Gearhead Brasileiro — Chevrolet Blazer 2002

Bem, acho que não tem mais muito como tratar a Blazer como “apenas” um carro. Ela se tornou da família. De verdade, são mais de 15 anos e quase 160.000km com ela; único dono!

Comecei a encher o saco dos meus pais para termos uma dessas porque, na época, os pais de um amigo meu do pré tinham uma Blazer. A deles era branca, da primeira geração; pra tu ver, com 4 anos eu já era apaixonado nela.

Claro que meus pais sempre falaram que “eu escolhi/compraram por minha causa” ou que “era meu carro”, mas na real que, era o veículo perfeito pra Goiás no sítio do meu avô com todas (eu disse TODAS) as tralhas possíveis: isso incluía um fucking colchão junto das malas, caixas e bicicletas.

Falando em espaço interno, gostaria de ressaltar que quanto eu passei na Universidade, fiz minha mudança com a Blazer. E pra ter uma noção do volume útil, imagine que meu sofá e meu guarda-roupas vieram dentro dela, montados. Parando na altura dos bancos, onde contam as dimensões oficiais, são 410 litros; o que certamente duplica quando contamos até o teto, e quadruplica (chutando baixo) se baixarem os bancos de trás.

Mais alguns números técnicos sobre a Blazer: 4.71 metros de comprimento, 2.044m de largura, 1.722m de altura (mais que a média de homens brasileiros), e um tanque com 72 litros. Tudo isso somam 1740kg empurrados por um motor 4 cilindros 2.4 litros com 128cv de potência e 22kgfm de torque.

Um fato curioso é que a versão 2.4 da Blazer é a que tem o melhor 0–100 dentre todas as que vieram para o Brasil: a 2.2 era fraca, a V6 tinha câmbio automático de 4 marchas e a Diesel, bem, era Diesel. Não que o câmbio manual de 5 marchas e esse motor sejam uma fórmula devoradora de Nurburgrings, enfim. Mas agora voltemos pra história do carro.

Como eu disse, ela é da família. Gosto de explicar dizendo que desde que a Kika (RIP) faleceu, eu não tenho animais de estimação, eu tenho uma Blazer. Seilá, é uma conexão muito forte que tenho com esse carro; foi nela que eu aprendi a dirigir! Meu pai me treinava prova-de-morro com ela, por exemplo, que não tem freio de mão, mas tem uma embreagem pesada que só vendo.

Quando eu falo que é muito difícil pesar na minha vida sem a Blazer, claro que tem um quê de romantismo, mas também é algo bem literal. Eu nem tinha 5 anos quando a compramos. Era um mundo tão distante que pra termos uma ideia, FHC ainda era presidente, o iPod tinha acabado de ser lançado, o Brasil não era penta e o Euro ainda não tinha entrado em circulação.

Mas acho que a maior representação de como eram outros tempos está aqui na nota fiscal original da compra: meus pais pagaram R$42.500,00 por essa beleza. QUARENTA E DOIS MIL REAIS. Hoje em dia isso é preço de Up! Mas ok, ok, em nome da honestidade eu fui deflacionei esses valores de acordo com o IGP-M FGV: em números de 2001, seria o equivalente a 126 mil Reais.

Ela me levou pra correr de kart inúmeras vezes, me levou pra assistir o Paul McCartney (inclusive foi nessa viagem que ela fez 100.000km), me levou para o aeroporto na minha primeira viagem internacional qnd fui pra Onu em NY. E também me levou pra todos os outros lugares talvez não tão marcantes; ela era o carro que eu gostava de usar no dia-a-dia e queria mais ainda usar nas ocasiões especiais. Tanto que ela foi meu primeiro carro quando tirei carta.

E foi uma puta escola. Não bastando ter aprendido a dirigir nela quando eu era moleque — crianças não façam isso em casa, os anos 2000 eram uma terra sem lei — foi com ela que eu peguei o jeito de fazer baliza, noção de espaço do carro e tudo mais. Pode parecer clichê (e provavelmente é mesmo), mas dá uma sensação de liberdade tão grande…

Bom, isso quando ela não te deixa na mão. Juro que em 16 anos ela só quebrou uma vez, e talvez tenha ficado sem bateria mais umas duas ou quatro vezes. Mas o mais complicado de dirigir uma Blazer é ser parado pela Polícia Rodoviária. É sério, acho que esse carro acende o alerta de muamba dos policiais, não é possível. Porém admito que desde quando coloquei pneus esportivos nela, nunca mais fomos parados.

Com isso, vale a menção honrosa pra Blazer como viatura de puliça. [Benny Hill starts playing]