Com um barulho altíssimo e incômodo e uma tela preta e branca representando o cinza, The Lighthouse abre de forma esquisitamente grande para te transportar àquele pequeno pedaço de mundo.
Um farol, um barulho incessante e repetitivo, um Robert Pattinson sujo e quieto e um Willem Dafoe mais sujo e bastante esquisito. Esses são os elementos que, dentro de uma atmosfera perigosa, sem cor e esquecida por qualquer um de fora, dão vida à história contada.
Em 2015 com A Bruxa, Robert Eggers ficou popular e notícias e mais notícias sobre o terror do ano, dos últimos anos, da década surgiam todos os dias. Na época, A Bruxa causou discussões ferrenhas entre “isso não me dá medo!” e “isso é medo de verdade”. Em The Lighthouse, acredito que talvez a mesma discussão aconteça, embora, para mim, o atual filme tenha um elemento de horror absolutamente… Horroroso (o melhor sentido da palavra) e se mostre de forma mais profunda.
A narrativa é lenta, não excessivamente, não arrastadamente, apenas lenta. O ritmo é perfeitamente combinado com o preto e branco (elemento encaixado perfeitamente com a premissa do desconhecido perigoso cada vez mais iminente) e a dinâmica entre os únicos dois atores em cena é palpável, desgostável e desconfortável. Como deve ser.
Robert Pattinson, que ao longo dos anos vem demonstrando cada vez mais uma capacidade performática indiscutível, aqui atinge um nível acima. Ultrapassa o personagem e torna-se algo mais. Ephraim Winslow, seu personagem, desperta curiosidade, empatia, confusão e medo. Medo do medo dele.
Willam Dafoe está nojento (fisicamente, inclusive), misterioso, desprezível e, como Pattinson, amedrontador. Sente-se não só medo do medo dele, mas medo do próprio e receio do que ele sabe e do que diz saber.
Todos os elementos ao redor do farol são perigosos, enigmáticos e carregados de intenções vis. O medo no filme não vem daquilo que se pode ver, mas de tudo que está escondido e de toda aquela atmosfera sufocante da qual uma vez dentro, você sabe que não pode sair. O elemento do gore é usado de forma quase que natural e, causando ou não choque, causa sem dúvida alguma algo.
Toda a construção entre dois seres dos quais quanto mais se sabe, mais surgem dúvidas. Os ataques desproporcionais de Dafoe em contraste com a raiva compreensível de Pattinson são deliciosamente equilibradas e crescentemente causadoras de alertas de perigo.
The Lighthouse assusta genuinamente por causar a sensação constante de incômodo e erro. Assusta também porque seu absurdo mitológico é palpável e porque você está preso junto com aqueles dois homens naquele mesmo ambiente fedido e chuvoso. 2019 trouxe boas surpresas no cinema de horror, e entre elas, a mais satisfatória foi a obra de Eggers.
Bad luck to kill a seabird.
