A Roda do Tempo: Sobre a não evolução cíclica da sociedade

O mundo tem um tempo cíclico e a sociedade humana é incapaz de evoluir progressivamente por conta da maior parte da parcela da própria sociedade.
A grande massa nada faz e apenas repete o que poucos dizem. Se há, em algum momento, uma evolução, é por conta de poucos que pensam e conseguem, por sorte ou muito esforço, chegar na posição correta — que geralmente se encontra preenchida por algum boçal que mantem o “status quo” medíocre.
Como exemplo eu posso citar as Sufragistas ou Martin Luther king Jr….
Hoje olhamos para trás e pensamos “como alguém pode ter defendido as políticas e ações de Hitler e seu exército?”, mas ao mesmo tempo, é só olhar ao nosso redor que vemos grandes sinais de violência e pensamentos abomináveis que beiram a irracionalidade de gente próxima que, muito provavelmente, defenderiam.
Lembro que um dia eu li uma frase… Algo como “Matar é fácil, a parte difícil é encontrar o motivo”. E é verdade, a história demonstra que o ser humano é capaz de tudo, basta a desculpa para permitir o faze-lo.
Se fizermos uma linha cronológica rápida (só com alguns eventos conhecidos), temos hoje gente defendendo atrocidades em nome “da família de bem”’; crianças sendo separadas dos pais deportados e presas em jaulas em nome da “soberania”, afinal, no “país da liberdade” a liberdade é apenas para os Americanos; Venezuelanos sendo expulsos ao som do Hino Nacional em nome de? De que mesmo? Segurança? Paz?;…
Em 1945 os EUA jogaram 2 bombas nucleares em Hiroshima e Nagasaki em nome da “segurança e paz” do país… Nessa mesma época, 73 anos atrás, houve o Holocausto (que durou 12 anos sob os olhares de milhões de Alemães “de bem”), em nome de reestruturar a Alemanha e exaltar o poder da raça Ariana…
Quero lembrar que atualmente (31/08/2018), há Alemães de estrema direita que defendem a expulsão dos mulçumanos da Alemanha para que ela se torne “a terra dos alemães novamente” ou mesmo um Apartheid… E falando em Apartheid, em 1948 começavam os 48 anos de segregação racial na África do sul e, na mesma década, nos EUA… E falando em problemas raciais, houve o Escravagismo em praticamente todos os países do mundo cujos efeitos refletem até hoje, por mais que o Brasil algumas vezes querer fingir que não… Foram 300 anos de escravidão no Brasil. Onde negros não tinham direitos por não serem considerados seres humanos…
Falando em não ter direito, só em 1932, a mulher brasileira obteve o direito de votar nas eleições nacionais e até 1962, as mulheres casadas só podiam trabalhar fora de casa se o marido permitisse… Ou seja, menos de 56 anos… Sua avó viveu isso.
(Portanto, se você for mulher, quando for reclamar de “feminismo” não se esqueça que se não fosse por elas, você provavelmente não poderia votar nessas eleições e tampouco ter seu próprio dinheiro se seu marido não permitisse. Parece piada né? Mas não é, e se trata de um passado recente. E em alguns países a mulher ainda não pode sequer dirigir ou pegar ônibus sem a permissão de um homem.)
Mas vamos continuar na nossa linha do tempo, porque a história de gente defendendo absurdos se repete…
No século 19, no “boom” da revolução industrial, as fábricas colocaram crianças para limpar chaminés, foram cerca de 98 anos de crianças morrendo por intoxicação, queda e diversos outros motivos. Vale acrescentar que as crianças trabalhavam o mesmo número de horas que um adulto (12 horas por dia) e recebia muito menos (as mulheres também) e que famílias inteiras trabalhavam até a exaustão recebendo salários irrisórios por terem que se sujeitar às políticas impostas pelas empresas por não existir leis de proteção ao trabalhador (nem à criança)…
Antes houve a Santa Inquisição, que durou 588 anos e matou milhares…
Percebemos o quanto Hobbes estava correto ao dizer que “o homem é o lobo do homem”.
