Projeto Dinamarca — Diário de bordo dia 12

Sobre encontros não planejados e vikings abastados

About last night.

Olá! Como prometido na outra versão, um brinde em sua homenagem foi feito ontem no restaurante mexicano que encontrei na pacata Odense na hora do jantar.

> Leia sobre o dia 11 aqui!

Tive uma ela e longa noite de sono após resolver meus problemas de hotel, jantar e chegar de volta ao pequeno e confortável quarto do Windsor Odense. A comida mexicana e a cerveja local foram bem soníferos e me fizeram apagar de 21h às 07h, praticamente, apenas com um pequeno intervalo para colocar a conversa em dia com meu amorzinho no Brasil.

Logo pela manhã abri as pesadas cortinas de veludo vermelhas e me deparei com um pátio escolar encharcado pela chuva de primavera — 8 graus — e um céu com uma cara não muito amigável. Sacudi minhas horas de sono embaixo da água quente do chuveiro e desci para me deparar com um belo prato de pão branco com manteiga, bacon e salsichas (já estou mal acostumado com bacon de manhã). O chá do dia foi de frutas do bosque, que cheira algo bem parecido com groselha, mas é bom.

Light

Consegui cumprir com meu objetivo de arrumar as malas e deixar o hotel praticamente uma hora antes do programado para se estar dentro do trem. Puxei minha mala em estilo off road pelo caminho terroso e molhado que escolhi no meio da praça da universidade — repito que é muito importante selecionar bem sua mala para essas viagens por terrenos desconhecidos — e consegui pegar um trem anterior aos de 9h10. Ele supostamente era de 8h30, mas estava atrasado e passou pela estação de Odense quase 9h da manhã.

Estação de Odense em um dia de semana normal

A viagem foi uma delícia e tomou o sentido oeste. Eu não havia ido para esse lado antes e me deparei com diversas novas paisagens que variaram entre mar, pequenas cidades interioranas, pântanos, moinhos de energia eólica e ovelhas branquinhas.

Dessa vez fui orientado a deixar a enorme mala de um mês no hall de entrada, ao invés de colocá-la sobre o assento, mas parece que isso varia de fiscal para fiscal — e provavelmente de humor. O caminho foi longo, com diversas paradas e pequenas cidades pelo caminho. Passei pela costa em diversas ocasiões e o mar não estava para conversa, tal como o céu. Pude viajar a maior parte do trajeto para a frente, apesar de o trem ter tomado o sentido oposto em certa estação mais para o final da viagem.

Cheguei alguns minutos mais tarde que o planejado em Hobro — Hodor! — e Kim Callesen, o ultra simpático diretor da área de arte-educação do museu Vesthimmerland me recebeu. Um figura bastante agradável, Kim passou duas semanas no Rio de Janeiro num programa similar ao meu no ano passado. Tomamos a estrada para o museu e em menos de 30 minutos entramos pela porta dos fundos, onde chegavam grandes caixas de madeiras para a próxima exposição a ser inaugurada.

Direto para a sala da administração, pudemos almoçar deliciosos sanduíches que Kim providenciou no intervalo da manhã de sua aula com crianças da escola local. Comi um feito com rosbife, pepinos, picles e um molho adocicado — “vocês sabem a semelhança entre o pepino, a mexerica e a mortadela?” — que eu lembraria durante todo o passeio da tarde, mas estava muito bom e foi bastante atencioso da parte dele, como em todos os outros passeios que programou.

Ele me apresentou o programa rapidamente — o que é bem impressionante se tratando de um professor — por meio de slides em retroprojetor e demos início a uma visita muito instrutiva pelo museu em forma de martelo viking (planejado para simbolizar o ato de defender com armas em punho a cultura local). O museu é muito bem arquitetado com bastante iluminação externa e o seu foco principal é a história local desde a Idade da Pedra até o presente século. As fotos falarão melhor do que eu:

Vesthimmerlands Museum

O programa educacional do Vesthimmerland é totalmente gratuito para que todas as pessoas, independente de seu nível financeiro, possam ter acesso à história e cultura local. As aulas ou workshops realizadas com alunos de escolhas de toda a região possuem foco prático por meio de faça você mesmo e role plays (como teatros de uma sala de aula do século XIX).

Kim é um entusiasta da educação e, muito feliz com sua profissão, finalizou seu tour com uma entrevista dada a mim explicando resumidamente o que havia me mostrado antes e durante a visita. Me deu um cartaz impresso em comemoração aos 125 do achado da mais importante peça viking já encontrada e um broche de lembrança que simboliza um dos lobos responsáveis, segundo a crença tradicional viking, por levar os guerreiros ao paraíso.

Broche viking
Kim Callesen

Como programado pelo meu anfitrião, demos uma volta rápida de carro pela encantadora cidadela de Aars e partimos para Aalborg, uma cidade milenar onde os vikings criaram um mercado de construção de navios e que hoje abriga uma grande universidade e e indústrias produtoras de concreto e hélices para captadores de energia eólica.

O primeiro prédio visto na cidade foi a moderna ópera criada pelo arquiteto Jørn Utzon — famosos pelo projeto da Opera House de Sidney — cujo museu em sua homenagem construído aqui em Aalborg foi seu último projeto em vida, desenhado com seu filho. E foi exatamente nesse museu que o diretor Lasse Andersson nos apresentou detalhadamente dedicando um grande tempo de sua rotina apertada a nos esclarecer tudo sobre a construção do local, os planos futuros e as exposições que eles abrigam uma vez ao ano.

Jørn Utzon — museu em homenagem ao arquiteto

Em seguida estivemos para uma visita rápida, uma bela vista panorâmica da cidade e um café acompanhado de um bolinho na Nordkraft, uma antiga industria que, como praticamente toda a região, foi convertida para uso comercial e turístico. A vizinhança também é lar da maioria dos estudantes da universidade local.

Café com bolinho em Nordkraft
Nordkraft

Demos um pulo no supermercado no caminho para a casa de conto de fadas em que Kim mora com a namorada Susan e compramos algumas cervejas locais para complementar o inexplicável frango com batatas, cenouras e cebolas assados pela supracitada. A casa é uma delicada construção de dois pavimentos com um jardim externo repleto de arbustos frutíferos e ervas aromáticas. Os três poodles residentes ficaram extremamente excitados com a visita e me fizeram companhia a maior parte da noite enquanto comíamos, riamos e bebíamos um delicioso rum licoroso com bom bons de coco feitos em casa.

Cada um em sua cama e eu levemente afetado pelas fortes Ales dinamarquesas enquanto escrevo esse diário, nos preparamos para um dia longo que começará cedo amanhã. Deixo vocês com mais fotos e me despeço =D

Dicas e curiosidades do dia:

  • Nunca desperdice a oportunidade de sair com pessoas que moram no local visitado e se oferecem para mostrar um pouco da região para você. Esse pode se transformar no dia mais interessante de sua viagem e mostrar lados da cidade ou país que nunca seriam encontrados se estivesse por conta própria.
  • Não sei quanto à preferencia de vocês, mas sempre que possível se hospedem com um morador ou família habituados a onde vocês visitarão. é muito confortável e acolhedora a sensação de uma casa de verdade ao invés de um hotel.
  • Provem todas as comidas (e se gostarem, as bebidas) do local visitado. Pode ser uma grande surpresa e deixa-lo encantado. O máximo que pode acontecer é não querer prova-lo novamente.
  • Cachorros são sempre uma boa companhia em locais frios…hahaha. Aquecedores de pé portáteis.
Gracinhas ciumentos.

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