Pensando em época de Cunhas e Datenas

O primeiro post do Repositório Filosófico data de 17/07/2010. Em 2013 o site saiu do ar por dificuldades financeiras (é um projeto bancado basicamente por um homem só), e depois de dois anos volta a ativa. O que há de surpreendente nisso é que muitos dos textos escritos antes mesmo das manifestações de 2013 relatam a realidade tanto daquela época quanto da atual. Afinal, não há nada de novo debaixo do sol?

Há sim. O que antes eram conjecturas agora está em via de provar-se realidade: Lula fez lobby internacional pelas grandes construtoras (que, aliás, continuam operando mesmo com seus executivos presos), a Petrobrás teve um rombo bilionário com esquemas de corrupção e — pasme — as manifestações de 2013 resultaram em uma ‘guinada à direita’. Nas últimas eleições foi eleito o congresso mais conservador desde a ditadura militar, e a síntese desse pensamento está encarnada na figura do presidente da câmara, Eduardo Cunha.

O desastre que é o governo do PT na esfera federal transformou-se na desculpa perfeita para uma onda conservadora, que diz que a esquerda é um retrocesso para o país e que a alternativa é negar todo projeto que contenha qualquer borrão vermelho. Apesar de ter usado o sentido figurado nessa última frase, a ala conservadora chegou ao cúmulo de dizer que o Haddad pintou as ciclovias de vermelho como apologia ao comunismo. Parece que criou-se uma espécie de guerra fria dentro do nosso próprio país. Estou longe de ser pró-petista, mas o anti-petismo tornou-se uma espécie de grife. As coisas vão mal — em qualquer esfera? É culpa da Dilma. O metrô de São Paulo está com o cronograma atrasado há mais de 3 anos e o modelo de PPP provou-se ineficiente para melhorar o serviço e estender a malha ferroviária, ainda assim, o governo Alckmin vai entregar a linha 5 à iniciativa privada. Ninguém liga… A culpa é da Dilma.

Não acredito que haja um movimento orquestrado da grande mídia (ao menos a impressa, as Organizações Globo são um capítulo à parte) de privilegiar um ou outro. Eles estão mais em cima do muro do que nunca. Há um pouco mais de destaque aos desmandos do PT, mas não deixam de mencionar as improbidades do PSDB. Preocupante é que quem está surfando livremente nessa onda anti-petista são figuras como o Eduardo Cunha. Através de manobras regimentais, conseguiu aprovar a redução da maioridade penal e o financiamento privado das campanhas. Depois, puto por ter sido mencionado na operação Lava Jato resolveu desengavetar as propostas de impeachment e declarou-se oposicionista do Executivo, e apesar das implicações éticas insiste em manter-se na cadeira de presidente da câmara.

Nessa conjuntura mais que desastrosa, nada mais coerente que uma figura como Datena se lance como candidato a prefeito pelo partido do Maluf. Bandido bom é bandido morto, afinal, ainda que essa frase oculte ‘pobre tem que morrer’. Pessimista que sou, não tenho dúvidas de que conseguirá se eleger. Tenho sim uma grande preocupação de qual será o fundo desse poço, já que as coisas estão piorando dia-a-dia. E se a única saída vem da mobilização das massas, muitas coisas precisarão ser esclarecidas para o senso comum: a primeira delas é que PT não é esquerda, e que a direita que se apresenta como salvadora na realidade não está lá para defender seus interesses. Aliás, se quem se apresenta como esquerda não está defendendo os interesses das massas e a direita, bem, é a direita, quem é que sobra para lutar por nós?

Nós.

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