2. super ego, super ego e super ego

“O que importa quantos amantes você tem se nenhum deles te dá o universo?” — Lacan

Pago a analista com pontualidade, mas quando sento na cadeira não consigo falar nada. O consultório é uma minúscula sala no último andar de um prédio antigo na rua do Teatro Rival, na Cinelândia. Eu gosto do consultório, tem uma varanda com uma boa vista.

A analista é mais nova que eu, acabou de terminar a graduação. Eu devo ser seu primeiro cliente. Ela começou mal, pois não sou um bom analisando. Meu inconsciente é muito arredio. Ele não liga pra dinheiro, não quer saber que estou pagando e jogando dinheiro fora. É um egoísta.

Não tenho nada pra dizer. Eu tenho plena consciência que isso se dá em boa parte porque sou um homem. Me lembro de ter um medo intenso e verdadeiro de chorar em público desde que ganhei consciência sobre meus próprios atos. Tenho a impressão de que sou naturalmente sensível (meu signo é peixes) e de que no fundo sou muito carinhoso. Mas ajo com brutalidade ou distanciamento (meu ascendente é virgem). Uso artifícios como um discurso retórico, marxismo ou astrologia para tergiversar de assuntos que me façam sentir fragilizado em público. Mesmo agora, sinto que ao escrever essas palavras estou deixando de escrever outras, sempre deixando de expressar alguma coisa que seria mais profunda, mais verdadeira, aquilo que eu realmente sinto, que não falo.

Mas já sou velho o suficiente pra saber que não existe nada por detrás do que eu falo. Não tenho nada pra dizer, não tenho nada pra abrir. Sinto que há algo preso, mas não visualizo isso. Talvez seja como se eu desconhecesse sequer a língua com que se falam as coisas abertas. Tenho coisas que não digo pois seriam constrangedoras, mas são só fatos exóticos, coisas difíceis de falar, apenas isso. Não me parecem atingir nada de essencial. Talvez a solução fosse falar essas coisas, sem esperar nada. Fosse causar o trauma de dizer absurdos, esquisitices e taras em público. O conteúdo do que eu dissesse não seria relevante, mas a experiência traumática de se expor talvez fosse.

De qualquer modo, eu não disse e larguei a análise.

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