O Facebook e a escravidão cultural

Que a polêmica atrai os holofotes, a gente sabe - e não é de hoje. Observemos, por exemplo, a Rede Globo com suas novelas e BBB’s, e a RedeTV com suas programações no padrão João Kléber. Entretanto, o que tem acontecido atualmente não poderia ser imaginado nem pelos melhores diretores da TV aberta brasileira. As polêmicas facebookianas implantaram no país uma escravidão cultural, em que as pessoas se dedicam horas a fio a responder a publicações das mais variadas, deixando de lado o precioso tempo que muitas, dessas mesmas pessoas, dizem não ter.

Parece que é obrigação ter opinião sobre todo e qualquer assunto, de biologia a teologia, de política a física quântica.

Se o assunto é “casamento gay nos Estados Unidos”, elabora-se um avatar e as timelines são coloridas. Se o assunto é “atentado na França”, faz-se o mesmo, porém, tentando enfatizar uma suposta oração pela França. Se não se concorda com a saída da presidente, mais um avatar: “não vai ter golpe”. Se a empregada doméstica estava trabalhando e ganhando seu sustento mesmo em meio a manifestações, era hora de aproveitar a ocasião para criar mais polêmica. E polêmica após polêmica, foi-se criando um ambiente beligerante no Facebook.

É bem verdade que a cor do vestido não era uma discussão agressiva, mas o fato da catástrofe ambiental, ocorrida no distrito de Bento Rodrigues, ter acontecido na mesma época dos atentados na França gerou uma discussão ridícula sobre qual tragédia era pior, se o correto seria colorir a foto de perfil com as cores da França ou com as cores da lama.

Suspeito ter sido Umberto Eco quem disse que os idiotas sempre existiram, mas que o Facebook deu voz a eles. E o Brasil tem sido a prova viva disso.

Ao invés de se ler os clássicos, de se sentar com velhos amigos para um bom bate papo, de se jantar à mesa com a família, muitas pessoas têm se trancado em suas redes sociais, sobretudo o Facebook, a fim de “contribuir” para o crescimento do país através de suas importantes opiniões. Afinal, pra que ler Morte e Vida Severina, se podemos falar sobre “bela, recatada e do lar”? Ou, pra que tentar entender a tão importante doutrina do pecado original, se podemos simplesmente falar das fofocas facebookianas da última hora (das quais não lembraremos em uma semana)? Pra que ler bons livros sobre segurança pública, se podemos demonstrar nosso entendimento da situação com um simples “#MeuAmigoSecreto”, ou com estratégias ideológicas perversas, como condicionar as desgraças a uma suposta (pra não dizer ridícula) “cultura do estupro”?

Enfim, sabemos bem de uma triste e cruel escravidão trabalhista ocorrida nos séculos passados, e necessitamos, no atual momento, de nos atentarmos também para a escravidão cultural. Aquela que, por meio de redes sociais, conduz-nos a uma fajuta obrigação de opinar a respeito de tudo, iludindo-nos com uma suposta relevância de nossas opiniões para as pessoas que nos cercam, etc.

Não! Não estou dizendo que as redes sociais não são importantes para a propagação de ideias, e nem afirmando que não haja uma guerra cultural por meio de tais ferramentas. Pois, certamente são, e certamente há. Contudo, as questões aqui são: qual o real valor da minha opinião? Até que ponto o envolvimento superficial, por meio de redes sociais, em tais debates acrescenta algo a minha vida? E principalmente, quanto tempo que tenho gastado com questões superficiais que serão esquecidas ou modificadas em menos de duas semanas?

A verdade é que o Facebook tem se tornado um sistema escravocrata, em que a ilusão da “opinião relevante” é o capitão do mato, buscando aqueles que tentam fugir. Nesse sistema, a lei áurea — que devolve um pouco da paz e da esperança — está na mente, e só pode ser assinada por uma rainha: a coragem.

One clap, two clap, three clap, forty?

By clapping more or less, you can signal to us which stories really stand out.