A geração que quer liberdade e pode conseguir

Recentemente li dois textos que bombaram na internet e me chamaram bastante atenção:
A geração que encontrou o sucesso no pedido de demissão — Ruth Manus
A juventude que não pode largar tudo para viajar o mundo ou vender brigadeiro — Yasmin Gomes

O texto da Ruth Manus fala sobre uma recente tendência bastante forte, das pessoas que andam largando tudo para viajar pelo mundo, ou trocando carreiras convencionais para abraçar atividades que amam, como vender brigadeiros. Dando uma força para esse raciocínio, uma pesquisa da Isma Brasil (International Stress Management Association) mostrou que 72% das pessoas estão insatisfeitas com o trabalho que desenvolvem.

Segundo ela (Ruth), a geração atual não está mais exclusivamente ligando sucesso profissional e status à satisfação pessoal como um todo. É possível ser feliz vivendo com menos e conseguindo, em contrapartida, ter mais controle sobre a vida e o tempo.

Yasmin rebate com uma visão mais “pés no chão”, mostrando que essa não é a realidade do brasileiro médio. Este adoraria fazer uma eurotrip de dois anos ou largar o emprego para vender brigadeiros, mas esses movimentos não são possíveis. Muitos brasileiros precisam do emprego “chato” para pagar o aluguel, as contas intermináveis e ainda ajudar a família.

A discordância de visões é interessante, rica, atual e me chamou para o debate. Então, usei esta introdução para agora expor a minha opinião sobre o tema. Nem oito, nem oitenta. É possível ser mais dono do próprio tempo, ter liberdade geográfica e ainda assim ter uma boa condição de vida. Só que a transição para esse modelo de vida dificilmente será o conto de fadas que muitos imaginam. Não se alcança o castelo sem matar uns dragões pelo caminho. Porém, sabendo apreciar, também há belos jardins no percurso.

Sobre largar tudo para viajar pelo mundo, vou ser curto e grosso, pois esse tema não é o meu foco nesse texto. Vejo quatro formas de isso acontecer:
- Parabéns! Você nasceu em berço de ouro e pode partir.
- Você já acumulou bastante grana e pode fazer isso desde que esteja protegendo seu futuro ou que faça uma viagem com prazo definido. Nada contra o ano sabático!
- Você está disposto a conseguir subempregos em diferentes destinos e não liga se tiver que passar por pequenos perrengues para continuar custeando a viagem.
- Você conseguiu um emprego remoto, faz freelas sem precisar de contato presencial ou consegue gerenciar um negócio remotamente.

O que eu queria mesmo falar no meu texto é sobre a possibilidade de largar um emprego para fazer algo que se ama. Certa vez, ouvi um belo questionamento sobre o que fazer da vida profissional que me ajudou a entender a minha relação com o trabalho e te aconselho a fazer igual. São duas perguntas a serem feitas a você mesmo:
- O que você faria na maior parte do seu tempo se não existisse dinheiro no mundo?
- Agora, considerando que o dinheiro existe, como ganhá-lo a partir da sua primeira resposta?

Realmente, está cada vez mais difícil para o ser humano se dedicar a uma carreira não tão alinhada com valores pessoais e uma vida equilibrada. No meu ponto de vista, a Ruth Manus focou mais no círculo social dela e menosprezou outras realidades que precisam passar pelo que eu chamo de “travessia para o empreendedorismo”.

Já a Yasmin Gomes não deveria ter fechado 100% essa porta para o brasileiro médio. Ambas teceram alguns bons comentários, mas ficaram restritas em suas visões, economizando horizontes e opções. Para mundos interiores e exteriores, hoje, não há limites.

A possibilidade de largar tudo e se dedicar a algo que se ama é uma tendência e é, sim, real. Mas, na maioria dos casos, isso não vai ocorrer da noite para o dia. Do mesmo jeito que a Yasmin citou exemplos de pessoas que precisam trabalhar pesado para custear sua educação formal, há vários casos de empreendedorismo bem-sucedidos de pessoas que ralaram trabalhando para custear os primeiros anos de operação no prejuízo de suas ideias de negócio. A questão é a escolha ou a etapa na qual você se encontra.

Essa mudança, de se sustentar fazendo algo em que você vê mais propósito, provavelmente vai exigir, sim, capital próprio, mas ele não precisa estar ainda na sua conta bancária. É uma jornada difícil, com várias etapas, cada vez mais complicadas e que vão te fazer se perguntar se você quer realmente fazer aquilo — ou desistir. Já te falo de antemão que há grandes chances de no final valer a pena. Se você está disposto a seguir, deixa eu te explicar o que já vi por aí.

