A ditadura da lacração

O termo “torcedora” foi cunhado no início da nossa história com o futebol, por Coelho Neto, um cronista declaradamente apaixonado pelo Fluminense F.C.

Foi em um de seus textos que ele externou uma percepção que lhe ocorreu certa vez. As mulheres que iam aos jogos e de fato simpatizavam com o time costumavam, em momentos de aflição, apertar e torcer suas luvas com tanto afinco que foi impossível não notar. Um dia após sua observação, publicou em sua coluna o fato e, de repente, criou-se o termo mais popular para expressar a empatia por um clube de futebol que esta terra já ouviu. De lá pra cá, seu significado não ficou limitado ao esporte, mas expandiu para denotar qualquer demonstração de afinidade com uma pessoa ou grupo em detrimento de outro, independente da esfera.

E aí é que está o problema.

Não com o termo, obviamente. O problema é que a necessidade de se identificar com um único lado transpassou o esporte, alcançando qualquer tema que tenha — no mínimo — duas interpretações possíveis. No futebol, se eu torço para A, e B enfrenta A, logo torcer para que A vença ou que B perca dá na mesma, em termos racionais. Nessa lógica, B necessariamente está do lado oposto de A. No futebol.

O detalhe é que a vida real não é assim. Muitas vezes, as diversas possibilidades de interpretação não são eventos mutuamente exclusivos. Isso quer dizer que há, portanto, um erro crasso no ato de tratar tudo como um torcedor: A mania reducionista de traduzir qualquer antítese a uma briga de torcidas organizadas. Quando qualquer argumentação antagônica é aludida ao duelo esportivo, limita-se qualquer chance de compreensão do todo, que é mais complexo do que a visão simplista que temos (e aqui me incluo) de tudo.

As consequências dessa retórica dicotômica são profundas, sobretudo na temática política. Ela estimula a permanência na zona de conforto intelectual através do ajuntamento de pensamentos ideologicamente semelhantes.

Há uma tendência natural do ser humano em se aproximar de quem ele mais se identifica e, nos tempos atuais, essa predisposição é potencializada pelas redes sociais. Acontece que o próprio algoritmo do Facebook leva em consideração os posts mais “relevantes” para o usuário. Neste caso, entende-se por “relevante” aqueles que o agradam e, portanto, corroboram com seu pensamento/ideologia/opinião (your choice) pré-formado. Ao ter a escolha de ver somente aquilo que alinha com o que se pensa, o contraponto não é mais apresentado. Além disso, a cada postagem com um posicionamento qualquer — independente do seu nível de sanidade — existirá um alguém que irá se identificar com o exposto e aprová-lo, reforçando a ideia de que o seu diagnóstico é o correto e quem pensa diferente está errado. O resultado é que crença vira dogma. Aí, meu amigo, é o tiro de misericórdia no debate.

Some-se a isso a quantidade estratosférica de mídia desonesta que injeta mais conteúdo duvidoso, justamente para polarizar ainda mais o discurso e, de quebra, angariar algumas dezenas de likes (não necessariamente nessa ordem de causa-consequência).

As mesmas fitas, as mesmas falas e os mesmos personagens são apresentados de maneiras diferentes dependendo do gosto do freguês, e tudo é convenientemente editado para satisfazer os “petralhas” ou “coxinhas”. O que importa, afinal, é ~lacrar; é mostrar que “Moro lacra e coloca defesa de Lula em seu devido lugar” ou que “Às vésperas do depoimento, Lula dá primeira chinelada em Moro”. Baboseira.

A internet tem um poder enorme de elevar nosso nível de compreensão do mundo através da apresentação do outro lado do prisma, de modificar o status quo e fazer com que todos estejamos engajados num bem maior do que simplesmente deslegitimar o argumento alheio.

Talvez o que precisamos é começar a (dis)torcer. Parar de tratar toda pauta controversa como clubes de futebol, porque entre os embates de “turn down for what”, somos nós que tomamos 7x1. Todos os dias.