‘Click’ era um spoiler da vida no curso de arquitetura
I ain’t wasting no more time
Se você realmente nunca viu esse filme, o texto contém spoilers.
Acho que agora, em 2015, a grande maioria das pessoas já assistiu o filme Click, de 2006, que tinha o Adam Sandler como protagonista. Não é um filme com a melhor história do mundo — tem 32% de aprovação no Rotten Tomatoes e nota 6,4 no IMDb, mas é até aceitável pra uma tarde chuvosa, quando o vi, passando pela metade, num canal a cabo.
Enquanto assistia, lembrei que vi o filme ainda nos tempos que usávamos DVDs de locadora (2007?) e também não botei muita fé na época, mas acabei vendo até o fim. E, dessa vez, reparei em detalhes que nunca me passavam pela mente da outra vez e conclui que esse filme era, na verdade, um grande spoiler do meu futuro e, suponho, de alguns futuros colegas de profissão. Pois é, enquanto muito gente lembra do 500 dias, eu lembro mais desse — em ambos o arquiteto só se dá mal, não é?
Ok. Vejamos as semelhanças.
A vida de um arquiteto
Já na primeira cena, vemos o protagonista Michael Newman (Sandler) sendo acordado pelos filhos. No cenário da casa, alguns elementos familiares — planta, lapiseiras, compasso, curvas francesas — além de comida e uma xícara de café. Nós sabemos na hora o que aconteceu antes: virada de noite. Não tinha reparado tanto nisso em 2007.


Na sequência, temos o gancho da trama: Michael tem problemas para lidar com os inúmeros controles na sua mesa, e os filhos comentam sobre a existência de um controle universal. Também vemos que eles começaram a construir uma casa na árvore, mas não terminaram. Um dia, quem sabe.
Você tem problemas pra lidar com o tempo?
Na sequência, ele vai pro trabalho, chega atrasado e vai para um sala onde o chefe está apresentando um projeto numa maquete. Os clientes não gostam muito e pedem alterações. Apenas um dia normal pra nós.


A vida de arquiteto não parece tão diferente da escola.


Seguindo o filme, vemos Michael ignorando a família e seguindo sua rotina de vida nada saudável. Após a primeira cena dos clientes, ele recebeu um novo projeto, e pra isso, precisa ver um documentário sobre arquitetura da Ásia. Spoiler: talvez você tenha professores de descendência asiática.


Ao não conseguir ligar a TV, temos o início da saga do controle remoto que controla a vida real, o norte do filme. Ele vai a uma loja comprar o controle tarde da noite — quem nunca saiu por ai querendo comprar coisas nesse horário? A diferença é que no filme tem uma loja aberta.
Se fosse um filme mais atual, as redes sociais estariam cheias de imagens como essa aqui.


Morty (Christopher Walken), cujo nome em inglês não joga tão na cara a real natureza do personagem como em português — no fim do filme ele se revela o anjo da… hum, morte — surge ai, para entregar ao nosso amigo o controle remoto universal que ele tanto quer. Como vocês já sabem, o controle realmente controla todos os aspectos da vida, e ele vai descobrindo aos poucos. Os comandos feitos com o controle ficam na memória e, sem querer, Michael descobre como será a sua vida baseando nas decisões que ele tomou — ignorar a família, dedicar-se ao trabalho, comer mal — o que leva a um final não muito feliz pra ele. Vou tentar pensar nisso.
Michael descobre as propriedades especiais do controle em uma virada de noite. Parece que ele não conhece CAD.
Mas eu queria ter uma mesa dessas.
Parece que eu já vi isso em algum lugar
O filme segue com cenas que representam diversos momentos já vividos por mim e talvez por você na Arquitetura.




Após conseguir o projeto asiático graças ao controle , Michael faz o que eu e você provavelmente faríamos ou já fizemos: comemora o resultado e gasta o que não tem.


As crianças vão acabar tendo que devolver as bicicletas, jogando Michael numa bad que faz com que ele avance até a promoção que ele tanto quer — e que demora mais do que ele imagina. Há também a cena em que ele volta ao primeiro beijo dele com a mulher, Donna (Kate Beckinsale), num bar que parece uma mistura de vários bares que conhecemos por ai. Exceto pela lareira, não conheço nenhum que tenha. O bom dessa cena é a trilha, Linger.
Do you have to, do you have to, do you have to let it linger?
Talvez a cena onde o Michael seja mais babaca seja a que ele está na mesa de projeto, aparentemente sem grande sucesso. Ai, os filhos dele tentam ajudar com seus próprios projetos. Acho que ele devia considerar a ajuda da família — não tenho irmãos, mas já vi alguns ajudando nos fins de semestre.
O que vem a seguir é algo como um assessoramento, ou um painel de entrega de projeto. Só que com crianças. Devia ter olhado atentamente em 2007.


Se ele quer uma sala feita de pizza, por que não?
Essa é uma das respostas da Donna a cena. Michael ainda mostra toda a sua amargura com a profissão em seguida.


Essa filme era a vida te avisando do que ia vir. Era só prestar atenção.
A próxima referência subliminar a vida na arquitetura não é relacionada a arquitetura e dispensa explicações.


Após Michael ser promovido, vem a sequência mais ARQ possível: ele vai pro trabalho, sem se arrumar direito, de bicicleta, ao som de Someday, dos Strokes — música que está diretamente relacionada a ARQ-UFSC a algum tempo.
In many ways, they’ll miss the good old days, someday, someday…
O grande pulo pro futuro, que no filme era de dez anos — pra 2017 — pra nós agora é de menos de dois, e depois, de mais seis. Aparentemente Michael virou um arquiteto-estrela nesse meio tempo.


Como última curiosidade, já no final do filme, vemos a Nova Iorque do futuro com novas torres gêmeas no skyline. O desenho delas é bastante semelhante a torre que realmente foi construída no complexo do World Trade Center.


No final, temos mais uma referência que dispensa explicações.


O que podemos aprender com isso tudo?
Na real, nada — devíamos ter nos dado conta disso antes de vir parar nesse curso. Tava na nossa cara o tempo todo. Mas diz muito sobre a arquitetura um filme cujo personagem chave é a Morte, não?
E fica a dica: a trilha sonora é bem boa — afinal, se tem relação com a ARQ, tem música boa: Kinks, Offspring, Gwen Stefani, Tears for Fears, Nazareth, Air Supply, U2, Frank Sinatra e muitos outros, além dos já citados Cranberries e Strokes.