Não dá pra ser feliz só nas férias

Ou por que esperar até a aposentadoria para curtir a vida?

algum tempo eu escrevi um texto que falava sobre estar perdido. Perdido na existência, naquele sentido bem genérico de não saber o que nos reserva o futuro e ficar apreensivo diante das inúmeras possibilidades e impossibilidades que a gente encara a medida que vai crescendo e aprendendo, cicatriz a cicatriz, como o mundo funciona da porta de casa pra fora. Um texto sobre encarar seu passado, presente e futuro e experimentar aquele sentimento amargo de que nada daquilo que você fez, faz e pode vir a fazer parece significativo ou minimamente relevante para o resto do mundo. Sobre encarar seus progenitores, suas professoras, seus tios do pavê e tias dos namoradinhos nas festas de Natal e todo mundo mais que depositou alguma quantia de expectativa em você, inclusive você mesmo. Bem, passou o tempo e cá estou tão perdido quanto outrora, refletindo e adiando, morrendo de medo de responder à pergunta fatal que cedo ou tarde volta a assombrar: O que é que eu tô fazendo da minha vida?

A resposta, amiga leitora, é mais fácil agora do que nunca antes fora. Depois de muito pensar sobre a minha, a sua e a vida de todas que pude imaginar, percebi que quanto mais caminhamos mais chegamos a lugar nenhum. Senti que não estamos fazendo nada demais com nossas vidas. Nada que signifique muito para o mundo, porém esse nem é o problema maior; estamos num processo constante de não fazer nada que signifique muito para NÓS MESMAS e isso é péssimo porque a sociedade enfrenta um bocado de problemas relacionados a vidas repletas de frustrações e expectativas não correspondidas. Depressão, ansiedade, estresse, insegurança, medo e insônia são só alguns exemplos das consequências desse frenesi urbanoide metropolinsano ao qual estamos submetidas. Sem mencionar um tanto de doenças psicossomáticas que decorrem de todos esses males ditos “da modernidade”.

Se você deu a sorte de nascer na classe média, o caminho das pedras envolve: estudar desde os 3 anos de idade no pré-maternalzinho, fazer inglês, francês, alemão, mandarim, judô, balé, aula particular, aprender violino e passar de ano com nota boa porque qualquer nota acima da média não serve (então pra quê a média, né?), estudar 32 horas por dia para passar no vestibular — mas não me venha com Música ou Artes porque só serve se for Medicina ou Direito — e, depois de tudo isso, fazer das tripas coração para ter um empregão de dez mil reais, casa própria, carro e plano de saúde — mas só se tiver plano dentário incluso porque sem dentista não serve. Se nasceu pobre, vai ter que conquistar os mesmos objetivos mas sem os privilégios supracitados. Claro, tudo isso antes dos vinte e cinco. Boa sorte.

Resultado disso são corações aflitos e mentes confusas, vagando por aí meio sem rumo, meio sem saber de onde vieram e para onde irão. Meio perdidos mesmo. Digo meio porque não acredito que essas pessoas — do alto de minha curtíssima experiência pessoal — estejam realmente perdidas em relação ao que querem. Acredito mesmo que todo mundo saiba o que quer de verdade, só que a grande parada está no fato de que o que queremos muitas vezes não se encaixa naquilo que alguém quis para nós, quem quer seja este alguém. Penso, e tenho razões para crer que não penso sozinho, que estamos diante de um fenômeno geracional que nega, senão tudo, boa parte daquilo que as gerações anteriores acreditam ser “o melhor para nós”. Uma geração que já não vê no sucesso financeiro e material a única forma de sucesso. Vejam bem que não digo que ter dinheiro e bens não sejam sucesso, é notável que diante da lógica sistêmica em que estamos inseridos isso é tradução do êxito, entretanto é preciso reconhecer que algumas pessoas já superaram este como único caminho possível. Superaram a ideia pequeno burguesa de que pra ser feliz e bem sucedida é preciso muita grana no banco e vários carros na garagem. Talvez eu não precise de uma conta no banco e nem de uma garagem, ora.

Precisamos conversar sobre uma geração que vê riquezas não no dinheiro mas sim nas experiências que a vida proporciona. Nas nossas vivências e nos momentos que nos fazem ser quem a gente é por completo, independente de quanto se tem na conta. Precisamos conversar sobre pessoas que não estão aqui para acumular e sim para dividir. Pessoas que não estão dispostas a passar por cima de tudo e de todos para conquistar objetivos vazios e sem sentido. Gente que está esgotada dessa corrida sem fim da qual somos obrigadas a participar, mesmo que para nós não signifique muita coisa no final do dia. Gente que não está a fim de passar a vida inteira sacrificando sua energia vital para a manutenção de uma ideologia que só te permite aproveitar depois dos setenta, isto se você chegar até lá. E até lá o que te resta é trabalhar quarenta horas semanais por uns trinta e cinco anos incessantemente com a promessa de uma aposentadoria mais-ou-menos e uma velhice meio confortável. Mas que belo futuro nos aguarda, não?

Como não podia deixar de ser, precisamos falar também do choque (e muitas vezes indignação) que existe entre as gerações mais antigas e as atuais quando os segundos demonstram que não estão a fim de viver do mesmo modo como viveram os primeiros. A cobrança e a pressão que mães, pais e avós exerce sobre nossas cabeças na esperança de, quem sabe um dia, acordarmos para a realidade e perceber que do jeito que a gente quer viver não dá pra ser, pelo menos não dentro daquilo que nos foi ensinado a vida toda. Os mais antigos não aceitam que com a passagem do tempo e as mudanças no mundo, mudaram com ele as pessoas e suas perspectivas. A sociedade lida com os excêntricos desde sempre, mas neste momento crucial da História é preciso levar em consideração que esta excentricidade não é mais exclusividade de uma minoria sem importância, mas sim de uma parcela significativa de indivíduos que buscam qualidade de vida antes do sucesso material.

Fazer ensino fundamental, médio, faculdade, doutorado, pós-doutadorado, mestrado, MBA, passar no concurso, trabalhar 335 dias num ano, descansar nos 30 que restaram, voltar a trabalhar e se tudo der certo, morrer num enterro chique: Há pessoas que não querem que esse seja o resumo de sua passagem pela Terra. Eu pelo menos não quero e conheço muita gente que também não. Proponho uma reflexão honesta sobre essa gente que não quer uma vida padrão à moda antiga, que não quer uma casa com cerca branca ou um automóvel do ano. Vamos ouvir essas pessoas que querem viajar pelo mundo, cuidar de animais e do meio ambiente, cuidar de pessoas em necessidade, fazer artesanato, vender comida saudável, pintar escolas, tocar música no ônibus, expor roupas na praia entre várias outras coisas que ainda não foram inventadas, trabalhos e ofícios que ainda não existem e que não vêm com muito dinheiro mas, acima de tudo, vêm com a sensação de uma vida plena e feliz.

É essa a nossa bússola, nosso mapa, nosso GPS pessoal, aquilo que vai nos fazer sorrir diariamente e ter a certeza de que nossa existência não se limita a um número na chamada ou a um cartão de ponto.

Ou vai dizer que você quer passar a vida toda esperando pelas férias?

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