A história demonstra que independente da era, a grande maioria da sociedade, os chamados “cidadãos de bem”, não mexerão um dedo para melhorar nada, mas se mobilizarão para permitir atrocidades.
Hoje, se diz em defender a “família”, os “costumes”…
Mas em nome dos valores morais se fizeram as maiores covardias. O lema da inquisição era “misericórdia e justiça”, não “tortura e bota fogo”, o lema do nazismo era “um povo, um império, um guia” e, o lema das tropas SS era “Honra e lealdade” (“minha honra chama-se lealdade”, para ser mais exato)…
A segregação racial (Apartheid) se baseava nos princípios cristãos “do que é justo e razoável”.
“Justo/Justiça”, “Razoável/Aceitável”, “Pelo bem da nação”, “Por patriotismo”, “Honra”, “ Lealdade”, “Misericórdia”… “Família”, “Moral”, “Costumes”, “Bem”… São pretextos bons, para justificar o mal, ou você acha que a família branca dona de escravos não se chamavam de “família de bem”? Não seja burro.
Kant já dizia que “a inumanidade que se causa a um outro, destrói a humanidade em mim”
Mas, como eu disse, a maioria da população sempre se encontrará inerte ou misteriosamente agirá contrária aos interesses próprios. É por isso que a grande maioria parece-me se esquecer ou sequer compreender essa frase de Kant.
Haverá poucos que mudarão o destino da humanidade para melhor e muitos que ou não farão nada, ou lutarão contra.
É por isso que vemos mulheres contrárias ao feminismo, trabalhadores contrários às leis que os protegem de seus patrões, pessoas que defendem o fim dos direitos humanos, mesmo sendo elas mesmas humanas… Gente defendendo a morte de outras, simplesmente por não as considerarem mais “humanos” (exemplo da galerinha que repete “bandido bom é bandido morto”). E, por fim, pessoas incentivando crueldades contra outras pessoas.
Repare: Hoje vemos pessoas contrárias ao feminismo, igual a 200 anos atrás perseguiram as sufragistas;
Hoje vemos pessoas contrárias as leis dos trabalhadores, igual a cerca de 150 anos atrás na revolução industrial;
Hoje defende-se o fim dos direitos humanos, esquecendo-se que ele foi fundado após as Guerras Mundiais e as abominações realizadas nelas (experiências com prisioneiros de guerra, condenação a morte sem julgamentos, estupro de civis, trabalho escravo, e muitos outros, bombardeamento de escolas e hospitais… de fato, bombardeamento nuclear de duas cidades inteiras); Como disse Hanna Arendt: “A essência dos Direitos Humanos é o direito a ter direitos”… E ainda tem gente inexplicavelmente pedindo o seu fim.
Hoje defende-se que “bandido bom é bandido morto” e a retirada dos direitos humanos, diminuindo a humanidade do bandido e reduzindo ele a “menos que humano”, mesmo argumento que permitiu a escravidão por 300 anos no Brasil e no mundo de maneira geral;
Hoje tentam restringir os direitos LGBT, assim como fizeram com o direito dos negros e das mulheres à pouquíssimo tempo (56 anos atrás.)
Defende-se que se expulse do país estrangeiros, com a mesma mentalidade dos que pediam a separação racial no Apartheid.
A memória humana é minúscula e a grande maioria quase não evolui. O pensamento cruel e sádico de 500 anos atrás se encontra presente, apenas camuflado com uma roupagem nova. As eras passam, mas a mentalidade violenta, mesquinha e egoísta humana permanece.
Eu nunca apoiaria nada que pudesse diminuir minha humanidade, como John Donne disse:
“A morte de cada homem diminui-me, porque eu faço parte da humanidade; eis porque nunca pergunto por quem dobram os sinos: é por mim.”
