Maior Shopping do mundo em Dubai.

Fui a uma livraria. Antes fosse ao cemitério, ter deitado em uma cova, ter cantando algo dos Doors abraçado à vala. Uma senhorinha olharia com ar contrariado, e se perguntaria: acabou-se o respeito à vida? Bem, se a senhora me mostrar onde está a vida, quem sabe. Rigorosamente trágico. E no cemitério não há ar condicionado.

Estou exagerando para parecer complexo, claro. Não sou complexo, e fatalmente, adoro shoppings. Sou um capitalista. Me admira ser rigorosamente pobre, a vagar pelos shoppings e não comprar nada, sendo tão capitalista. Vou ler Mises algum dia. Estou fazendo algo errado.

Quero fazer um adendo. Acho que é assim que se chama quando desejamos observar, hmm, algo da natureza humana. Eu, se pudesse, estaria pouco atento à natureza humana. Prefiro admirar patos grunhido numa lagoa. Mas a natureza humana é exibida, quer se mostrar. Então observo.

Estive notando no shopping as esposas dos endieirados. Não são capitalistas, são endieirados. Sem vulgarizar o termo capitalista, cavalheiros. E não observo apenas com desejo sexual, afetivo. Também sei ser sensível quando quero. Vejo que não existe nada mais entediado na face da terra que mulher de endieirados passeando pelo shopping. Quando há filhos, os filhos que andem no chão ou no colo do progenitor. Mamãe quer admirar as vitrines, com licença.

Noto ser uma admiração desinteressada, como quem finge que estar ouvindo alguém narrar o próprio sonho. É um olhar por olhar. Eu observo e penso: bem, Deus me livre do augúrio de ser endieirado, então. Há, em qualquer atividade realizada por um pobre uma sinceridade lacrimejante. Sinto alguma vontade de participar, até. Na endieirada, não.

Repito: a natureza humana se impõe. Há, naquelas esposas, um sentimento de libertação ao olhar vitrines de roupas e sapatos caros. Tal qual um Freddie Mercury reprimido, elas atiram o neném no chão, expulsando do colinho e envocam um I want back free, assim, sem exclamação, natural àquela que fez tantas coisas que não queria na vida que agora desaprendeu a se divertir com algo que realmente gosta.

Nada tenho contra grã finas, por favor. São até importantes pra economia, digamos, à medida que consomem com bastante ênfase; mas é melancólico notar a vida que poderia ter sido e que não foi, ou até foi; mas chegando lá ficou sentada esperando alguém que não apareceu.

O que noto em shoppings dá para se preencher livros inteiros sobre psicologia comportamental em departamentos universitários. Eu, que nada tenho de acadêmico, e odeio departamentos universitários, vou rindo sozinho mesmo. E ocasionalmente escrevo algo.

Há toda uma magia em participar ativamente das coisas; e outras tantas em observar tudo.

Era isso.