Eleições 2018, o cenário que se forma.

Em outubro de 2018 a grande maioria dos brasileiros enfrentarão uma das mais aguardadas eleições da história. Após um duro processo de impeachment que separou golpistas e golpeados, 2018 tem tudo para ser a mais interessante e tensa eleição do país.

Para o exercício de um cenário atual, vamos facilitar e classificar os movimentos partidários entre centro, esquerda e direita. Contudo, antes de propor tal divisão, cabe a ressalva que a separação “tricotômica” se faz necessária para efeito de referência e assimilação, não definindo características e posicionamento político.

Levei em consideração, para o exercício, os assuntos mais polêmicos e urgentes do nosso país, como: violência, economia, corrupção, democracia, pautas de minorias, associação com entidades civis, etc. Novamente, não esperem nenhum rigor absoluto quanto às posições partidárias, os agentes políticos são mais complexos que isso, sobretudo em um ambiente tão volátil como o atual.

Dessa forma, vamos aos personagens de quatro frentes claras em formação:

i) O primeiro é a figura do ex-presidente condenado pela Lava Jato, Lula. Ele está impossibilitado de concorrer às eleições de 2018, mas na decisão de seu substituto e em seu jogo político reside grande parte do destino da esquerda.

ii) Após o petista, está o líder da extrema-direita Jair Bolsonaro. O candidato é uma realidade que aglutina um importante grupo político no país (principalmente ligado às forças armadas), e outros difusos grupos civis, como os que aclamam por intervenção militar, movimentos recém formados no processo de impeachment da Dilma, ou mesmo associações e sindicatos ligados à polícia, e afins. Podemos caracterizá-lo como o principal candidato à direita. E com menor expressão nesse espectro, há o João Amoêdo, do Novo, menos duro no discurso político, mais aberto no econômico.

iii) A terceira grande frente é liderada por Alckmin, o centro e o centrão. O último, aliás, anunciou algumas vezes a possibilidade de percorrer um caminho próprio, como no caso de Rodrigo Maia, do DEM. No entanto, o atual presidente da câmara já desistiu de sua candidatura e se uniu ao tucano. O próprio Henrique Meirelles, do MDB, e o Álvaro Dias, do Podemos, também compõem esse centro, mas ao contrário de Maia, esses ainda insistem em suas candidaturas.

iv) E por último, uma frente que eu julgo progressista de centro, apesar de não amigáveis entre si, representada por Marina Silva, da Rede, e Ciro Gomes, do PDT. Esse último, no caso, mais fluido entre a dita política tradicional, já a primeira resiste em uma chapa única, apesar de já ter feito alianças nas eleições anteriores, e ter acenado para algumas recentemente.

Se tratando de partidos, a esquerda conta com PT, PSOL e PC do B com candidatos e representação no congresso. Atualmente, Lula, Guilherme Boulos e Manuela D’Avila são seus pretendentes ao planalto. A liderança e tamanho do PT na esquerda, muito por conta de Lula, lhe confere vantagens importantes nesse bloco. Como sabemos, Lula será impossibilitado de concorrer à presidência, mas sua liderança nas pesquisas e sua possível capacidade de transferência de votos lhe dá um peso muito grande nas negociações dessa frente. A Lula, e ao PT, esperar que a justiça decida sobre sua candidatura é benéfica, pois sua decisão é cada vez mais valiosa, tanto mais é o próprio peso do PT nas mesas de negociação. Nesse contexto, sobram aos PSOL e PC do B um papel coadjuvante nesse bloco, o PSOL fica entre a oposição sistemática ao PT e a possibilidade do retorno da esquerda ao poder com um maior protagonismo de seu quadro. E o PC do B tenta sair de um ostracismo e envelhecimento com a jovial Manuela, mas seu pequeno tamanho e influência lhe impedem de ter um maior protagonismo dentro da esquerda. Contudo, não está descartada uma candidatura conjunta entre PT e PC do B, já com o PSOL essa possibilidade inexiste, o que não exclui em absoluto um apoio num possível 2° turno. As questões futuras desse bloco residem principalmente na escolha de Lula sobre seu substituto ou substituta, na velocidade da justiça em inelegí-lo, e em sua capacidade de transferir e emplacar um quadro presidenciável crível para ir ao segundo turno, hoje Haddad, Wagner e Hoffmann são os mais cotados.

Jair Bolsonaro já é candidato, e com certeza estará na urna em outubro. A seu favor conta um exército não desprezível de ciber-militantes, a força de mobilização de entidades militares, um pequeno aparelho político do seu partido, o PSL, e, ainda não confirmado, algum apoio dos recém formados movimentos de direita, como MBL, Revoltados On Line, Vem Pra Rua, e similares. Apesar de sua posição polêmica em muitos assuntos, o não uso de uma retórica mais rebuscada e tradicional alimenta os anseios de uma parte indignada de eleitores. Com um discurso duro, apesar de superficial, em relação à violência, corrupção, economia, etc., Jair se destaca entre o bloco da direita e extrema direita. Sua posição agressiva contra alguns movimentos minoritários encontrou apoio numa parcela da sociedade que julga tentativas de redução de privilégios e correção histórica, como uma restrição da liberdade, ou mesmo, criação de novos privilégios. Sinais de novos velhos tempos. O fraco nível de suas entrevistas na mídia não reduz o ímpeto de seus defensores, principalmente com a ajuda da baixa qualidade das perguntas dos entrevistadores. Seus reveses se deram, até então, na incapacidade de uma aliança política maior, que lhe traria não apenas suporte eleitoreiro, mas um tempo maior de TV e mais financiamento do fundo partidário. Por outro lado, Bolsonaro não deverá ter problema com o financiamento de campanha, muitos de seus admiradores fazem parte de uma elite empresarial endinheirada que já provou não medir esforços para ajudá-lo. Bolsonaro goza de simpatizantes também no mercado financeiro, com seu discurso mais liberal e menos regulador da economia e do mercado. A questão ao redor de sua candidatura reside na capacidade ou não de se estabelecer como uma real ameaça na corrida presidencial, apesar de sua inexperiência. A falta de tempo de TV e de alianças mais robustas, podem ofuscar sua representação junto ao eleitorado indeciso. Nas entrevistas mais proeminentes ele saiu melhor do que entrou, e aos seus opositores cabem a esperança que seu pouco tempo de TV e os debates ao vivo ofusquem sua candidatura.

