Leonardo Villar em A Hora e a Vez de Augusto Matraga

Além da Felicidade e Desespero

Queria ser possível incrustar em minha alma que das situações em que me vi sem saídas foram sempre seguidos pela capacidade — ou feliz coincidência — de encontrar uma forma para superar a situação e voltar à paz — pois assim certamente teria mais tranquilidade para enfrentar as inevitáveis sensações adversas vindouras.

Viver a vida como um continuum — nascer, aprender a andar, falar e tudo mais, fazer escola, faculdade, arranjar um emprego cuja ascenção na carreira me traria bem-estar e felicidade per si, casar, ter filhos, gozar a velhice e por fim, deixar de existir, sem questionar ou considerar o cotidiano como instante único e sim parte de um todo pode ser uma grande habilidade.

Infelizmente não fui agraciado com ela. Tentei o carreirismo até que do banco ao bar para conversar sobre banco e voltar ao banco no dia seguinte, e em certa hora parecia faltar algo . Do casamento extraí que a viver sob um mesmo teto exige uma abdicação à individualidade até agora incompatível comigo. As universidades sim me trouxeram prazer quando ensinavam de fato e não meramente formatavam o que aprendi para o uso prático, no geral mercadológico. Deleitei-me quando entrei atrasado na primeira aula do curso de Filosofia da Unifesp e percebi não estar entendendo nada sobre o assunto. Infelizmente a rotina de trabalho tornou difícil conciliar o horário da saída do banco com o do início das aulas, e as três horas de ônibus até o campus me geraram uma estafa que não consegui suportar — meus parabéns a quem conseguiu.

Quanto à paternidade vi algo indescritível nisso que mescla o orgulho, a felicidade e o amor, e uma estranha esperança que justamente contrapõe a mera sensação de passar adiante a miséria de Brás Cubas com a possibilidade de ter inserido na sociedade um sujeito que pode transformá-la para melhor — mas já falei sobre isso em outra ocasião. Parecido com isso inclui-se vejo uma espécie de amor fraterno que sinto involuntariamente pelas minhas três irmãs e irmão — por sorte eles não são fãs do que escrevo, pois “eu sou assim: duro, sarcástico, chato” como Ed Mort, sem conseguir sorrir só com um lado da boca.

A diferença da vida enquanto átomo de Demócrito, a partícula indivisível, e o de Rutherford, que pressupõe diversos elementos na composição dessa partícula. Ao invés do continuum um aglomerado de momentos completamente distintos entre si, a forma — talvez infeliz — que vivo e vejo viverem. Ater-me a esses instantes como se fossem únicos antes de ser capaz de aglomerá-los como capítulos de um livro de contos às vezes me dá a sensação de ser turista e não morador do mundo — por coincidência desde os 14 anos já morei em tantas casas que nem me lembro mais.

Nesses momentos muitas vezes me pareceu que as experiências de outrora não poderiam influenciar a atual. Tanto a paz, o desespero e o hiato parecem intermináveis, e apesar da crença de que amanhã há de ser outro dia e o céu pode estar menos nebuloso, sobretudo os momentos de tristeza trazem consigo uma cegueira mental que tanto impede de lembrar que outrora consegui superar situações difíceis quanto pensar em uma saída para os obstáculos que se apresentam.

Queria ser possível incrustrar em minha alma que das situações em que me vi sem saídas foram sempre seguidos pela capacidade de encontrar uma forma para superar a situação e voltar à paz — pois assim certamente teria mais tranquilidade para enfrentar as inevitáveis sensações adversas vindouras.

Quantas vezes já me vi como Augusto Matraga, “meio nu, todo picado de faca, quebrado de pancadas e enlameado grosso, poeira com sangue”. Empurrado para o chão, pronto para ter a cabeça cortada e o corpo enterrado nas areias do mar para que caísse em completo esquecimento.

— É aqui mesmo, companheiros. Depois, é só jogar lá para baixo, p’ra nem a alma se salvar…

Essa foi a sentença de Matraga, e como ele já gritei diversas vezes ao infinito:

Me matem de uma vez, por caridade, pelas chagas de Nosso Senhor. .’ .

