As novas formas de popularizar a ciência.

Você já parou para pensar em como podemos revolucionar a comunicação científica no Brasil? Eu aposto na Ciência Cidadã, Movimento Maker, Movimento DIOBIO, Biohacking, e Bioarte.

Por: Filipe Oliveira

A popularização da ciência deve ser entendida como uma prática que conecta a ciência com as necessidades das pessoas de maneira engajadora, inovadora, e contextualizada. O objetivo da comunicação não é o de “levar” o conhecimento para, ou o de reproduzir experimentos com, as pessoas, é sobre a facilitação de experimentações originais na sociedade, especialmente, nas escolas, dentro das escolas, pelos estudantes e com o suporte dos educadores. As novas formas de comunicação ou popularização da ciência são mais ativas e participativas, contando com uma rede de educadores, estudantes, cientistas, e não cientistas, todos!

Todos somos leigos, diria, alguns com mais experiência (não use isso como ferramenta de supremacia). Assim, em todos os casos, deve-se buscar a redução das barreiras entre os cientistas nos laboratórios e os fazedores na sociedade. Precisamos estimular facilitadores, não gênios, que são raros de qualquer forma, ou autoridades, que são inúteis para o real progresso do conhecimento coletivo. Fundamentalmente, precisamos aceitar todas as pessoas como constituintes essenciais, e, assim, relevantes, no processo de produção de inovações científicas. Precisamos humanizar a ciência. Fazer isso, significa, em última palavra, ser contemporâneo.

1. Ciência Cidadã

Na ciência pelo cidadão, como prefiro denominá-la, o conhecimento das práticas científicas é comunicado, popularizado, e construído por meio do engajamento de pessoas, conhecidas, na literatura científica, como amadoras (super útil para o engajamento, não?), as quais não são cientistas em termos de formação acadêmica, mas que contribuem muito para o sucesso das pesquisas de grande escala. Crianças, jovens, e adultos contribuem com dados em plataformas. Os dados depositados são então analisadas por especialistas, pessoas com mais experiência nesse tipo de atividade, ou co-analisados com os contribuidores (bem melhor!). Esses cientistas cidadãos são treinadas nos princípios básicos de coleta, e, até mesmo, nos métodos analíticos. As questões éticas e crítica, idealmente, são discutidas. Muito importante, aqui, é entendermos o papal dos colaboradores não como mão de obra barata, meros coletores especializados, sejam de dados ou de pontos para uma planilha do Excel, mas como elementos fundamentais, eles são e devem ser respeitados como colaboradores do projeto. Projetos bem sucedidos promovem o empoderamento dos participantes, e a ciência torna-se mais tangível e menos arrogante. A participação dos cidadãos em pesquisas científicas tem levado ao grande sucesso nas medições de parâmetros que indicam mudanças climáticas, acidez nos oceanos, identificação de aves, distribuição de abelhas, e o universo microscópico ao nosso redor, etc.

2. Movimento Maker

O movimento mão na massa, como é melhor conhecido no Brasil, traduz o desejo criativo das crianças e de muitos adultos em “colocar a mão na massa”, ou seja, deixar a criatividade ditar o ritmo da vida. Nos espaços mão na massa, conhecidos internacionalmente por makerspaces, inventores, curiosos, e entusiastas usam diferentes materiais e tecnologias de fabricação para produzirem desde brinquedos até a última geração de produtos úteis para muitas vidas. Makerspaces contam com impressoras 3D, cortadoras a laser, plataformas de baixo custo para automação como o Arduino e Rasberry Phi. Novas e velhas tecnologias são mixadas na fabricação de soluções pelas pessoas para as pessoas. Os cidadão são empoderados pelo conhecimento de fabricação. Passam por uma transição, não necessariamente completa, mas influenciadora, de somente consumidores para também criadores, ou fazedores. Para a ciência, esses espaços e o movimento mão na massa refletem dois pilares da educação científica: a experimentação verdadeira e a replicabilidade para ganhar escala e impacto. Se você faz algo, você entende como o processo de pesquisa e desenvolvimento é tortuoso, e que as tecnologias de fabricação, ou aquelas geradas do processo, tem limitações. O processo científico, encarnado no método científico, não é linear, não lida com a verdade, e é infinito.

3. DIYBIO

Talvez um dos movimentos mais promissores para a ciência em países emergentes como o Brasil. Esse movimento trata de popularizar a fabricação de equipamentos de laboratórios e o uso de ferramentas científicas que variam desde a montagem de uma incubadora de bactérias, passando por microscópios acoplados ao celular, a uma máquina de PCR que consegue replicar o DNA de basicamente qualquer ser vivo. Os protocolos e processos produzidos por essa comunidade internacional são disponibilizados abertamente. Nunca foi tão barato e simples construir laboratórios nas escolas.

4. Biohacking

Movimento que desdobrou da comunidade DIYBIO. Os Biohackers, contrário do que o nome pode indicar, não procuram desconstruir a ciência, mas por entenderem seus elementos mais íntimos, conseguem dar novos significados a vida. Esse movimento está focado no desenvolvimento de produtos que contribuam com o melhor entendimento das pessoas sobre a biotecnologia. Os organismos geneticamente modificados já estão presentes em nossa alimentação, nos múltiplos laboratórios de pesquisa, e também nas artes. A extração de DNA é uma atividade recorrente nas universidades, e também fora delas. Consegue-se identificar o código de barras de uma espécie, inserir um gene novo no genoma de bactérias e de outros seres vivos. A insulina é um bom exemplo disso. Pode-se, até mesmo, pintar roupas usando bactérias.

5. Bioarte

A Bioarte é uma junção crítica entre diversos campos científicos e artísticos. Essa conexão permite discussões sobre os significados da experimentação científica, a ética científica, e os potenciais estéticos, sociais, e políticos da prática científica, em um diálogo, especialmente presente com a biotecnologia e a nanotecnologia. Somando-se, essa junção permite que os artistas explorem novos meios de expressão, fontes de questionamento e experimentação.Arte e ciência sempre estiveram trabalhando juntos, os meios de cultura é que tem sido remodelados ao longo do tempo.

Saiba +: Conector Ciência

Editado: 7–12–2017, 6:10 PM.

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Formado em Ciências Biológicas pela Universidade Federal de Viçosa (UFV) e Mestre em Biologia Evolutiva pela Uppsala University (Suécia) e LMU-Munich (Alemanha). Desenvolveu sua tese de mestrado na Harvard University (US) e trabalhou na University of Helsinki (Finlândia) como pesquisador Nível II.

Fundou a iniciativa educacional Conector Ciência que visa ampliar a cultura de experimentação científica nas escolas e ONGs.