cinema, vi as cenas inéditas, chegamos e aí quando começou a fazer o clipe, a gravadora chegou e disse, “olha, vamos abortar esse projeto aí porque o Rogério, infelizmente o Rogério tinha um projeto com o João Gilberto que estava dando muitos problemas, não sei se dentro da Warner ou dentro da indústria fonográfica, e eles [a gravadora] usaram isso como desculpa pra falar “meu, isso vai dar muita dor de cabeça, não vamos investir nisso”. E puxa, aí, quando fui contar isso pro Rogério, aí o cara pirou né? E com razão. Dá pra entender… [pausa] claramente não tive apoio da banda pra gente pressionar a gravadora. Ficou uma coisa que tava muito na minha mão e o Rogério me ligou várias vezes de madrugada falando que ia embargar a obra, tudo, pô… enfim.

O final feliz disso é o seguinte: recentemente eu entrevistei a esposa, viúva do Rogério Sganzerla, que é a atriz e diretora Helena Inês, atriz que fez O Bandido da Luz Vermelha, e nessa entrevista pro Canal Brasil que eu fiz, comentei com ela que tinha visto no YouTube um clipe de “Rubro Zorro” com cenas do filme do Sganzerla, mas cenas que eu não tinha visto no filme não, eu, como conhecedor do filme. Ela me confessou, nesse programa que vai ao ar, ainda não foi, que o Rogério fez esse clipe, de “Rubro Zorro”, ele acabou fazendo de “Rubro Zorro”, eu pensei que era “Pegue Essa Arma”, e como a gravadora desistiu de pagar o clipe, ele botou na gaveta. E quando o Rogério Sganzerla morreu, a Helena Inês pegou todo o material dele que estava inédito, coisa que estava na gaveta, e colocou na rede.

‘Farto do rock’n’roll’ e a lenda

Scandurra: Ah, foi importante essa cultura do rap, que o Nasi e o André trouxeram pro disco. Acho que foram uma base importante pros nossos experimentalismos e uma conexão com a musica pop pra não ficar uma coisa totalmente abstrata e lisérgica, mas ter um pouco o chão, a coisa rítmica, e a coisa da rua, da musica negra americana atual, do momento que a gente tava vivendo, um espirito contemporâneo do nosso disco. Que era bacana pra uma banda que vinha sempre com o titulo de uma banda mod, que tinha suas relações, ligações musicais com a Inglaterra, com outro pais e de uma outra década. Tinha uma certa, uma coisa de tempo e espaço do Ira! de um universo que a banda pertencia que não era muito aquele momento, essa coisa do mod, que somos até hoje. Então o Psicoacústica traz uma coisa contemporânea que foi muito importante pro disco, e eu acho que “Farto do Rock ’n’ Roll”, que é o encontro de um riff quase à la Led Zepellin, Deep Purple, à la classic rock do Gaspa, uma letra desabafo, que era essa a intenção mesmo, de fazer um desabafo e uma brincadeira de você estar farto, pleno e farto de estar cheio. De você estar farto do rock, farto de rock, então tem uma brincadeira com isso.

E o Nasi foi muito feliz no scracth, o que aumenta ainda o tom crítico da letra e da música, questionando caminhos do rock, e a entrada do rap, do hip hop, do break, uma cultura nova que tava surgindo pra gente, e a gente absorveu isso de uma maneira muito legal, muito feliz. Não só nessa musica, mas [também] em “Advogado do Diabo” e a própria inserção de falas e áudios, um trabalho meio de dj, que foi importante o Nasi e o André tomarem a frente disso e deixarem marcas importantes no disco

Nasi: Essa [há uma história de que ele teria se recusado a gravar a faixa] é um pouco de lenda, não foi isso. Com certeza eu lembro de ter questionado o Edgard, de ter dito “pô, isso é uma crítica, parece q a gente tá, como é que se diz, cansado do rock, criticando a cena do rock, mas depois acabei entendendo a mensagem da música, que é superirônica. mas é que na verdade sempre teve uma tradição do Edgard em discos [do Ira!]sempre cantar uma música solo, e na verdade eu canto também essa música. O Edgard tem uma presenta mais solo do que eu, mas eu também canto a música. Mas só foi um questionamento, não foi tensão não, e acho que tomou proporções e virou uma lenda, uma lenda do rock.

