Horrores na Internação de Dependentes Químicos

O governo do Estado de São Paulo aprovou recentemente a internação compulsória de dependentes químicos — um “prolongamento”, por assim dizer, da já existente internação involuntária, em que qualquer familiar pode solicitar a internação de um dependente, sem laudo médico, bastando avaliação do médico da clínica que vai recebê-lo. No dia 20 de maio deste ano, o Dr. Ronaldo Laranjeira, coordenador da política de combate à dependência química do Estado de São Paulo, concedeu uma entrevista ao “Roda Viva” na qual defendeu a internação e, apesar de afirmar ser uma alternativa de “último caso”, deixou escapar que é mais barato para o governo conceder a Bolsa Recomeço (conhecida como “bolsa crack”) do que investir em tratamento ambulatorial para todos os dependentes (como tem sido feito há tempos pelos CAPS).

A entrevista do Laranjeira me deixou tão horrorizado que decidi consultar especialistas para saber até que ponto seus argumentos eram verdadeiros. “Os dados que ele cita são irreais, é muito fácil dizer que viu uma pesquisa nos Estados Unidos e não dizer qual foi a pesquisa”, disse um médico especialista em dependência química pela Universidade Federal de São Paulo. “Já fui a colóquios ministrados pelo Laranjeira nos quais ele nem apareceu”, disse-me outra psicóloga. Ambos afirmaram que Laranjeira é mais político que médico. Saber que é ele quem coordena a política de combate à dependência em São Paulo é assustador, afinal, “a droga dele é o poder”, como disse Denis Russo (da revista Superinteressante).

Minhas críticas à internação vão além da minha simpatia pelo movimento antimanicomial, que acabou com os depósitos humanos de pacientes diagnosticados com psicopatologias. Eu mesmo presenciei uma série de horrores em uma clínica de tratamento da dependência química que apenas depois de alguns meses de terapia consegui falar a respeito e, em partes, superar, pois ainda tenho pesadelos com isso de uma a duas vezes por semana.

Após um longo período de abuso de álcool e uso eventual de outras substâncias resolvi procurar uma internação pela primeira vez em 2010. Parecia-me uma solução mágica e que, uma vez enfrentada, eu estaria 100% reabilitado e livre do risco de voltar a beber novamente. Mas logo descobri que não: a recaída pode acontecer a qualquer um, em qualquer momento, independentemente deste ter passado ou não por internação e, além disso, não há diferença entre os riscos de recaída entre quem foi internado e quem passa por tratamento ambulatorial. Ainda assim, a vantagem da internação é que o dependente fica em ambiente protegido, drugs-free, sem acesso à sua droga de preferência ou qualquer outra e isso favorece a desintoxicação e a superação da fase da abstinência.

Essa minha primeira experiência foi muito boa. Passei 60 dias internado em uma clínica na Zona Norte de São Paulo sob a supervisão de um excelente psiquiatra, que já não trabalha mais lá mas continuou me atendendo após a internação no CAPS Prosam, na Vila Madalena. Éramos tratados como seres humanos, não como doentes irrecuperáveis. Aprendi sobre o funcionamento da dependência química e outras comorbidades, sobre o efeito de cada uma das drogas no corpo e na mente, além de anatomia e farmacologia; com isso pude observar que, independentemente da droga que o indivíduo usa, os efeitos da dependência são semelhantes para todos, muito embora — é verdade — as sequelas causadas por cada uma possam ser diferentes.

Passei um longo período abstêmio em tratamento ambulatorial mas, dois meses após abandoná-lo, recaí. Dessa vez, meu psiquiatra recomendou uma internação de longa duração e, para quem está desesperado, tudo é válido. Me informei sobre a Comunidade Padre Haroldo, em Campinas, que segundo referências mantém um trabalho sério e competente, mas meu plano de saúde — a Caixa de Assistência dos Funcionários do Banco do Brasil — indicou uma outra “comunidade terapêutica” credenciada a poucos quilômetros de São Paulo. Entrei em contato telefônico com eles, conheci o site e segui para lá.

O primeiro choque e prova de má-fé da instituição deu-se na minha entrada: fui recebido por uma técnica de enfermagem e dois seguranças, levado até o posto onde seria avaliado por um psiquiatra, e impedido de assinar os papéis da minha própria internação. Por conta disso, a partir daquele momento, eu já não poderia mais sair por vontade própria. Eu teria o direito a fazer uma ligação de 5 minutos para minha família por mês, monitorada, e se falasse algo desabonador sobre a clínica o contato seria interrompido. “Me fale, como é essa clínica?”, perguntou minha mãe, que eu já não via há tempos, desde bem antes da internação, ao que o monitor interrompeu e me disse “você não pode falar sobre isso”.

