De que lado está o PT?

A realidade que tenho observado nos últimos meses supera em muito minha capacidade de imaginar perspectivas pessimistas. Há um ano atrás, pensava que não existia saída para o projeto de perpetuação no poder do governo petista, e que a única alternativa restante seria ouvir os discursos falaciosos e populistas observando a concretização de todos os objetivos que o dito governo de direita do Fernando Henrique não conseguiu realizar. Através de ofertas públicas e concessões, o patrimônio estatal seria privatizado em parcelas para ninguém ver. Programas assistencialistas camuflariam as benesses concedidas a quem realmente serve o PT: a burguesia — utilizando um termo da velha guarda, ou os detentores de grandes fortunas — uma nomenclatura que, creio eu, é familiar a qualquer leitor. Acreditava inclusive que houvesse consenso dessa classe de que o PT seria seu melhor representante, uma vez que detém a direção dos aparatos que podem conter um ascenço popular como os sindicatos e os movimentos sociais, e ainda é enxergado por uma grande parcela da massa como seu fiel representante.

Admito desde já que não sou um grande teórico — li mais comentadores que textos base, muitas vezes tive preguiça de ler os textos antes de assistir às aulas, ao que peço licença se minha opinião incomode os estudiosos sobre o assunto e me coloco aberto ao debate ciente de que não posso levar nenhuma das minhas opiniões ao absoluto. A questão que apresento é que se o PT defende os interesses dos banqueiros — que continuam batendo récordes de lucro mesmo com a crise que o governo está nos empurrando a conta — e dos grandes empresários, enquanto ataca conquistas históricas dos trabalhadores com mudanças na previdência e chega ao cúmulo de permitir redução dos salários e cogitar a volta da CPMF sem nem discutir a taxação das grandes fortunas, para mim fica muito claro o posicionamento do governo. Ele não está do nosso lado. É um governo de direita.

Quando evoco esse termo — a direita — associo a ele todas as ações que defendam os interesses do que entendo por classe dominante: aqueles que detém a maior parte do capital e das riquezas do mundo. Muitos estudos estimam que entre 1 e 2% a parcela da população detém mais de 50% do PIB mundial (e são muitos estudos mesmo, então Google para achar o que mais te apetece), incluindo uns super-ricos brasileiros que já conquistaram influência na política mundial (recomendo uma matéria que não fala exatamente sobre isso, mas dá bons contornos sobre quem são os super-ricos e como você os sustenta). São as figuras que hoje mais influenciam o curso da política e economia mundial. Também são os caras que nesse regime democrático aportam fortunas em campanhas de candidatos que podem defender seus interesses (como o Cunha, que recebeu doações de planos de saúde durante sua campanha e está tentando emplacar leis que privilegiem seus patrocinadores).

Há quem justifique que o PT é um partido de esquerda baseado em sua história. É fato: o PT teve papel fundamental na organização dos trabalhadores na luta contra a opressão e conquista de direitos. Só que o posicionamento político é dinâmico e determinado não pela história, mas pela ação e suas consequências. Nesse momento está bem óbvio quem foram os grandes prejudicados pela política petista. O poder de compra diminuiu. Os juros aumentaram — e o crédito, principal alavanca do consumo, está ficando mais caro do que os assalariados que não tiveram aumento real de sua renda podem pagar. Já não está tão fácil realizar o sonho da casa própria e o risco do desemprego está batendo à porta. Os cortes estão atingindo até os benefícios para cursar ensino superior — mesmo que os maiores beneficiados com isso tenham sido os empresários da educação e não os estudantes. Tanto a nova quanto a antiga classe média está prestes a perder seus benefícios — e porque não dizer, seus luxos.

Encontrei recentemente um amigo da época do colegial e que não via desde então. Enquanto fumávamos um cigarro — para prolongar o papo, fumamos dois, fizemos um resumo compacto sobre o curso de nossas vidas. Por algum motivo essa conversa chegou em um ponto comum entre nós: a militância política. Em seguida o ponto divergente: ele em uma tendência do PT, eu sempre na oposição — à esquerda, vale frisar. Em um determinado momento perguntei com sinceridade se eles sabiam que suas ações traiam sua história — não em tom de enfrentamento, mas com completa sinceridade. Ele me respondeu confirmando que acha nojenta as alianças que o partido tem feito (e fez uma piada sobre o Maluf), mas que são necessárias concessões para governar. Mas justificou que ainda que o governo esteja imerso em uma relação promíscua com as classes dominantes ainda conseguia ter pequenas vitórias — e falou sobre um CEU que conseguiu construir na periferia e a liberação de verbas que o governo do Kassab tinha retido para terminar de construir uma UPA. Por fim, quando nos despedimos, apertamos as mãos e ele me disse: “agora nós somos oposição, mas se houver revolução estaremos juntos na trincheira”.

Lembro dele como uma pessoa íntegra e sonhadora. Acho mesmo que ele acredite nesses argumentos — diferente de muitas figuras que conheci no sindicato dos bancários que não faziam questão de disfarçar o cinismo, como o diretor que um dia me disse que “quem tem a caneta escreve a história” ou o Vaccari pedindo para me posicionar contra a greve de 2004. Mas refletindo sobre essa conversa, enxergo que na realidade as tais concessões não são do PT para a direita: o PT governa para a direita. As concessões são para o povo.

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