Scandurra: Não sabia disso não, em “Farto do Rock ’n’ Roll”. Se isso for verdade, eu não sabia. O fato é que tinha, como toda banda de rock onde o guitarrista compõe, tem sempre umas faixas que o guitarrista canta. Eu cantei “Nas Ruas”, no Vivendo e Não Aprendendo, no disco anterior, canto “Envelheço na Cidade” junto com o Nasi, “Eu Quero Sempre Mais” é uma música que eu canto… Existiam outras músicas que eu cantava no Ira!. Isso foi se perdendo com o tempo, porque eu comecei a ficar mais focado na guitarra, e a gente começou também a trabalhar com alguns produtores que tinham um olhar mais comercial, que tinham aquela famosa frase, “e o cantor?”. Então eu tive que trabalhar com isso um pouco, mas eu não sabia disso não. Achava qe essa música, pela região da melodia, pela região da harmonia, combinava mais com a minha voz. Acho que esse é o principal [motivo]. Não sei essa história da letra não com o Nasi, embora tenha até um certo a ver, porque ele tava tão envolvido com o hip hop e o rap que acho que ele cantar que estava farto do rock’n roll talvez não pudesse ficar muito simpático. E eu cantando isso tinha [um apelo] muito mais crítico e irônico. Acho que se o Nasi cantasse, não teria essa ironia que ela tem, que é um charme da música.

A reação da gravadora

Scandurra: A reação da gravadora com o disco foi muito positiva, eles gostaram do disco. Acho que essa esse peso conceitual do disco e nesse momento que tinham muitas bandas que fizeram trabalhos importantes também, que fizeram no rock e na música pop brasileira, esse disco teve um lugar importante assim. Teve esse destaque por manter um conceito ao mesmo tempo tecnológico tinha uma coisa muito orgânica nele, e muito manual. Foi um disco produzido a muitas mãos, e a banda se envolveu muito nele. Era um trabalho que já havia sido feito no Vivendo e Não Aprendendo, mas nesse aí deu continuidade nessa coisa mais intensa, nessa coisa do nosso envolvimento.

Nasi: Olha, a gravadora.. hahaha… ficou com uma cara meio engraçada. Mas que a gente tinha um presidente muito legal. O Ira! teve a sorte de, durante muito tempo, a fase do boa da gente, os primeiros discos do Ira!, os três, quatro, tivemos o Andre Midani, que at;e chegou a ir aos estúdios do Psicoacústica, fumou um baseado com a gente, em nenhum instante foi lá com o peso de um presidente. Foi lá como um cara que queria curtir um som, que era a cara dele, não à toa que ele tem a dimensão dentro da musica pop brasileira que ele tem. Mas depois a gravadora não soube… [pausa] A gente insistiu e acabou vencendo, escolhendo “Pegue essa Arma”, foi uma posição do Ira! que a gravadora era contra “Pegue essa Arma”, e até entendo a gravadora. Hoje principalmente, porque é uma música que não tinha refrão e a única coisa que se repetia era “pegue essa arma” (risos). Era uma música com solos longos, com grande instrumental, um groove. Acho que a gravadora na época queria “Receita pra se Fazer um Herói”, que acabou sendo o segundo single do Ira!, e realmente tocou mais que “Pegue essa Arma” no rádio.

Gaspa: Foi isso mesmo, a gravadora queria mais uma “Flores em Você”, mais um sucesso, e essa foi mais uma vitória nossa: conseguimos colocar a música que queríamos, assim mostrando que o disco trazia uma fase nova do Ira!. Fincamos o pé na música “Pegue essa Arma”.

André Jung: Estranhamento. Depois, uma certa decepção. A expectativa era de que fizéssemos um Vivendo II para suceder os estrondosos sucessos que haviam obtido Ultraje [a Rigor] com Nós Vamos Invadir Sua Praia e Titãs com Cabeça Dinossauro. Mas o Ira! era uma banda arisca e desconfiada, que não topava os esquemas tradicionais do business da época. O disco que nos orgulhava, nos afastava da gravadora.

