Chorão do Charlie Brown: Vítima da Sociedade

A autópsia do cantor e poeta Chorão do Charlie Brown Jr. confirmou: overdose. Impossível deixar de comentar que foi uma perda para a música brasileira, que de “Tico tico no fubá”, “Ideologia”, “Rosa de Hiroshima”, dentre muitas outras, acabou se transformando em “Tchu-tchá” e “Quadradinho de Oito”. Nesse cenário, a contribuição de Chorão à nossa cultura musical é inestimável! Ele conseguiu transformar o pensamento contemporâneo em sucesso, disputando espaço com o lixo cultural — se é que se pode chamar de cultural — que nos assola nas rádios, nos programas de TV e nas ruas, sem abrir mão da qualidade das composições. A questão mais importante nesse caso não é o porquê que ele morreu usando drogas, mas sim, porquê ele usava drogas. Uma pessoa de sucesso, com dinheiro, querido pelos fãs e, de acordo com os depoimentos post mortem na mídia, pelos amigos, colegas e família… Como é que uma pessoa no ápice de sua realização pessoal recorre às drogas — e nisso vale lembrar de Raul Seixas, Jimmy Hendrix, Jim Morrison, dentre outros. Mais uma vez, essa não é a questão: devemos nos questionar sobre o que exatamente é realização pessoal. Galgar altos cargos em uma empresa, ser detentor de conhecimento técnico tal que o mercado só pode recorrer a você, ganhar muito dinheiro, constituir uma família? Essas e outras coisas talvez nos venham à mente quando pensamos em realização, em detrimento do básico do básico do qual não se fala hoje em nossa cultura: ser feliz. Hoje, a própria identidade se confunde com as atividades às quais você está ligado. Fulano não é fulano, é fulano do Banco do Brasil. Ciclano não é ciclano, é ciclano ator da novela das oito. Lembremo-nos que antigamente, nos tempos de Cristo, essa identidade estava ligada à terra de nascimento: Jesus de Nazaré, por exemplo, era conhecido assim por ter nascido em uma manjedoura justamente em Nazaré. O que é melhor que essas duas coisas? Talvez a identidade pelo local de nascimento seja melhor que a relacionada às atividades que a pessoa exerce, pois ela remete às origens do indivíduo. Esse é um dos fatores que falta para nortear as pessoas: origens. Ainda que a pessoa provenha de uma família disfuncional, forçar a memória para a infância possibilita identificar uma série de fatores que compõem seu caráter presente e podem gerar disfunções. A dependência química é uma doença multifatorial, mas é quase que consenso na psicologia que na maioria das vezes ela é oriunda de um lar disfuncional. Nossa cultura não permite que pensemos nessas questões. Tudo o que precisamos para ser alguém é ter: dinheiro, carro, família, sucesso. O Chorão tinha tudo isso e ao que tudo indica percebeu que, mesmo no ápice do ter, ele não conseguiu aquilo que me referi há alguns parágrafos como “básico”, a felicidade. A maioria das pessoas morre antes de atingir o ápice do ter, já ele conseguiu. No “cume” ele percebeu o que a maioria vai morrer tentando conseguir perceber: o ápice do ter não trás felicidade. Chorão morreu de overdose de clonazepan e cocaína. O clonazepan — de nome comercial Rivotril — é um ansiolítico benzodiazepínico usado para controlar a ansiedade, e hoje é um dos medicamentos mais vendidos do mundo. Do jeito que anda a sociedade, o mercado de trabalho, as condições familiares, é muito difícil controlar a angústia e a ansiedade por meios naturais, e o mercado farmacêutico está aí para isso: para dor de cabeça, Neosaldina. Para tristeza, Fluoxetina. Para ansiedade e angústia, Rivotril. A combinação de cocaína e Rivotril pode ser fatal: a primeira excita o sistema nervoso central, a segunda deprime. O coração pode não resistir a essa mudança brusca e para. Se ao invés de paralizar o coração no sentido literal e resolvêssemos parar o coração — aquele que representa as emoções — contra as variações dos nossos humores, do corre-corre do dia-a-dia, da ânsia de consumo e de sexo, talvez tivessemos um tempo para refletir sobre o que realmente nos faz feliz. O Chorão foi uma vítima de nossa cultura: ele chegou ao ter e descobriu que isso não enriquece o ser. Teve tudo o que queria e ainda assim não foi feliz. Podemos condená-lo por ele ter recorrido à felicidade em saquinho, a substância que libera serotonina e traz sensação de bem estar e felicidade, ainda que ilusória, por alguns instantes? Aqueles que não se drogam com psicoativos mas recorrem ao excesso de trabalho, compulsão alimentar ou sexual, academias para adequar-se a um modelo físico considerado o ápice da beleza, também não estão fazendo a mesma coisa? Ter não é ser. Não vamos resolver nossos problemas mais íntimos sem tornar às nossas origens e descobrir de onde provém o vazio que nos leva à busca incessante por algo que não sabemos — então permitimos que a mídia nos diga o que é. Não existe uma estatística para isso, mas posso brincar de matemático e dizer que 95% da sociedade se droga, é obrigada a isso, só que não todos com psicoativos. Todos estão buscando a mesma coisa: ser feliz. Só que estão buscando no lugar errado. Cantor famoso ou não, um dependente químico não é diferente de outro, a forma como o Chorão morreu é igual à de muitos que vivem na cracolândia, ou de consumo excessivo de álcool — que é a droga que mais mata e, curiosamente, é lícita. Todos esses poderiam ser salvos se a sociedade — principalmente os governos e a mídia — passassem a nortear a vida não para o consumo ou para o incremento do PIB, mas sim, para a felicidade e bem-estar dos seus cidadãos. O Chorão é um exemplo de que a dependência química deve ser tratada preventivamente, que a doença não atinge só os pobres e, sobretudo, que essa epidemia é muito séria. O número de dependentes químicos é crescente. Quantos mais terão que morrer para que a sociedade mude seu norte e pare de iludir os indivíduos com um padrão irreal de felicidade? Ganhar dinheiro, comprar muitos imóveis ou carros de luxo — ou cheirar cocaína, nada disso trás felicidade. Acredito que o que pode nos fazer felizes são as pequenas coisas, todas aquelas que fizermos com prazer e que nos abra um sorriso sincero. Se o cantor e composição tivesse dado mais valor ao seu skate, pode ser que nada disso teria acontecido, mas afinal, skatista é vagabundo, vândalo, artistas de rua são escória, e empresários são exemplos — trabalhando mais de 12 horas por dia e abrindo mão do convívio com a família e do lazer. Quem tem mais chance de ser feliz?

One clap, two clap, three clap, forty?

By clapping more or less, you can signal to us which stories really stand out.