Temer fica, Reformas fora: comemoro ou não?

Grande parte dos economistas ditos desenvolvimentistas, progressistas, ou para os mais pobres de intelecto, esquerdistas, se posicionaram fortemente contra às Reformas em curso do governo Temer. Eu como um desses, não sei se comemoro ou não sua estadia no planalto.

Alguns grandes jornais e colunistas já cravam que a Reforma da Previdência não vai sair enquanto Temer estiver no poder — ou mesmo que a Reforma em si não sai antes de um novo e legítimo governo. Isso é de certa forma paradoxal para muitos, pois na polarização que temos atualmente no país, os que defendem a permanência de Temer o faziam principalmente por causa das Reformas; enquanto os que o querem #ForaTemer , se dividiam entre a falta de legitimidade do presidente, e sua agenda social e econômica extremamente conservadora e punitiva aos mais vulneráveis.

O fato é que a continuação deste no poder, por mais que ainda ancorado nos dúbios avanços econômicos atuais, não está diretamente ligado às Reformas. O que eu quero dizer é que o atual presidente não se segura no trono porque acredita que as Reformas são necessárias, nesse caso eu concordo com Renan Calheiros (talvez uma das únicas vezes que eu concorde com ele), Temer acha que governa. Ele se mantém no poder, pois para um denunciado e flagrado de diversas formas imagináveis e inimagináveis, não há lugar melhor de estar do que na presidência da república. Afinal, se há a necessidade de poder para se defender, o cargo lhe dá a prerrogativa de ter o maior poder possível na nação. Dessa forma ele vai passar tudo aquilo que a equipe econômica (no caso: agenda FIESP, Febraban, CNT e todos os fortes sindicatos patronais) sugerir, pois em sua cabeça é: agrado quem manda e eles me poupam.

A Reforma trabalhista será votada hoje na CCJ do Senado, e seu resultado ainda é uma incógnita. A oposição está definida num bloco aparentemente coeso liderado pelo PT, ao passo que o dito “centrão” anda rachado, inclusive o próprio PMDB. DEM-PSDB continuam sendo o grande trunfo das Reformas, mesmo que bem quietinhos para não respingar nada.

Para nós economistas progressistas (ou esquerdistas) que gostaríamos de ver um debate franco e substancial sobre as profundas reformas em curso, com a participação de entidades, especialistas, trabalhadores, empregadores, acadêmicos e etc., o imbróglio político é de certa forma positivo. Temer se segura no poder arranhando sua imagem e a de todos que ainda se declaram ao lado dele, e isso acaba refletindo na opinião pública, que por mais que não se revolte como o esquizofrênico ódio ao lula-dilma-petismo indo às ruas de amarelo e verde reverenciando um pato amarelo, isso ainda tem um peso importante, demonstrado claramente nas pesquisas de 2018 da semana passada.

No entanto, obviamente, não há nada para ser comemorado. Os dados sociais e econômicos são dúbios, continuamos com 14 milhões de desempregados, a inflação em queda não é mais comemorada como outrora, o crescimento não veio e sua previsão para 2017 é menor a cada semana, o consumo e o investimento macroeconômico patinam, o governo está paralisado, seja por conta do teto dos gastos, que até atingiu a confecção de passaportes (por mais que eu ache que isso seja um jogo político entre PF e Governo), seja pela incompreensível continuação da austeridade cíclica que aprofunda a angústia econômica, ou mesmo pela incapacidade moral e ética de um réu em pensar além do próprio umbigo.

Nessa aparente tranquilidade reside na realidade a nossa derrocada como nação nos últimos anos — o que era para ser uma vitória democrática, se tornou uma derrota institucional. Temer só piorou o Brasil, e agora nem os economistas pró reformas têm mais motivos para vê-lo continuar.

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