Nasi: Mas, no geral, aquele disco, pro padrão do rock dos anos 80 e pro padrão que as FMs queriam pra executar música, não tinha muito onde escolher algo que você sentisse que ia bombar na radio, pelo menos pros padrões brasileiros, infelizmente. Acho que é um disco do Ira! bem gringo, vamos dizer assim, entre aspas. Talvez se a gente tivesse lançado no mercado inglês ou americano ele teria tocado mais em rádio, mas no mercado brasileiro, do Dr. Silvana, do Inimigos do Rei (risos), dessas coisas assim, realmente foi um anticlímax pra gravadora.

Outros sons, outras batidas, outras pulsações

Nasi: Difícil dizer o que eu estava ouvindo na época. Sinceramente a gente não foi influenciado por essa nova cena do rock americano , apesar de adorar Nirvana, REM também, muito menos por essa nova cena do rock inglês que estava surgindo na época, o som de Manchester, como você diz. Agora essas outras, nós sempre ouvimos muito. Cure, Siouxie and The Banshees, Echo and The Bunnymen… Mas eu diria, cara, que por incrível que pareça, o Psicoacústica é mais influenciado pelo rock dos anos 70 talvez, e algumas coisas do pós-punk, acho que “Pegue Essa Arma”, “Poder, Sorriso, Fama”, mais a sonoridade em si, né? Acho que ela tem mais a ver com o peso das grandes bandas dos anos 70, coisas como Led Zeppelin, Cream, acho que tem mais um som assim, apesar de achar que é um som bem atemporal o do Psicoacústica. Acho que é um disco que está inserido em todas essa tradições do rock, do punk, do pós-punk, das grandes bandas dos anos 70, elementos dos anos 60 também.

Scandurra: Olha, se a gente for falar na cena toda musical da Europa, dos Estados Unidos, do Brasil nessa época, muitas coisas que surgiram influenciavam. Eu tinha uma queda… sempre ouvi as coisas mais antigas, anos 60, tal. Até hoje tenho um pouco isso. Mas nessa época, nos anos 80 eu ouvia também bastante os nossos contemporâneos; eu gostava muito de bandas da Inglaterra como o Cocteau Twins, Siouxie, The Cure, Pil, os discos do The Clash, fantásticos. A parte mais técnica, mais complicada, mais complexa musical do King Crimson, que atravessou as décadas de 60, 70, e 80 e era espetacular, discos marcantes em todas as suas épocas. Mas que tinha no Brasil uma forca muito grande de vários sotaques, do rock que eram legais, gostosos de ouvir. Mas a cena paulistana ne atraia muito. Bandas que eu tocava, Smack, Mercenárias, pra mim era bandas muito importantes, e tinha uma cena também no sul, com De Falla, puxa vida, tinha as bandas de Brasília, e uma certa competição tecnológica dentro do estúdio pra fazer discos melhores. A mesma época que o Ira! lançou o Psicoacústica, o Titãs lançou disco importante [Go Back], Legião [Urbana] lancou disco impotante [na verdade, As Quatro Estações saiu em 1989], o Paralamas lancou disco muito importante também [Bora-Bora], de fora o U2 era a banda número um nesse momento, e começava a aparecer os primeiros grunges, o pessoal dos Estados Unidos, de Seattle, o skate começou a tomar uma proporção muito grande dentro do rock, que tomou o lugar da moto, da vespa. O skate, o skatista tatuado, foi uma transformação na musica pop, começou a ter uma influência maior, acho quedas ruas de Nova York, de Detroit, dos Estados Unidos, começou a encaminhar, a apontar caminhos pra musica eletrônica também, pra Berlim, pra uma coisa mais gótica, a música gótica nesse momento foi importante, Bauhaus, Echo and The Bunnymen, Jesus and Mary Chain, resquícios de Joy Divsion… Então é uma época que ficou pequeno pro que era feito antes né, pro rock progressivo, bandas como Yes, Jethro Tull, Focus, pareciam de outro Planeta né (risos). É bom porque hoje em dia a gente consegue ver todos essas gerações com respeito e com admiração, né? Nessa época, os sons da época eram muito importantes, vigorosos e a gente não conseguia ver, parar pra ouvir Led Zeppelin, por exemplo.