
Foice o Tempo
Ou como a vida passa rápido e ainda não ouvimos todas as músicas que já foram escritas
Não dá para ver tudo. Já tentei. Quer dizer, estou tentando. "Como assim, ver tudo?" Tudo, ué. Tudo. Todos os filmes, todas as séries, ler todos os livros, falar de todos os assuntos, saber todas as teorias, tentar todas as experiências, visitar todos os lugares ao mesmo tempo. E depois fazer tudo de novo, porque, como bem lembra Rafik, "toda história bem contada é contada duas vezes". Você sabe do que eu to falando, eu sei que sabe. O tempo inteiro essa pequenina angústia da sensação de não ter tempo, que por algum motivo não existe justo porque você passa a maior parte dele lamentando-se pela falta do mesmo. Eu, por exemplo, gosto de refletir sobre a minha falta de tempo olhando para o teto por horas a fio. É revelador porque eu coloco as mãos na cabeça e sempre chego à mesma conclusão: não dá para fazer uma coisa banal como dormir quando metade do elenco já morreu e você ainda tá na primeira temporada. E ainda nem conheceu o Havaí. Outra conclusão comum é: Simplesmente não vai dar tempo! Uma vida não é suficiente para ouvir todas as músicas já compostas, aprender todos os idiomas já falados (vivos e mortos), pesquisar sobre as teorias da conspiração, deuses astronautas, reptilianos, os Iluminati, a vida, o universo e tudo mais. Tudo. E as tábuas sumérias. E a Antártida.
Frustrante, para dizer o mínimo.
Diante dessa constatação, é importante começar a aceitar que talvez você acabe sem conhecer o parque do Harry Potter. Vixi. Sem saber o final de Game of Thrones. E aí? Vamos nos desesperar por isso? Não mesmo. Sabe-se que a coisa é persistente e fica martelando sem parar na mente pra você terminar aquele filme cult (que apesar de chato pra cacete, você tem que assistir porque, afinal, é um clássico, né?). Mas a proposta é se libertar um pouco dessa cobrança nonsense. Desse frisson maluco.
Aceita que dói menos, diz um ditado da nova geração. Aceita que não vai rolar toda a informação que você quer consumir, se não tu enlouquece. Mais. E muito. Essa ansiedade tem que parar. Essa avidez por informações infinitas, as notícias do Facebook, os vídeos de gatinhos. Tenhamos limites com nossa capacidade de armazenar dados. Vamos perder nossa sanidade para o Mark Zuckerberg e esses memes malditos. (Quando foi a última vez que você passou três horas rolando o dedo para baixo vendo fotos e notícias? E dando amor aos seus amiguinhos?)
Não que eu seja paranoico ou coisa que o valha, mas juro que existe uma pressão social implícita para a gente se sentir na obrigação de saber tudo que está acontecendo, e se você não sabe, seu desinformado, procura no google. Sentimos uma vontade de viajar para os lugares da moda, ou fazer um mochilão pelo Tibet, mas cadê as férias? Sente a pressão pairando nas nossas cabeças? É a nuvem.
Agora tá tudo na nuvem.

Será que todo mundo passa por isso? Deveríamos conversar mais sobre essas coisas. Essas pequenas angústias de sentir que o relógio corre e você já não sabe quantos heróis saíram dos quadrinhos para estrelar grandes produções da sétima arte, desde o Homem-Formiga. (Entretanto você queria ver todos porque os filmes da Marvel se conectam, olha que genial)
É um mundo de muitas expectativas, este nosso; por mais que você deseje estar em casa vendo Netflix ou viajando para algum retiro espiritual xamânico, precisa trabalhar para comprar o pão de cada dia, que o diabo em pessoa amassou. Nossa rotina, em vez de lindas trilhas sonoras e adoráveis curtições, é ocupada por longos períodos de tarefas menos importantes, como nosso emprego ou a faculdade. Que perda de tempo, sério.
Depois de um longo sofrer, diariamente me esforço para não pensar nisso, nas músicas que não vou ouvir, nos livros que não vou ler, nos filmes que não assistirei, nas viagens que ficarão no sonho. É a sensata resignação ao meu ser, enquanto humano ridículo limitado que só usa dez porcento da minha cabeça animal. Fazer o quê? Não dá tempo de pensar em tudo, infelizmente. Executar todos os planos e gritar de raiva quando eles não saem do jeito certo parece pouco promissor. Pensar em todas as possibilidades e querer viver todas as experiências é uma missão inglória porque, quando não dá certo, é a gente que sofre.
Ainda não consegui sair da jornada intracerebral que me faz desejar consumir todas as experiências humanas de uma única vez, exatamente por acreditar que se não for em breve, pode não haver tempo. Já me conformei que tudo não será possível, porque faz bem manter os pés na realidade (pelo menos um) e talvez devamos todos aceitar logo que nossa brevidade nos define. E a internet diz que quem se define se limita, logo nossa brevidade nos limita e, por mais triste que o seja, precisamos lidar com isso e levar numa boa.
Então fiquem tranquilas. Não vai dar para fazer tudo mesmo então a gente faz o que puder, no nosso ritmo, sem sofrer por antecipação. Como disse o sábio:
Que não se tenha pressa, mas que não se perca tempo.