E muitas vezes em que pensei que era o fim,

[Um] preto que morava na boca do brejo, quando calculou que os outros já teriam ido embora, […] subiu aos degraus de mato do pé do barranco. Chegou-se. Encontrou vida funda no corpo tão maltratado do homem branco; chamou a preta, mulher do preto que morava na boca do brejo, e juntos carregaram Nhô Augusto para o casebre dos dois, que era um cofo de barro seco, sob um tufo de capim podre, mal erguido e mal avistado, no meio das árvores, como um ninho de maranhões. […]

Que se frise, tenho muito a agradecer a Guimarães Rosa. Salvo por mim ou pelos pretos que aparecem como anjos sem motivação ou cobrança posterior, muitas vezes desaparecendo só deixando a gratidão gravada em meu coração, quando menos percebi estava pronto para outra.

E se tivesse sucesso na tarefa de talhar em mim a certeza de que nenhum momento se encerra em si, talvez não teria tantos remendos no corpo que eu mesmo provoquei, teria uma saúde financeira melhor por não ter caído na falácia do crédito fácil, tomaria menos pílulas. Teria menos medo de causar novos danos a outros e me permitiria mais proximidade com eles. Diria mais “eu te amo” e acreditaria nisso.

Não creio que tudo isso me faria mais feliz, já que se os sentimentos nos momentos são tão diversos e não persistem nos seguintes, e isso faz não ser possível ser feliz, mas estar feliz (imagina o inferno que seria traduzir isso usando o verbo “to be”). Apesar disso, cometo a heresia de discordar de Jobim e Vinicius, já que se tudo está restrito ao presente, tristeza também tem seu fim.

Mas que isso não induza ao pessimismo. Há algo em que enxergo uma constância: a esperança. Nos momentos de paz, podemos nutri-la com felicidade para que no desespero possamos procurá-la e agarrar-se a ela para não afundar no oceano aparentemente infinito. Quando suceder-se o hiato, podemos novamente buscar a paz e nos aprazer.

Quem sabe os hindus estejam certo e no fim de tudo isso chegaremos a um estado de ananda, uma espécie de hipérbole de bem-estar. Quem sabe até como passou-se para Matraga,

Pouco a pouco, devagarinho, imperceptível, alguma cousa pegou a querer voltar para ele, a crescer-lhe do fundo para fora, sorrateira como a chegada do tempo das águas, que vinha vindo paralela: com o calor dos dias aumentando, e os dias cada vez maiores, e o joão-de-barro construindo casa nova, e as sementinhas, que hibernavam na poeira, esperando na poeira, em misteriosas incubações. […] O trabalho entusiasmava e era leve. […] E deu uma manhã em que Nhô Augusto saiu para o terreiro e desconheceu o mundo: um sol, talqualzinho a bola de enxofre do fundo do pote, marinhava céu acima, num azul de água sem praias, com luz jogada de um para o outro lado, e um desperdício de verdes cá embaixo — a manhã mais bonita que ele já pudera ver. Estava capinando, na beira do rego. De repente, na altura, a manhã gargalhou: um bando de maitacas passava, tinindo guizos, partindo vidros, estralejando de rir. E outro. Mais outro.

E talvez encerremos a existência como ele:

[Matraga] fechou um pouco os olhos, com sorriso intenso nos lábios lambuzados de sangue, e de seu rosto subia um sagaz contentamento. Dai, mais, olhou, procurando João Lomba, e disse, agora sussurrado, sumido:
— Põe a benção na minha filha… seja lá onde for que ela esteja. .’ . E, Dionóra… Fala com a Dionóra que está tudo em ordem!
Depois, morreu.

Em paz. Ah, a morte, o único instante permanente e inevitável. Independente de existir um depois, o sorriso de Matraga pode ser o nosso, e essa é uma excelente motivação para nunca desistir.


Versão completa e sem cortes no Repositório Filosófico.