O Design precisa voltar a ser “de humanas”

Em paralelo ao ensino médio, fiz um curso técnico de Eletrônica. “Adoro tecnologia e sou bom em Física”, eu pensei, “parece uma boa ideia”. Até exerci a profissão por um tempo, mas logo pulei fora. Não era o que eu queria.
Decidi então começar uma graduação em História. “Ora, eu adoro ler e sempre me interessei pelas civilizações antigas, não tem porquê dar errado”. Depois de mais de meio curso concluído, tranquei a faculdade. Também não era aquilo o que eu procurava.
Foi então que conheci o mundo mágico do Design. Essa área onde as ciências humanas se encontram com as exatas. Onde Sociologia e Matemática têm o mesmo peso e as pessoas discutem o mercado dos bens simbólicos e o teorema de Pitágoras com a mesma empolgação.
Ledo engano.

Ué?

No início do curso ainda mantive essa esperança. Durante as matérias de História da Arte e do Design, conseguia perceber, maravilhado, que cultura, sociedade, política e economia moldaram e moldam a nossa atuação. Percebia que o trabalho das Arts and Crafts ou da Bauhaus ia além do desenho de novos tipos de cadeiras. Todos esses fundadores do campo construíam suas peças a partir de uma visão de mundo concreta, de um desejo de alcançar, por meio do Design, objetivos que lhes eram essenciais para a vida na sociedade.
Durante a faculdade essa ilusão se esvaiu. A cada semestre, percebia que a área está mais interessada em descobrir qual é a melhor técnica para desenhar uma estampa, a nova tecnologia essencial para construir um site ou o método de impressão ideal para cada tipo de publicação.
Todos esses conhecimentos, obviamente, são essenciais para o Design. Afinal, o designer é um profissional técnico, que utiliza das tecnologias e dos métodos disponíveis para entregar valor. Por isso, todo designer precisa, sim, ter uma noção sólida de cada um dos aspectos técnicos que envolvem a área onde atua (e é por isso que precisamos estudar o básico da programação, amiguinhos).
Essa, todavia, não pode ser a característica definidora de um designer. O ser humano precisa estar no centro das discussões do mercado de Design, e não apenas para estudar a experiência dos usuários. O Design precisa parar de ver sua atuação apenas como ferramenta de produtividade ou otimização de resultados e passar a perceber a influência simbólica que exerce na sociedade.

Prefere clicar no botão vermelho ou no azul, senhor?

Afinal de contas, estamos inseridos em praticamente todas as atividades das pessoas. Como seu professor falou lá na primeira fase da faculdade, o Design está nas embalagens, nas roupas, na publicidade, nos sites, nos móveis, nos carros, nos sistemas computacionais… Cada item dessa lista gigante faz com que nós nos comuniquemos intensamente com milhões de pessoas. Sendo assim, não podemos ignorar o fato de que reforçamos ideias e (pré)conceitos que estão na base da nossa sociedade, assim como ajudamos a lançar novas discussões.
Estamos passando por um período sem igual na História. Finalmente, desigualdades estão se escancarando e minorias estão ganhando voz para enfiar o dedo nas feridas abertas da nossa sociedade. Nesse contexto, cada vez mais ações de Design, Marketing, Publicidade e comunicação em geral são atacadas por reforçarem preconceitos que até pouco tempo atrás ficavam escondidos pelo conservadorismo dominante.

Que vacilo, cara =/

Como nunca antes na história desse país, nossa atividade está aberta para receber críticas mais profundas do que “achei feio” ou “e se fosse roxo?”. Precisamos nos preparar para isso. Precisamos descer do pedestal de arrogância em que nos empoleiramos e enfrentar a sociedade com mais do que “esse povo reclama de tudo”. Já somos muito de exatas, mas precisamos voltar a ser de humanas.
Afinal, nós sabemos que as formas, cores, tipos e movimento que projetamos falam. Será que estamos de acordo com o que estamos dizendo?

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