Alckmin continua sendo o candidato do status quo brasileiro. Ele melhor representa a continuidade das políticas econômicas do governo Temer, do ministro da fazenda Henrique Meirelles, e do presidente do Banco Central, Ilan. Aos dois últimos é simpatizante o mercado financeiro e parte da mídia tradicional, grandes formadores de opinião no país. A conquista do apoio do centrão, com aproximadamente 20% do congresso, foi uma vitória importante dentro da corrida tradicional eleitoreira. Partidos como PP, DEM, PROS e Solidariedade são apoiadores de quem tá ganhando, costumam colar no aparelhamento, e não possuem pudor algum em mudar de lado. Com esse apoio, o tucano ganhou tempo de TV, financiamento do fundo partidário, inserção política no atual congresso e no futuro, e um monte de apadrinhamento para fazer caso seja sucedida a aliança. Desde a primeira eleição após a redemocratização do Brasil, nenhum presidente foi eleito e se manteve no cargo, sem apoio do centrão. Essa sua decisão, por outro lado, lhe trouxe o ônus de diversos nomes envolvidos com corrupção, como de Waldemar Costa Neto, Paulinho da Força, Paulo Maluf, e outros. Vide a própria possível vice de sua chapa, a senadora Ana Amélia. A essa incoerência, já relativizada pelo próprio FHC, Alckmin vai ter que se explicar, como já ficou claro em algumas entrevistas do candidato. Os problemas internos do PSDB, principalmente em São Paulo, reduto tucano, também não são desprezíveis. Ao seu favor, por outro lado, conta o fato do candidato ser um forte nome no maior colegiado do país, ter padrinhos políticos com um peso importante, como o de Dória, Serra e FHC, uma equipe econômica de alta relevância no mercado e na elite empresarial, e uma experiência executiva mais parruda que seus adversários. Ter pouquíssimos escândalos envolvendo diretamente seu nome, é também uma vantagem. Sua chapa será a maior a concorrer em outubro.

Por fim, tem-se a frente centro-esquerda de Ciro Gomes, e de centro-direita da Marina Silva, onde ambos amealharam pouquíssimos apoios relevantes ultimamente. Ciro Gomes bem que tentou, mas com pouco sucesso; seu nome e a sombra de Lula o impediu de conseguir o PSB, e sua aproximação com a esquerda, o afastou do centrão. Seu apoio por enquanto é pontual, como o de sua vice recém confirmada, Kátia Abreu, senadora do MDB. A senadora é um quadro político que flertou com o PT na época do impeachment, e defendeu uma posição contrária ao governo Temer desde então, mas é alvo de protesto de importantes movimentos sociais, sobretudo os ligados à terra. Ciro buscou uma equipe mais progressista e realista no campo econômico e político, com o plano econômico liderado por Nelson Marconi da FGV-SP, e um discurso duro contra a corrupção do governo Temer. Ciro também faz questão de apontar descontentamentos com o PT, Lula e Dilma, apesar de relativizar sua participação nesses governos, Marina tem um discurso parecido aqui. A eloquência de Ciro impressiona, e sua fluidez em tratar de assuntos escusos de Brasília é impressionante. A Marina, por outro lado, se posiciona sozinha num misto de PSDB com PV (no sentido mais verde, que partido). A Rede ainda busca uma identidade própria, por vezes andando junto do PSOL, e em outros com o PSDB. Sua candidatura buscará nomes limpos da política, ou de baixa relevância, como de Eduardo Jorge do PV, cotado para ser seu vice — o quadro econômico de Marina impressiona o mercado, ao contrário do de Ciro. No entanto, o fato de estar praticamente sozinha na corrida presidencial é uma desvantagem. Seu baixo poder econômico eleitoreiro, e baixa exposição na mídia, talvez não seja suficiente para os 10% necessários para leva-la ao inédito segundo turno. A Ciro, muito mais do que para Marina, a escolha do PT pode ser decisiva. Um erro estratégico do partido dos trabalhadores pode ser canalizado para Ciro, fazendo com que seu nome seja a escolha óbvia de parte dos eleitores da esquerda. Marina é a sempre terceira via. Num morre-morre entre extremos e tradicionais, ela pode sair vitoriosa.

Me parece bastante claro que o segundo turno fica entre o indicado de Lula, Bolsonaro e Alckmin, com Marina e Ciro correndo por fora a depender dos movimentos dos grandes blocos. Pelo prisma da política tradicional, Alckmin saiu na frente; pelas forças extremas, tanto PT como Bolsonaro são fortes concorrentes; o fator surpresa/novo sopra a favor de Marina e Ciro. Eu costumo ser cético aos debates eleitorais, mas pode ser que muito seja resolvido ao vivo na TV, e nas consequências dos bastidores nas redes sociais.

Veremos.