Inti Raymi

O Arco-Íris é devolvido aos céus da América Latina

Tive a oportunidade de participar do INTI RAYMI em Cuzco no Peru, que é a grande festa de adoração ao Sol no solstício em 21 de Junho. Celebrada por todas as comunidades andinas ao longo da cordilheira, o festival marca o ano novo e a renovação do ciclo agrícola. A cidade viva mais antiga da américa do sul e capital do Tawantinsuyu, o Império Inca, pulsa e revive o maior de seus espetáculos.

Ruínas de Saqsaywaman.
O fogo sagrado é acendido nos quatro círculos que representam as partes
do Tawantinsuyu.

O Sol é recebido na casa dele em Qorikancha, o mais sagrado de todos os templos do antigo império. Um lugar que era literalmente coberto por ouro, nele os Incas mantinham os ídolos principais de todos os povos anexados ao território como garantia e símbolo de sua conquista. Mais tarde, todo o ouro e o grande disco sagrado que representava o próprio Sol, foram derretidos pelos espanhóis. A Igreja mandou construir um monastério sobre o edifício ancestral, que felizmente desabou nos anos 1960 por conta de um terremoto, revelando depois de tanto tempo, essa maravilha ao mundo, que resistiu de pé.

Em Qorikancha, o Sol recebe oferendas de chicha em uma grande cerimônia que segue em cortejo até Saqsaywaman, outro templo incrível, que fica nos altos da cidade de Cuzco. Lá, o povo e representantes dos quatro cantos doTawantinsuyu vem dançar e trazer oferendas. São reúnidos os animais sagrados: a Serpente, o Puma e o Condór, além da múmia, que representa os ancestrais. O Inca é o grande condutor do ritual, ao lado de sacerdotizas e sacerdotes, princesas, rainha e oficiais. Juntos, dançam e fazem mais oferendas ao Sol.


A Chakana, escada do tempo em Quechua, carrega em seu significado a visão cíclica do mundo pelos povos andinos, este símbolo é utilizado na região a pelo menos 5 mil anos. Dentre suas muitas representações, está a vida encarnada na chuva que cai sobre a terra fértil, a ligação entre o mundo dos deuses e a humanidade, o cruzeiro do sul, as polaridades… A Chakana trás em suas quatro pontas a representação das quatro regiões do império, os quatro elementos, as quatro estações, os dois solstícios e dois equinócios assinalados pelo sol e sua viagem pelo céu durante o ano, bem como o impacto disto na vida da Cordilheira dos Andes.

Solstício de Verão, fogo, amarelo. O momento de amadurecimento do milho, corresponde ao verão, os campos se vestem de amarelo e a força do Sol seca o grão. Amarelo representa a energia ativa de Inti, o pai Sol envia conhecimento através de sua luz. Marca também o momento da colheita, é hora de dar mas também e de armazenar.

Equinócio de Outono, terra, vermelho. É tempo de semear o milho nos campos. Está representado pela cor vermelha, que simboliza a energia vital, o feminino e materno, o ventre, a mãe terra que deseja ser semeada. Realizam-se os ritos com a lua e a fertilidade. O milho quer entrar nas entranhas da terra, se plantam as melhores sementes.

Solstício Inverno, água, azul. É um momento de introspecção que nos convida a viajar no interior de nós mesmos e fazer uma avaliação de nossas vidas. Tempo de planificação e renovação, germinam metas e objetivos. Esta época se associa com as plantas que completaram o seu ciclo vital. Segundo os sábios, apenas aquelas que completaram o seu ciclo estarão em condições de dar sementes que germinarão com a água do inverno. Nos campos se semeia a batata.

Primavera, ar, verde. Floresce o milho, indicando que é a hora de colher os grãos ternos, é uma etapa emocional de iluminação, ligada ao coração, ao equilíbrio harmônico e valores espirituais. Está simbolizado pelo verde associado a juventude. É o momento em que se rememora a distribuição da seiva por toda a planta produzindo um reverdecimento. É o momento de nascimento do novo para expansão e regozijo.


A última vez que o verdadeiro Inca presidiu a cerimônia foi em 1535, em 1572 a celebração foi proíbida por seu caráter pagão, mas continou sendo mantida de maneira clandestina. Hoje, é tudo feito por atores e é algo bem turístico, mesmo assim ainda é possível sentir algo da magia dos tempos antigos. A dança em que eles “puxam” o sol, abrindo o seu peito e chamando a energia do astro é muito intensa, os tambores e os cantos trazem a força ancestral junto com as invocações e discursos, todas no idioma original, o Quechua.

Momento do sacrifício
da Lhama Negra.

A foto acima foi sacada no momento em que o Sol, até então escondido atrás das nuvens, imediatamente se abriu em um grande feixe de luz depois da oferenda principal e foi saudado com tambores e gritos de todo o povo ali presente. Sinais da natureza muito sutis, mas que marcam com toda a certeza, a gratidão dos Deuses com as oferendas e homenagens. Quem sabe também humildemente, com as energias que movimentei para me deslocar e estar ali com todo o meu coração e alegria.

Filipe Almeida / textos & fotos / www.facebook.com/estudiodumundo
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