Para onde ir se aqui estou?

Direita. Depois, esquerda. Direita e esquerda, assim eu ando e andando vejo coisas à direita e à esquerda de mim. E também à frente. Eventualmente, atrás. Com a mão direita escrevo, mas não enquanto ando. Enquanto ando, penso e vejo. Falo de quando em quando. Mas me falta o cheiro, me falta o tato, no entanto. Num quase toque, ando à esquerda das pessoas. Ao meu lado agora está alguém parecido comigo. “O mesmo corte de cabelo e o mesmo cavanhaque”, disseram-me duas horas antes. Se não sou eu, há de ser ele. Ele à direita. Andamos nesse mesmo chão cinza, cinza de pedra e de asfalto.

Meu pé direito vai primeiro. Talvez seja sintomático. A esquerda me falta há tempos: minha miopia é mais aguda no olho esquerdo; e é no ouvido esquerdo que escuto menos. Talvez por compensação, vá saber, vejo golpe onde alguns veem impeachment. Sou cego e surdo? Nesses dias de típica melancolia de inverno, todo gesto é político. Preciso me culpar por me apoiar com o pé direito? Na rua, a fumaça vai da direita para a esquerda. Parece neblina, mas tem cheiro, um quê de gordura. Demoro a reconhecer de onde ela vem. Busco e vejo: vem do alto da lanchonete a minha direita. Ando. No caminho, alguém me entrega um santinho para prefeito. Pego com a mão direita, rasgo com as duas mãos e jogo fora no lixo laranja à esquerda, destino ideal para o candidato da direita.

Numa loja já fechada, dois gatinhos dormem na vitrine e vejo a cena envidraçada: a minha direita é a esquerda para eles. São golpistas ou não? Há aí uma questão de reflexo ou de reflexão. Antes da primavera, todo gesto é político. Direita ou esquerda, ser ou não ser? O mundo parece exigir direções, não necessariamente sentido. Ando, dobro esquina, pulo buraco, desvio dos bueiros, miro os cachorros nas coleiras. Ando de bermuda e blusa preta de manga comprida. Não uso coleira. A senhora na minha frente segura o colar com a mão esquerda. Ando rápido, outro costume, com meus pés dentro dos sapatos vermelhos: um par. Vermelho é cor, mas também significado: esquerda ou direita? Por quê?

Na calçada à esquerda me encaminho para comer com quem caminha ao meu lado. Compro duas esfirras de queijo e tento decifrar seu gosto e cheiro e não vou além do gosto e do cheiro de queijo. Se não sei sua história, talvez não possa inventá-la. Mastigo mais do lado esquerdo. Esfirra não é coxinha nem caviar. Esfirra é direita ou esquerda? Como à esquerda de quem come ao meu lado, fiel a minha mania. Esquerda e direita têm gosto, cheiro, textura, sons e imagens próprias? Direita e esquerda têm sentido? Por quê? Um bebê cabeludo dorme no carrinho, com a cabeça levemente tombada para a esquerda. Um mendigo estica a mão direita para pedir dinheiro. Um homem limpa a rua da esquerda para a direita. Uma mulher cochicha algo no ouvido direito da amiga.

No ônibus, sento no lado esquerdo, com a janela aberta, sem ninguém ao meu lado. Me parece o melhor lugar para seguir reto.