Vício Inerente (148 min, 2014)

Os livros do americano Thomas Pynchon não são fáceis de deglutir. São emaranhados de nomes (quase sempre exóticos), lugares verdadeiros ou não, ‘pulos’ no tempo que desafiam o mais experimentado leitor. Lançada majoritariamente na década de 90, sua obra em português é um quase-mistério (O Arco-Íris da Gravidade, Contra o Dia e Mason & Dixon são alguns títulos publicados pela Companhia das Letras e há muito não reeditados).

Um mistério inteiro, no entanto, é a vida do próprio autor. Pynchon não faz divulgação de seus livros, jamais concede entrevistas (imagina-se também que não leia resenhas) e seu rosto, não fossem algumas fotos de quando jovem, disponíveis na rede, é irreconhecível. Um autor que recusa o púlpito, não dá as caras e que quando escreve, o faz de um jeito único.

Adaptá-lo para o cinema, diziam, era impossível.

Martin Short (no filme, Dr. Rudy Blatnoid) e o diretor Paul Thomas Anderson.

A missão de levar a novela neo-noir Vício Inerente à tela ficou para Paul Thomas Anderson. Ele mesmo escreveu o roteiro, desmantelando a trama e reimaginando as intenções mais puras da obra original. Nela, o detetive doidão que se apresenta como médico, Larry ‘Doc’ Sportello (Joaquin Phoenix), sai à procura de uma ex-namorada (Katherine Waterston), amante de um ricaço especulador imobiliário (Eric Roberts).

Fosse só isso, a repisada investigação particular feita com o coração e não com a cabeça, que promete um daqueles finais “correr ou morrer” — em que, espanto zero, dão lugar à uma terceira opção — Anderson teria feito um notável ‘filme de detetive’. Suas sequências são bem compostas, a câmera sempre explora uma perspectiva, que se não diferente de todas as já exploradas no cinema, propõe uma apreensão nova da cena. O diretor fez, afinal, o tal ‘filme de detetive’, mas com um verniz de ‘cinema de arte’, meio qualquer bossa, meio ‘cabeça’.

A composição do personagem de Joaquin Phoenix foi inspirada no músico canadense Neil Young.

Com lançamento prometido para fins de fevereiro, Vício Inerente chega ao Brasil com um mês de atraso. Lançado nos EUA e na Europa em fins do ano passado, foi recebido com alguma indiferença — ou pelo menos de um jeito diferente do que foram O Mestre e Sangue Negro, seu filmes anteriores.

Ao reduzir a trama de Pynchon a um desfile de close ups do numeroso e estelar elenco que reuniu, sob a narração de um coadjuvante que aparece pouquíssimo, o diretor sabia que a recepção não seria tão calorosa. Embora tenha cuidado de detalhes visuais mínimos e imperceptíveis ao olho menos treinado, homenageado Robert Altman, Hal Ashby e Neil Young e deixado Joaquin Phoenix livre para ser o cavalo de um Philip Marlowe doidão e inconsequente, deixou seu filme sem substância quase nenhuma e, talvez, excessivamente longo.

A primeira tentativa séria de trazer Thomas Pynchon para a roda de Hollywood não deu muito certo.

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