As visitas da família, uma vez por mês, também eram monitoradas. Uma semana antes da visita eles melhoravam a qualidade da comida, nos tratavam melhor e, três dias antes, começavam a alertar: “não peçam para suas famílias para sair”. Um médico psiquiatra, internado lá na condição de paciente, burlou essa regra e pediu para sair no dia da visita. A psiquiatra responsável — que para nós, sempre estava indisponível e nos atendia duas vezes por mês — informou para a família que ele estava “em negação”, que “não estava aceitando o tratamento”, e logo depois da visita ele passou a ser dopado com medicações que não permitiam nem que ele falasse direito.

Existia também uma cela — a temida “contenção”, um quarto com grades, sem vaso sanitário e monitorado por um segurança. Quem transgredia as normas ia para lá. Um paciente recém-chegado arranjou briga com um monitor e acabou “condenado” à contenção: foi agarrado pelos seguranças, levado para lá, amarrado na cama e espancado. “Você acha que está onde? Aqui é o (…)” — disse o chefe da segurança antes de desferi-lo um soco no rosto. Não foi o único caso de tortura física que presenciei: outro recém-chegado quebrou um prato no refeitório, foi confrontado por um monitor e tentou agredi-lo. Os seguranças o agarraram e sufocaram com uma gravata, em um gesto tão violento que o dono da clínica viu de longe e intercedeu.

A cela de contenção não servia só para punição: também era um instrumento de uma espécie de “operação abafa”. O paciente que recebeu os socos na cara ficou trancado lá até que sumissem as escoriações e ninguém pudesse ver o que tinha acontecido com ele — afinal, se ele relatasse alguma coisa, todo o time de monitores e psicólogos estava lá para nos convencer e, sobretudo, convencer a família, de que era mentira. Havia entre nós três menores de 18 anos internados, entre 14 e 17 anos. Um deles, de 15 anos, foi assediado e manteve relações sexuais com outro paciente de 30 anos. O caso ficou público lá dentro e o menor foi trancado na cela de contenção até que o assunto fosse esquecido e parasse de ser alvo de chacota. Dois monitores que se manifestaram contra isso foram demitidos.

Vale lembrar que o preço da internação nessa clínica supera em muito os R$1.355,00 da “bolsa-crack”: está em torno de R$7 mil. Além dos diversos médicos que estavam internados comigo, estavam também filhos de juízes e outros figurões de governo, grandes proprietários de terra e até de indústria de peças de aviação. O ambiente é uma espécie de modelo hiperbólico do inferno de Sartre em “Entre Quatro Paredes”: sem espelhos, sem objetos que remetam à dignidade humana — mas tínhamos sim escova de dente — confinados, sem contato nenhum com o mundo exterior além das visitas e ligações mensais durante 9 meses ou mais. Nessas condições, é óbvio, o indivíduo não é reabilitado: ele desaprende a viver em sociedade. Um dos pacientes que conheci, herdeiro de diversos imóveis na região da Avenida Paulista, está lá há 7 anos. Saiu duas vezes nesse período e só conseguiu ficar limpo por no máximo 3 dias. Não é exceção: durante os 120 dias que permaneci internado, presenciei cerca de 16 saídas, dos quais 14 voltaram em menos de um mês. De todas as admissões nesse período, só eu não era “reincidente”.

Observando esse cenário, fica óbvio que a internação por longa duração, totalmente segregado da sociedade, não só não é uma alternativa de tratamento como é uma forma de piora do quadro do dependente. Eu, em particular, tinha ideações suicidas diariamente enquanto estava internado, e perguntei a diversos outros pacientes se “era normal” o que eu estava sentindo: todos sentiam o mesmo. Mais de um deles chegou a me dizer: prefiro morrer usando crack que ser internado aqui, e alguns que já tinham passado pela cadeia diziam que no cárcere as condições eram melhores.

Como a prisão, a internação compulsória e involuntária de dependentes químicos em ambientes como esse só mostra a incapacidade do Estado em lidar com o problema. A dependência química é uma doença complexa — como disse Ronaldo Laranjeira — e as melhores formas de tratá-la ainda estão sendo testadas pelo mundo todo, mas a internação nos moldes que está acontecendo no Estado de São Paulo certamente não colaboram para a recuperação e tampouco para a reabilitação. Ainda assim, é uma boa medida cosmética: se não houver dependentes vagando pela cracolândia todas as noites, certamente vai parecer que o problema está sendo solucionado. Só quem está internado e quem suporta essa política — como o Laranjeira — sabe que não está.

Veja a entrevista do Dr. Ronaldo Laranjeira no Roda Viva

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