essa desgraça

eu só quero virar a mesa
fico numa de kendrick lamar com raul seixas
uma brisa lisérgica sem química nem planta

eu só queria virar a mesa, apontar o dedo
porra, filho da puta, era pra ser eu
eu nasci pra isso, acreditei nisso
você tá no meu lugar só fazendo pose

e pra não virar a mesa, eu tô aqui alisando tudo que tá perto
olhando pra janela, pro céu cinzento
mais um natal chegando, e nenhum presente é o certo

a vida toda que eu estive na boa,
ri pros desgraçados
cumprimentei os arrombados
perdoei os não arrependidos
cuidei dos não percebidos

mas hoje eu só quero cuspir tudo
fogo, fúria, agonia, verdade
na pressão, fica essa pilha de espera
como aquele bafo da rádio mal sintonizada

eu tô armado, eu tô pronto pra qualquer guerra
tô pronto pra tudo que não pude me defender
na ponta da língua, já é faísca
eu sei que você não quer conversar
eu sei que você sabe o que me fez sufocar
cê sabe o que tem aqui, por isso não quer ouvir

sempre achei que tava sempre certo
estive, por um tempo
achei que nunca ia cair,
que se eu caísse alguém ia segurar

hoje, no chão, ainda aparece um pra chutar

louco, surtado, doente
com autoridade na garganta
você desqualifica, porque morre de medo

pode meter a camisa de força,
internar, dopar, isolar, boicotar,
fingir, mentir, omitir,
me faz deixar de existir

mas você não vai dormir
porque você sabe que ela é uma só
seu travesseiro sabe, seu sono sabe

encomenda um silêncio,

espero que tenha tudo sobre controle

porque quando eu falar,
vou incendiar, vandalizar, vou virar a mesa,

e quero ver você segurar.

Comecei essas linhas aleatoriamente no bloco de notas, numa tarde de Quinta-Feira sozinho em casa, quase natal.