Trabalho há alguns anos ajudando empreendedores na LUZ e posso dizer que a maioria das histórias bem-sucedidas de empreendedorismo que eu conheço vêm de um hobby, paixão ou capacidade transformado em empresa ou ainda de uma ideia ou oportunidade transformada em empresa (mais difícil, ainda mais se você não estiver pronto para aproveitar).

Se você ama fazer brigadeiros e o seu círculo próximo de amigos adora seus brigadeiros, começar a vendê-los é relativamente fácil. Você pode fazer isso com uma hora de dedicação por dia e vai conseguir fazê-lo sem largar seu emprego. Quantos empreendedores de fim de semana eu também não conheço? Durante a semana o “trabalho chato” e no fim de semana a atividade legal. É a história do plano B que seria um sonho se virasse plano A.

O problema é que mesmo que você aceite viver com pouco, o plano B, que é a atividade prazerosa, de fazer pequeno, para os próximos, só vai virar plano A se você for vitorioso na fase em que as dores da gestão começam a aparecer. Uma hora você vai ter que vender mais, contratar alguém para assumir alguma parte do trabalho, gerir as finanças, etc. É nessa hora que o conto de fadas cai por terra e a desistência pode facilmente acontecer.

Nessa fase é onde a mágica acontece para alguns. Você começa a se apaixonar pelas pequenas vitórias e, por conseguinte, pela própria travessia. O primeiro feedback apaixonado de um cliente, o primeiro cliente online de outro estado, a primeira palestra, os primeiros fãs no instagram. Para chegar a essas pequenas conquistas, você precisa buscar novos aprendizados, tempo, superar desafios, abrir mão de coisas, assumir riscos e explorar novas áreas. O ser humano que você começa a se tornar funciona praticamente como um viciado. Pelo menos eu sinto assim.

Não adianta você largar tudo de uma vez. Vai ser preciso levar o seu emprego e se dedicar a um novo projeto nas horas vagas. Vai ser cansativo? Vai. Mas, no fim, a chance de você alcançar o sucesso que almeja é muito grande. E é pessoal. Pode ser conseguir buscar seu filho na escola todo dia e depois sair com ele para tomar um sorvete; ou trabalhar de samba-canção no sofá da sala ao invés de ficar usando gravata; poder ser ter a possibilidade de trabalhar por dois meses remotamente na Argentina ou ter mais tempo livre para aprender algo novo, como surfar. Cada um tem a sua definição de sucesso.

Eu posso falar um pouco por mim. Já fui o jovem executivo com a vida totalmente desequilibrada, mas que tinha um “futuro promissor” em uma carreira convencional. Achava brilhante virar noites para “entregar”, era competitivo. O famoso clichê do escritório. Com o tempo, fui buscando um modelo mais equilibrado. Hoje, já não considero mais trocá-lo.

Acho que as principais mudanças começaram a acontecer quando eu assumi que o trabalho não deveria ser um fardo. Encontrei três sócios que pensam como eu e hoje a nossa empresa consegue ser promissora mesmo com um modelo de liberdade geográfica e flexibilidade de horário. Hoje posso praticar esportes sem ter que acordar de madrugada. Posso viajar numa quinta-feira e ficar trabalhando por uma semana de outra cidade do Brasil, faço home-office sempre que possível, dentre outras coisas. Como eu disse, cada um tem suas preferências e definições de sucesso.

Para não falar só de mim, teve um evento recente que me marcou no ano passado. Eu e meus sócios fizemos quase 20 palestras e clínicas e tivemos contato com quase dois mil empreendedores na Feira do Empreendedor do SEBRAE, no Rio de Janeiro. A maioria dos pequenos empresários vinha das classes mais baixas e estava lutando para manter seu MEI ou pequena empresa. Alguns já tinham conseguido transformar a empresa em plano principal, outros ainda estavam na batalha, mas todos acreditavam e sabiam que teriam que transpirar. Os objetivos, como sempre, variados: estar mais em casa para criar os filhos, ascensão social, ajudar parentes, mais tempo.

Se o seu objetivo de vida é ter mais tempo, mais liberdade e mais controle sobre o que você quer fazer, já passou da hora de começar a lutar por isso. Não importa a sua classe social, de onde você veio e quem você é. A única certeza que eu tenho é que, sem fazer nada, você continuará criticando ou aplaudindo os textos que definem a sua geração ao invés de moldá-los.